sexta-feira, junho 29, 2012

Um País não se constrói a preto e branco


Um país não se constrói, nem pode ser conduzido por aventureiros, os quais, cometendo erros atrás de erros, sem qualquer tipo de escrúpulos, levados por impulsos irracionais sustentados por uma arrogância atroz, impõem com as suas decisões, angústia, descrença e sofrimento às populações.
Pelo contrário, os alicerces de uma nação têm que se consolidar, na base da esperança e na convicção em que cada cidadão deve e pode acreditar, nas suas capacidades e inclusão para a construção de um mundo melhor.
Decorrido um ano após as últimas eleições, face ao resultado encontrado, constatamos que o País deu mais um passo para o perpetuar de um sistema eleitoral, focalizado numa bipolarização partidária, dominante e consolidada, entre duas forças políticas, PS e PPD/PSD, os quais, ora um, ora outro, à frente da governação, com um pequeno apoio de ombro do CDS/PP, monopolizam o rol das políticas-partidárias e os projetos e estratégias nacionais.
Aos olhos da crítica especializada, insiste-se na catalogação destas duas forças dominantes, o PS na sua génese de esquerda, e o PPD/PSD de centro-direita, mas que na prática, face às orientações e programas apresentados nos sucessivos governos, resultam em mais do mesmo, com conteúdos e princípios programáticos muito semelhantes, os quais, na prática, se perfilam e reconhecem, nas filosofias e tendências neoliberais. Esta alternância tem, ao longo dos quase 40 anos de Democracia, consolidado o pragmatismo de gerações na política do País.
Todos os restantes partidos, se vêm arredados e marginalizados, reduzindo a sua participação e representatividade à disputa de lugares com assento parlamentar, num debate de ideias de surdos-mudos, tornando-se forças marginais, sem qualquer peso ou interferência nas linhas de orientação para o País, razão pela qual, se tem assistido a um cada vez maior afastamento e alheamento de pessoas da vida pública e partidária.
Nunca, como agora, as máquinas partidárias e o marketing político foram tão importantes, para se ganhar eleições. Os quadros profissionais de carreira, nas máquinas partidárias, figuras proeminentes no cenário político, dão-nos o sinal e indicam as tendências para o futuro, as quais, através de máquinas publicitárias, discursos e posturas de candidatos decididos, embebedam e abordam os eleitores, com promessas que sabem de antemão não poder cumprir.
Por essa razão, é com grande expectativa e receio que se antevêem os próximos anos, prevendo-se uma cada vez menor militância partidária na definição das decisões e disputas eleitorais, o afastamento cada vez maior dos cidadãos à política, o que deixa e abre caminho aos carreiristas para dominarem o aparelho de Estado, gerindo o destino de todos nós a seu belo prazer.
Se esta tendência se vier a fortalecer no futuro, as campanhas serão cada vez mais mornas, as abordagens orientadas para nichos específicos de eleitores, e assistiremos à institucionalização de “partidos-empresa”, manipulados por empresários políticos, pondo fim a um sonho chamado Abril.


