domingo, dezembro 16, 2012

A luta não deve ser contra os políticos, mas sim contra os privilegiados do sistema



Falarmos em mobilização social, não pode ter somente como objectivo, o exercer de um direito à contestação ou manifestação pública, com o maior ou menor ajuntamento de pessoas, em espaços públicos, mas sim a capacidade que uma sociedade tem, de opinar e intervir, na busca de resultados com objectivos bem definidos e que seja desejado por todos.
O objectivo de convocar e mobilizar vontades, na procura de um projecto comum, deve e tem que ser compartilhado num processo de mobilização social participativo e de total liberdade.
A decisão de participar em movimentos cívicos, sendo uma opção a que cada um diz respeito, depende essencialmente da vontade das pessoas, ou da capacidade que sentem, para provocar e construir essas mudanças.
Para se atingir um objectivo e propósito comum em sociedade, pressupõe a existência de uma convicção colectiva da importância do seu contributo e sentido público, do que é relevante e convém à maioria.
Perante uma crescente onda de corrupção nos meios políticos, começa a existir um certo movimento contestatário e repulsivo do desempenho dos partidos e dos seus representantes, nesta democracia representativa em que vivemos. Nesse contexto, torna-se imperativo salvaguardar, de uma forma clara e inequívoca, que evidentemente nem todos são iguais e que também existe gente honesta na sua forma de estar e gerir a coisa pública, caso contrário, não se auguraria nada de bom e daria uma imagem desgraçada, doentia e falida do sistema democrático.
Afinal de contas, desconfiar dos políticos, de alguma forma é uma expressão de saúde democrática, porque todos quantos se manifestam, o fazem contra o que de mal vai acontecendo, e não contra o que de bom se retira dos seus actos e procedimentos.
Por isso mesmo, não pode ser visto nenhum mal no direito à manifestação levadas a cabo na rua, porque a demonstração de repúdio e contestação às terríveis medidas de austeridade impostas, representam e significam o resgate que a sociedade exige pelos seus direitos, cansados que estão de uma sociedade de privilégios só para alguns.
Essa demonstração cívica e utilidade numa sociedade em convulsão, terá que estar direccionada na construção de um projecto de futuro, e não como um único propósito de transitoriedade, convertendo-se em nada mais do que uma acção desgarrada de campanha e sim num processo de mobilização, de dedicação contínua e com consistência para que produza resultados no quotidiano de cada um de nós.
O sentimento compartilhado numa mobilização social, como um acto de comunicação de defesa de interesses comuns, não pode nem deve ser confundido como uma mera acção propagandística ou de divulgação de arbitrariedades, mas terá que ter um sentido mais amplo e visionário de estabilidade e mobilização, na acção, decisão e propósitos.
Toda a sequência e trato, na vida das populações, têm que ser construídos com muita dedicação e sacrifício, não como um facto natural, porque natural é a nossa tendência a viver em sociedade, na certeza de que só assim a mudança será possível.
Os sistemas democráticos foram construídos a partir do momento em que se descobriu que a ordem social não era obra do divino, mas construído pelos homens, que souberam conjecturar a possibilidade de se construir uma sociedade, cujo destino teria que ser definido por todos sem excepção quantos nela participavam.
Essa realidade só será possível e concretizável, a partir do momento em que as pessoas acreditem que a construção de uma sociedade democrática justa, dependerá unicamente da sua própria vontade e escolhas.
A participação cívica ou não, de cada um, será o factor principal para a formação e consolidação de uma nova ordem democrática. Torna-se necessário assumirmos o nosso destino, avocando com responsabilidade e sem fatalismos ou subserviência, a formação de uma nova mentalidade na sociedade civil, que se capacite a si própria que poderá criar uma nova ordem social, capaz de compreender e erradicar os males de que actualmente sofremos, como a hipocrisia, a corrupção e a falta de solidariedade.
O conflito e confronto de ideias são essenciais e saudáveis, na convivência democrática, onde não devem existir inimigos, mas opositores, que pensando de forma diferente procuram soluções e objectivos com formatos diferentes, com interesses distintos, mas com os quais se poderá e deverá discutir e consensualizar, no objectivo de se atingirem metas comuns, colocando-se acima dos interesses próprios o interesse da Pátria, numa sociedade capaz de criar e aceitar regras para a diminuição dos conflitos e desigualdades.
Essa convivência democrática é fundamental para uma sociedade equilibrada. A democracia não é um Partido Político, mas deverá ser, acima de tudo, uma decisão de toda a população, fundamentando o seu comportamento na aceitação do outro como igual em direitos e oportunidades, numa constante aprendizagem de costumes, maior equidade social, económica, política e cultural.