João Carlos Soares
Barreiro, 29 de Junho de 2012

quarta-feira, junho 27, 2012

Desenvolvimento só com soberania e justiça social


Segundo opinião generalizada de vários pensadores contemporâneos, um sistema para ser sustentável, só será possível, existindo justiça social e soberania, através de medidas onde a harmonia entre o Homem e os recursos naturais concorram para o equilíbrio e conservação da natureza, proporcionando melhores padrões de vida às populações.
Ao defender-se e aplicar-se metodologias e técnicas que não ponham em risco a segurança da humanidade, prova-se que será possível defender ideais de conservação da natureza, garantindo o desenvolvimento dos Povos, sem explorar de forma predatória o Planeta em que vivemos.
Algumas afirmações tornadas públicas, baseiam-se em análises desenvolvidas há já algum tempo, onde os índices de degradação ambiental, constatado ao longo de várias gerações, são o resultado da criminosa materialização de conceitos nas sociedades consumistas, agravado pela privatização e controle dos recursos naturais nos países em desenvolvimento.
Face a este panorama, qualquer tentativa de utilização desses recursos pelos próprios países, incompatibilizam-se com os interesses dos grandes grupos económicos internacionais, com o argumento de que todos os recursos são finitos. Esta é uma razão expurgada de qualquer verdade, porque o argumento usado serve, única e exclusivamente, os interesses desses grupos, e colocam em causa qualquer hipótese de sustentabilidade ambiental, desenvolvimento e soberania dos países detentores dessas reservas naturais.
No fundo, depreenderemos desta posição que, o que esses grupos económicos pretendem, não é usar os recursos existentes com receio de se esgotarem, mas sim, privar os pobres do seu uso racional em bases sustentáveis, privando os países dependentes desses recursos de os utilizar, porque o egoísmo e o desrespeito pela condição humana, chega ao ponto de entenderem que esses recursos são reservas estratégicas da sua exclusividade, quando as populações famintas tanto deles necessitariam para sobreviver.
Partindo do conceito de que nada que conhecemos é infinito, não significa que, por essa razão, não possamos utilizar os recursos naturais ao nosso alcance. Deveremos isso sim, utilizá-los e rentabilizá-los da maneira mais adequada e racional possível, sempre com o objectivo de utilização das mais-valias, daí resultantes, em prol da melhoria da qualidade de vida das populações, e das estruturas de suporte ambiental.
Para um desenvolvimento sustentável, torna-se necessário e indispensável o convívio harmonioso entre a humanidade e os recursos naturais, através de uma conciliação entre a utilização dos recursos naturais, aplicando alguns recursos financeiros, resultantes da exploração desses recursos naturais, nas áreas ambientais, e desenvolvendo metodologias e técnicas que permitam à humanidade, viver com segurança, soberania, e claro, com melhores padrões de vida.
Para a concretização destes objectivos, torna-se imprescindível e nunca pode ser posta em causa a soberania do país, o que significa que, qualquer decisão sobre recursos naturais de um país depende deste, e sempre só deste, não se podendo permitir a interferência de terceiros, o que para uma soberania efetiva, outro ou qualquer tipo de decisão fora da sua competência, seria inaceitável, irracional e completamente incompreensível.

João Carlos Soares
Barreiro27 de Junho de 2012

quinta-feira, junho 21, 2012


O Valor do Nosso Exemplo
Será que a classe política e o povo deste país conseguirão, face ao riso hipócrita das hienas que infelizmente proliferam na nossa fauna política, dar uma resposta imediata e convincente, para resgatar eticamente os princípios subvertidos da democracia?
A reação dos cidadãos, face ao desmando ético e político da vida pública, traduz-se na desconfiança como os cidadãos encaram as instituições. A indiferença e a ineficácia de algumas instituições, prejudicadas pela corrupção, fraude e desrespeito pelos elementares direitos assegurados pela lei, geram cada vez mais a suspeição e o descrédito, escancarando e abrindo espaço à injustiça, descompromisso social e aumento da criminalidade, abrindo cada vez mais espaço para os oportunistas de última hora.
No meio de tanta perplexidade, começa a submergir um sentimento fétido e perigoso amparado numa retórica saudosista auto elogiosa, apontando a culpa sempre para os outros, não se admitindo e reprimindo as críticas, tomando de assalto a consciência dos que vivem o presente, num mundo que pretendem fazer gravitar em torno de fantasmas do passado.
Falar de crise neste momento, vinculados a um sistema político cada vez mais estranho, distante e alheio à realidade social, num mundo onde os nobres deputados, as vossas excelências, parecem não viver a realidade do povo, como se nada tivessem que ver com o caos que ajudaram a construir, é matéria suficiente para repensarmos os valores sobre os quais assenta a atividade política e os perigos inerentes ao descrédito diante da política e do que denominamos por democracia, a qual tendo as limitações que se lhe reconhece, não pode nem deve ser simplesmente desfigurada.
Tudo isto, potencializado por uma cada vez mais que evidente selvajaria representativa no sistema partidário, receio estarmos a contribuir para uma enorme descrença na democracia e a hipotecar em definitivo a possibilidade de se construir um país onde prevaleçam a dignidade, ética e justiça.
A História diz-nos que estes momentos de fraqueza das sociedades, proporcionam e facilitam a ascensão do autoritarismo, o populismo e o individualismo, onde o que prevalece é o, salve-se quem puder.
Todo este triste espetáculo proporcionado por agentes políticos com poucos escrúpulos, transformam, e desacreditam, cada vez mais, a própria atividade política, fazendo com que a indiferença de uns e o negativismo de outros fortaleçam os argumentos preocupantes dos que em abstrato se apresentam com indiferença perante todo ou qualquer envolvimento na política.
A abstração ingénua e moralista, que eclipsa e dissimula uma certa ignorância e leviandade egoísta de uns quantos, que não conseguem pensar para além da sua própria vida, ajuda e alimenta um triste espetáculo de oportunismo e corrupção, desacreditando cada vez mais a própria atividade e desempenho político dos seus atores, abrindo espaço a uma cada vez maior corja de ladrões que, desde sempre, espreitaram os cofres públicos, prontos para a golpada à primeira oportunidade que se lhes depare.
O acentuar de uma certa indiferença ao que se passa no dia-a-dia, o egoísmo ético e o interesse exclusivo de cada um, faz de cada cidadão cúmplice ativo do assalto a que o Estado está sujeito, ou então, é ele próprio também seu beneficiário, neste triste espetáculo de corrupção que enoja e torna a atividade dos políticos cada vez mais desacreditada perante os seus eleitores.
O Poder desde que corrompido, engrossa cada vez mais as fileiras daqueles que, pela sua indiferença, desconfiança e, porque não, algum egoísmo, inconscientemente contribuem para a manutenção ou renovação no poder, desta corja de ladrões à frente dos destinos deste país espoliado.
A falta de participação ativa dos cidadãos, a sua indiferença perante os acontecimentos do dia-a-dia, contrariamente ao que julgam, com esta atitude, proporciona cada vez mais, o avolumar da corrupção, tornando-se corresponsáveis e alimentando a corrupção.
Não tomar partido, não ter participação ativa nas escolhas que a Constituição no concede, através dos diversos atos eleitorais, contrariamente ao que pensam, estão a contribuir com a sua indiferença para a manutenção desta corja de ladrões que, à primeira oportunidade, sempre na mira dos cofres públicos, estão prontos e disponíveis para dar a golpada.

O que caracteriza um Estado como o nosso é, a forma como os seus cidadãos participam e decidem da coisa pública, onde a responsabilidade de todos, eleitos e eleitores, sem exceção, são o garante e vinculam cada cidadão aos destinos do seu país.
Pensar o contrário, nivelando todos os políticos pela mesma bitola e responsabilizando-os por tudo o que de negativo acontece na vida do País, estão a enganar-se a si próprios, pois estando os políticos no desempenho de uma atividade onde estão mais expostos, nada podem fazer se outros fatores externos não existirem, por outras palavras, se eles forem corruptos, terão inevitavelmente que existir agentes corruptores, e de igual modo não poderemos considerar que todos os políticos são corruptíveis.
Para combatermos esta turba de agentes políticos sem escrúpulos, é claramente insuficiente, ficarmo-nos pela crítica ou pela indiferença, pois é fundamental e pedagógico o nosso próprio exemplo de vida, caso contrário ninguém nos outorgará ou manifestará credibilidade suficiente, para exigirmos direitos e deveres aos outros, na defesa da justiça social, se os nossos exemplos se afirmarem exatamente pelo oposto.