João Carlos Soares
15 de Dezembro de 2012

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Corrupção, um facto sem solução à vista



Num país em dificuldades económicas, onde as injustiças sociais colocam uma grande parte da população em precárias condições de sobrevivência, deve merecer da classe política uma verdadeira reflexão, perante as enormes contradições, incoerência entre o sentido do dever e de justiça e o apelo premente dos mais desfavorecidos, na dignidade com que o assunto deve ser tratado, por quem tem responsabilidades no aparelho do Estado.
O sofrimento dos outros deveria ser uma preocupação de todos nós, sentimento de responsabilidade e de consciência moral, na promoção do bem-estar e de justiça na nossa sociedade.
Um país que assente em conceitos de direito e igualdade de oportunidades, deve garantir a todos os cidadãos, sem exceção, que as leis e a sua Constituição, efetivamente proporcionem o mesmo tipo de privilégios, quer sejam ricos ou pobres, sem qualquer tipo de descriminação, sem distorções sociais de comportamento ou insensibilidade social. 
Estas questões devem preocupar e configuram-se de uma enorme perplexidade na vida em sociedade, e devem ser a expressão e resposta objetiva no comportamento e atitude das novas gerações.
Às questões de moralidade em sociedade, deve ser dada resposta objetiva nos comportamentos e atitudes, em relação à ética, sensibilidades, maneiras de pensar, viver e agir em grupo, na dicotomia entre a moral e a economia. 
Prioridade das prioridades deverá ser, a preocupação de todos os agentes políticos, através de ações conjuntas na busca de uma solução equilibrada e objetiva, contra as políticas discricionárias e classistas, que nos pretendem impor.
Não há qualquer dúvida quanto à preocupação crescente nos diversos fóruns, onde não nos cansamos de questionar sobre a moralidade e legitimidade sobre a justiça e a ética, na base da responsabilidade social, no desenvolvimento sustentável, empresarial e de cidadania.
No entanto, ao tentarmos analisar e aprofundar a relação moral e a utopia política, que conduziu gerações e gerações, apercebemo-nos que a moral que tanto valorizamos, só por si, sem respeito efetivo pelo próximo, transformar-se-á numa virtude, sendo usada como trunfo e fazendo jeito a alguns, resvalando quase sempre para a hipocrisia.
O Mundo enfrentará enormes privações e expor-se-á a grandes tragédias, se os líderes e os próprios cidadãos, não alterarem as suas atitudes, hábitos e valores.
Facto comum nas democracias modernas, a corrupção, forma de apropriação de vantagens ou do dinheiro público, é vista como uma falta de caráter, sinal de desonestidade e imoralidade, transformando-se num problema moral e ético para a sociedade.
Sendo um problema inerente à condição humana, a moralidade é apenas uma pequena parte do problema, e que muitas das vezes é tomado pelo todo, mas a corrupção é mais profunda, envolvendo uma infinidade de aspetos, além da moral.
Portanto, condenarmos a corrupção, só por aspetos morais, é uma ilusão, transformando-se num grande engano e que pouco poderá contribuir para o combate a esse flagelo das democracias atuais, pois é esta qualidade humana que faz com que os corruptos continuem a dormir tranquilos e a fazer mais falcatruas, justificando-se em consciência que, toda a gente tem um preço e se não for ele a faze-las outro haverá que estará disponível para tal, como diz o ditado “A ocasião faz o ladrão”. 
A corrupção é algo que faz parte do padrão humano, mas a racionalidade poderá criar soluções hábeis, de forma a prevenir e acautelar essa forma de conduta, a partir do momento que temos conhecimento dessas práticas, e que a corrupção não se enquadra nas matrizes nem pode ser considerado só um problema moral, e que se manifesta como uma espécie de efeito colateral das democracias, mas que pode e deve ser combatido.
Para prevenir e acautelar a corrupção em relação às contas públicas, torna-se necessário e urgente criar mecanismos eficientes e muito rigorosos para combater a corrupção no poder público, tomando como indicador que todo o ser humano pode ser corrompido, ainda que tenhamos a sorte de eleger eventualmente indivíduos honestos.
Os escândalos com que somos brindados diariamente, considerados verdadeiros roubos ao erário público, sucedem-se uns atrás dos outros, e a todos os níveis da administração pública, numa sangria desatada que parece não ter fim.
Perante este cenário de assalto às finanças públicas, esperaríamos que as polícias e os tribunais sem qualquer benevolência, resolvessem os problemas, criminalizando com pesadas sentenças para exemplo de outros, todos quantos se envolvem de forma descarada neste tipo de irregularidades, metendo a mão no dinheiro que é do povo.
Enquanto não conseguirmos dotar o sistema de um controlo e fiscalização independente, sem que o poder instalado possa influenciar ou controlar esses processos de inquérito, enquanto não construirmos e dotarmos as contas públicas de total transparência, não haverá ministério público ou polícias que possam dar conta do recado.
Sendo do conhecimento público que os escândalos se sucedem, pergunta-se porque não se combate de forma preventiva estes atos? A resposta está no facto de que as leis, que poderiam condicionar essas irregularidades, são também elas elaboradas pelos beneficiários desses escândalos e de quem os julga, como recentemente foi afirmado publicamente pelo Bastonário Marinho Pinto, tornando-se assim a corrupção num problema sem solução à vista.
Para além da facilidade com que se desvia dinheiro do erário público, existe o duplo benefício do enriquecimento pessoal e financiamento encapotado de campanhas, juntando-se a fome com a vontade de comer.



João Carlos Soares
Barreiro, 12 de Dezembro de 2012

segunda-feira, dezembro 10, 2012

Cuidado com a banha da cobra!



O ano de 2012 está a chegar ao fim, aproximando-se mais um processo eleitoral autárquico, abrindo-se nova temporada da caça ao voto, e montando-se novamente o circo eleitoral.

Depois de uma autêntica revolução no quadro organizativo em torno das freguesias, vai a população ser chamada a escolher os seus representantes mais próximos, esforçando-se as máquinas partidárias por passar a melhor mensagem dos seus candidatos, antes que os mesmos se engalfinhem em autênticas lutas campais, onde algumas trocas de partido e coligações, com a única intenção e objetivo de qual a aliança que mais votos poderá render a essas forças coligadas, numa manipulação descarada das intenções de voto, tomando por base sondagens encomendadas, no cumprimento de uma tradição, já vista noutras temporadas.

Neste contexto, cada um e quase todos em geral, ensaiam os seus truques e malabarismos para obterem a confiança e o voto das populações, apregoando honestidade, ética e que por isso devem ser merecedores de uma oportunidade.

Num contexto de constrangimento orçamental, resultado da grave crise que o País atravessa, não sabemos como poderão os conteúdos programáticos dessas candidaturas, assumir compromissos irrealizáveis, como é prática comum em processos eleitorais anteriores, prometendo mundos e fundos, com sorrisos, apertos de mão e beijos às criancinhas.

Será este o cenário com que nos vão brindar nestas eleições, perante o atual descontentamento popular, num autêntico show de hipocrisia e cinismo, escondendo o verdadeiro conteúdo das suas ações no futuro, com frases e slogans de ocasião, escondendo hoje para continuar explorando e enganando quando estiverem alcançados os seus propósitos?

Qual a diferença que se pode descortinar entre os candidatos e as suas promessas? É preciso estarmos atentos e desconfiar, quando a fartura é muita e quando as opções apresentadas não são mais do que uma farsa populista, traduzido numa falta de princípios e valores, pois haverá sempre alguém que na falta de argumentos, afirme ser diferente dos outros, quando afinal de contas, usando os mesmos argumentos, são na sua génese, mais do mesmo e farinha do mesmo saco.

Neste cenário, o que se vai ganhar com estas eleições, se os candidatos depois de eleitos se esquecerem e fizerem letra morta no desempenho dos seus cargos, muito diferente das propostas sufragadas e demonstrado na vontade e voto das massas que os elegeram? 

A questão de fundo é que, por vezes, a democracia é usada e se transforma na forma mais eficaz de algum aburguesamento dos políticos, exercendo o seu domínio e poder, de uma forma dissimulada, mostrando a falta de carácter, escondida e mascarada atrás das instituições partidárias que representam.

Como poderão os candidatos, propostos pelas duas forças políticas atualmente na governação do País, enfrentar a ira das populações, enganadas e desiludidas com as decisões ultimamente tomadas, retirando ao poder local, a representatividade que o povo lhes outorgou, manipulando e contrariando nas suas costas de forma obstinada a sua própria vontade?

De que servem as eleições e os programas a que se submetem os partidos, quando legitimados pelo voto das populações, na base das propostas contidas nos seus programas se, no concreto, esses conteúdos são no mínimo irrealistas, muito menos replicados nem respeitados na prática?

Cada vez mais, sentimos a disposição do povo para a luta, num crescendo que faz renascer o espírito revolucionário de Abril, onde as massas se levantam, lutam e resistem, organizando-se na defesa da vontade e nos direitos da população.

Não podemos continuar a permitir que transformem estes processos eleitorais em meras farsas sem sentido, móbil para um crescendo de descrédito do povo na classe política, resultando num valor abstencionista elevadíssimo que, pelo cada vez menor número de votantes nas urnas, coloca em causa a verdadeira representatividade dos eleitos nesses processos eleitorais.  

A solução congeminada pelo PSD e CDS para os gravíssimos problemas em que, as políticas dos diversos governos, desde o 25 de Abril de 1974, colocaram o País, passa pela destruição do Estado, numa alternância de governantes que, expectantes, aguardam nas fileiras partidárias o seu momento, empenhados na destruição sistemática dos pilares da democracia.

Os que hoje no poder, ontem na oposição, justificam a culpabilidade dos outros, pela calamidade herdada, como forma de legitimar todo o processo de desmantelamento do Estado Social em curso ignoram e rejeitam a sua própria responsabilidade e participação nos devaneios, em que sistematicamente, governo após governo, lançaram a vida das populações neste cabo das tormentas.

Torna-se imprescindível uma congregação de esforços em unir as forças populares para impedir a ascensão de uma nova ordem castradora das liberdades alcançadas, na defesa da democracia e dos caminhos que decidimos trilhar com a Revolução de Abril, que se opõe à farsa daqueles que tencionam continuar a explorar as classes mais desprotegidas e oprimidas no nosso País.

A desilusão das populações, face a um estado podre e corrupto sem castigo, onde a justiça não desempenhe a sua função, alimentam um boicote aos processos eleitorais, retirando-lhe toda a sua representatividade institucional, e tornando os eleitos reféns do repúdio popular.

Muitos dirão que o caminho será longo e difícil, exigindo de todos nós um grande esforço e persistência, mas só com essa tenacidade poderemos libertar o nosso País da tirania de uma elite burguesa, recuperar a soberania perdida, não acreditando nas ilusões vendidas pelas classes dominantes e corrompidas pelo poder, neste Estado apodrecido em que transformaram Portugal.

João Carlos Soares

Barreiro, 10 de Dezembro de 2012

segunda-feira, dezembro 03, 2012

O Engodo Eleitoral

Ao longo dos 38 anos de democracia no nosso país, já não nos surpreendem os métodos e técnicas utilizadas nas campanhas eleitorais, onde os candidatos prometem mundos e fundos à população, em troca do seu voto. Usando do populismo para conquistar a atenção do leitor, e experiências temos quanto bastem, quanto a este tipo de comportamento desleal, trazendo graves riscos para a população, que mais tarde ou mais cedo, vão sentir na pele as consequências de tal engodo.
A imagem pública de fachada criada de um determinado candidato, o discurso fluente e simpático que o projeta para uma possível eleição, transformam-se na maioria dos casos, em elevadas faturas a cobrar num futuro próximo, esquecendo-se as promessas de campanha, como podemos constatar nos difíceis tempos que vivemos, refugiando-se no passado e no que os outros fizeram, como razão das suas atitudes e medidas no presente.
Nenhum candidato tem a veleidade de se dirigir aos eleitores, exigindo esforços e sacrifícios, para garantir a recuperação e capacidade de investimento, porque não é popular exigir sacrifícios, nem têm coragem de assumir com transparência os erros do passado e a real situação do País.
Sem meios e recursos ninguém poderá vir a concretizar os objetivos a que se propõe, o que leva a que na maioria das vezes, com um discurso populista e perigoso, com a única intenção de ganhar votos, o tiro lhes saia pela culatra.
A qualquer político, candidato a que lugar for, deve-se exigir responsabilidade e coerência na hora de pedir o voto, assumindo a realidade do País ou Município, respeitando dessa forma todos aqueles que elegendo os seus representantes, conferem neles a competência nas grandes decisões, colocando nas suas mãos as suas vidas e dos seus.
Por todas as razões enunciadas, torna-se necessário e indispensável, a avaliação e apuramento de responsabilidades dos governantes, sem exceção, face à difícil situação das finanças públicas, com a recorrente consequência de precaridade do estado social, onde as mais díspares interpretações dificultam a compreensão da realidade em que vivemos.
Chegados ao poder, é vê-los a defender e a aplicar políticas neoliberais, renegando amanhã na oposição essas mesmas políticas, só porque aplicadas por outros, numa autêntica prova de cinismo e hipocrisia, esquecendo-se das promessas eleitorais e contrariando os conteúdos programáticos com que foram sufragados.
A perversidade das políticas, a irresponsabilidade e impunidade dos governantes, que defendem e apregoam a responsabilização, punição e retaliação dos responsáveis, não passam de mais um rol de intenções inconsequentes, onde cada um desconhece o seu envolvimento e cumplicidade, num presente sem passado e sem futuro, onde as palavras são vazias de sentido, porque para esses caras de pau, só o poder e o presente lhes interessa, tudo o resto é para esquecer.
Portugal está a passar pela mais aguda crise financeira e de valores, resultado de políticas demasiadamente protecionistas, sem que esses mecanismos que controlam os meandros da política sejam exaustivamente investigados. Certamente que iríamos ser surpreendidos pelos resultados, caso houvesse coragem para uma investigação a sério, a qual deveria terminar com uma punição rigorosa dos culpados, para a moralização e alteração nos costumes e padrões da vida pública.
A indignação e a consciência cívica do povo português, há muito clamam por um fim e punição da corrupção que tem corroído a classe política no poder, e que transformaram o País num espaço de negócios duvidosos, numa herança putrefacta que se espera ver definitivamente banida das nossas instituições.
Certo que, tão cedo esse objetivo será concretizado, para eliminar por completo as chagas e hábitos instalados e que têm vindo a contaminar a administração pública no nosso País, mas algo poderá e deverá ser feito no imediato, no sentido da moralização da coisa pública.
Quando tanto se fala em reformas e refundações, talvez fosse importante usar um destes mecanismos, para uma reforma política, como meio de combate e proteção contra a imoralidade instalada.
A bipolarização entre os dois partidos do poder, nestes últimos 38 anos, PS e PSD, na maioria das vezes em coligação com o CDS, têm, de uma forma corrosiva, contaminado e transformado a cena política num mar de lama e influenciado decisões por critérios duvidosos, de consequências fatais à gestão da coisa pública.
O País não suporta mais conviver com esta cultura de engodo, da mistificação e das falsas promessas. A confiança nos partidos políticos tem que assentar em compromissos plasmados nos seus programas eleitorais, assumidos perante a sociedade e com total transparência. Para que tal aconteça, torna-se imperativo que os partidos revejam com seriedade a sua postura, valores, princípios e conteúdos programáticos realistas, atendendo às expectativas da sociedade.
No nosso pensamento, deverão coabitar esperança e convicção num futuro menos conturbado e mais comprometido com os anseios da comunidade, num compromisso que deverá ser sempre o da valorização e representação política, e que transforme pela dignidade e seriedade dos seus compromissos, a inspiração para uma prestação cívica, a todos os níveis, justa e eficaz. A grandeza de uma Nação não pode nem deve ser avaliada nem corroída pelo poder invisível que corrompe as bases do poder, o que colocaria em causa o próprio sistema democrático.

João Carlos Soares
Barreiro, 3 de Dezembro de 2012

sábado, dezembro 01, 2012

A debilidade ideológica do capitalismo





Em consequência das transformações sociais, resultantes das medidas neoliberais impostas pela Troika, desrespeitando a vontade dos cidadãos expressa em programas eleitorais democraticamente sufragados, anuncia-se o fim das ideologias e do Estado, na sua função e responsabilidade social, soberania e identidade nacional, tratando-nos como se de um colonato se tratasse.
Esta atitude imposta aos governos pela nova ordem económica internacional, assenta em conceitos de domínio dos países centrais sobre os periféricos, como acontece neste momento a Portugal, Grécia e Espanha, num raquitismo ideológico neoliberal de regime colonial, onde o padrão ouro e a supressão das fronteiras comerciais, ditam uma conveniência de esquemas nas transações económicas entre as nações.
Estes requisitos impostos pelo neoliberalismo, quer no campo das relações internacionais, quer na condução das políticas das instituições internas desses países e governos, provocam profundas e dramáticas alterações na vida desses países, e em particular, na divisão e condicionamento de trabalho entre o Estado e o mercado, ou na restrição aos poderes dos governos e instituições nacionais.
Este esquema imposto pela Troika, muito diferente da vontade expressa democraticamente nas urnas pelos eleitores nos seus países, através de regras apertadíssimas aos incentivos e castigos impostos ao incumprimento de objetivos, colocam em causa o estado de direito, contrariando inclusive a doutrina e regras do neoliberalismo, numa visão simplista e desumana, caprichosa e economicista de comportamentos, numa demonstração propagandística em nome da estabilidade e consolidação das contas públicas.
Em simultâneo, da exaltação constante das virtudes abstratas dos mercados, à crítica velada e persistente das políticas que conduzem à intervenção social do Estado, considerando-as ruinosas e ineficientes, defendem-se teses e influenciam-se opiniões que para um sistema social ideal, que garanta o bem-estar e a prosperidade das populações, só será possível através da liberalização desses mercados.    
Esta ilusão de virtudes neoliberais, é o ingrediente e a combinação ideal para a institucionalização de uma democracia condicionada e cerceada de valores, que diferenciam as sociedades pós-modernas, em que os processos eleitorais servem simplesmente para alternar o poder de mão em mão, onde o confronto de programas se transforma numa mera farsa e representação teatral, de uma realidade pouco condizente e muito longe da verdade, contando, na maioria das vezes, com a conivência massiva dos meios de comunicação.
Esta atitude plasmada na vontade das maiorias institucionais, no poder, tendem a inverter o conceito tradicional de soberania dos países, onde a conceção dos desígnios e interesses nacionais, se deixam subjugar pelas políticas e expedientes de políticos autoritários, violentando os princípios básicos da democracia, que é a soberania popular, num mercado cada vez mais economicista e global, em detrimento de um verdadeiro estado de direito.
No espaço de influência política, o conceito de patriotismo, tem vindo gradualmente a ser substituído por uma espécie de universalismo pouco esclarecido, onde se tenta diluir as soberanias do Estado naquilo que são as entidades nacionais. O presidencialismo autista, a governabilidade autoritária do Primeiro-ministro e seus comparsas de Governo, apostados na centralização de poderes e interesses, no jogo de partido privilegiando elites, num autêntico desafio dos valores da democracia, como se de um ajuste de contas se tratasse, acentuam e expõem cada vez mais as diferenças na sociedade, com medidas protecionistas, aumentando de forma preocupante a nossa dependência ao investimento estrangeiro.
Em matéria de políticas sociais, a ausência de investimento no aparelho produtivo do país e o subsequente aumento de desemprego, o condicionamento de acesso aos serviços públicos, como os de saúde e educação, as reformas e cortes no sistema de aposentação, e a transferência descarada dos riscos para as famílias, funcionam como um atentado às funções e deveres do Estado e como um elixir de oportunidades aos negócios privados.
Como consequência da globalização e das políticas neoliberais e a sua difusão à escala universal, assistimos a uma maior e constrangedora diferença e desequilíbrio entre os países deficitários, como Portugal, Grécia, Irlanda, Espanha, França, Itália e os mais abastados como a Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Islândia, Suíça, Noruega, etc.,..
Este desequilíbrio latente na falta de representatividade dos regimes políticos, perante as pressões internacionais, está na base dos fenómenos de concentração do poder económico e político nos países desenvolvidos, resultando na queda dos salários e perda de direitos sociais, face à mobilidade dos mercados e do capital, provocando uma transferência da capacidade produtiva desses países e conduzindo inevitavelmente à precarização dos direitos laborais.
Consequência desta autêntica pilhagem dos valores da democracia, é já notória e sente-se, de modo consciente ou inconsciente, uma revolta e enorme desconfiança dos cidadãos em relação a elites populistas de aparência democrática, que distorcem frequentemente a realidade social, que mostram completo desprezo e se acham imunes à vontade popular, tentando através de uma economia surda às demandas sociais, colocar um fim à democracia eleitoral.
Este consentimento da radicalização política, acarreta um risco enorme à nossa democracia, subjugando-a à manipulação de forças externas, transformando-a quase numa democracia administrada e manipulada através da repressão, num autêntico atentado ao verdadeiro jogo democrático.
Torna-se necessário e urgente, que os governos apostem em estratégias que impulsionem e promovam o investimento estatal, através do controle nacional sobre os nossos recursos estratégicos, regulando o investimento estrangeiro e fortalecendo a capacidade das instituições de segurança social, na resposta à precaridade dos mais desfavorecidos, no combate à fome e à desnutrição, enfermidade e ignorância, em suma, numa luta sem tréguas contra a destruição do Estado Social.
Não nos queremos deixar submeter a um novo protectorado, a que muito orgulhosamente os nossos antepassados renunciaram e derrotaram, faz hoje precisamente 372 anos, por isso não nos sujeitaremos no presente aos interesses bastardos das elites que dominam o país, e devemos estar disponíveis a lutar contra a opressão, a desigualdade e a pobreza.
Exige-se que os dirigentes políticos cumpram com as suas promessas, sufragadas democraticamente, descomprometidos com a oligarquia instalada na Europa, no caminho e com a convicção política de resolução dos problemas, numa atitude de profundo compromisso social.

João Carlos Soares

Barreiro 01 de Dezembro de 2012