João Carlos Soares
Barreiro, 20 de Junho de 2012

sexta-feira, maio 04, 2012

A Bipolarização Eleitoral Consentida


A bipolarização eleitoral, consolida o pragmatismo geracional na política portuguesa.
Os resultados das eleições, nos quase quarenta anos de democracia, revelam que Portugal caminha a passos largos para uma cristalização de um sistema partidário, centrado numa estratégia de alternância de poder, onde a sucessão entre os dois partidos mais representativos, PS e PSD, partilham entre si e monopolizam uma estratégia político-partidária, nos projectos e estratégias para o País, impedindo assim, através do profissionalismo das suas máquinas partidárias, uma alternância e ascensão de novas agendas políticas na governação, transformando todas as outras formações políticas, em meros espectadores sem qualquer peso e orientação nos destinos do País.  
Assim sendo, a condução das políticas económicas e sociais, têm-se baseado exclusivamente na convergência de opções destes dois partidos, focado na estabilidade monetária e fiscal, e na protecção dos grandes grupos económicos, descorando os investimentos e diminuindo a participação dos cidadãos no processo de decisão e condução das políticas públicas.
A forma como estes dois partidos se tem comportado no poder, através de procedimentos marcados pela fidelidade às clientelas e pelos acordos e habilidades políticas das suas lideranças, contradizem as suas propostas sufragadas nos processos eleitorais, abrindo caminho à instabilidade e conflito aberto com os mais desprotegidos socialmente.
O acentuar desta polaridade partidária, num combate condicionado a duas opções possíveis, facilita e proporciona uma tendência cada vez maior de identificação do eleitorado no destino e aceitação desta alternância.
Numa estratégia de desqualificação do adversário directo, ou oponente, numa disputa muito acirrada e estreita entre os dois partidos, onde as tendências de escolha do eleitorado, ou pendem para um lado ou para o outro, cria a sensação e passa quase despercebida aos olhos dos eleitores, toda ou qualquer proposta alternativa oriunda de outras forças políticas, porque recai exclusivamente nestes dois contendores a liderança possível.
Face ao risco de perda directa, de um para o outro, é usual jogarem ambos de forma contida e similar, onde cada uma das partes em contenda tendem a arriscar menos nas suas propostas, centrando e reduzindo o combate político na base das diferenças e popularidade dos seus líderes, em detrimento das opções programáticas.
O descontentamento que se começa a sentir na opinião pública, nas bases partidárias e atestado pelo aparecimento de movimentos apartidários, contestando as decisões governamentais de sucessivos governos, abrem caminho e antevêem a mais que esperada diminuição do papel da militância partidária na definição das decisões e disputas eleitorais.
Se esta tendência se vier a acentuar, estarão em risco as bases de sustentação de um verdadeiro estado democrático, consolidando esta bipolarização, tornando as campanhas eleitorais mornas e sem sentido, conduzidas por políticos profissionais, dirigidas a nichos específicos de eleitores, afastando por completo qualquer hipótese de mudanças nas políticas públicas vigentes e que nos têm colocado na cauda da Europa.
Um estado democrático não pode nem deve estar condicionado ou limitado ao aspecto eleitoral, tornando-se indispensável outros elementos, tais como, a existência de um estado de direito e um sistema judicial independente, a existência de uma sociedade política responsável e democraticamente organizada, uma sociedade civil activa, que seja participativa através de várias formas na articulação da vontade política dos cidadãos.
Uma visão meramente eleitoralista ou técnica da democracia, não farão justiça ao sistema democrático, e, com toda a certeza, não contribuirá certamente para a solução dos graves e complexos problemas de que padece actualmente a nossa sociedade.
João Carlos Soares
Barreiro, 04 de Maio de 2012

quarta-feira, abril 18, 2012

Coisas do Quotidiano

                                                            


Existem questões no quotidiano de cada cidadão, como a ignorância, a pobreza, a violência, a corrupção, o desemprego, a miséria e em oposição a opulência de alguns extractos sociais, que flagelam a sociedade em que vivemos, numa manifestação inequívoca do livre arbítrio e disparidades que caracterizam o subdesenvolvimento e mostram a vulnerabilidade da nossa democracia.

Esta vulnerabilidade, a que estamos expostos, caracteriza-se pelas relações promíscuas e circulares de causa efeito, que, cumulativamente, se vão agravando no tempo, com os governos de costas viradas para a realidade, sem que os responsáveis pelo destino deste país se preocupem, ou considerem inevitável uma intervenção urgente, necessária e imprescindível ao nível do investimento, garantindo o desenvolvimento económico do país, capaz de, garantir aos mais socialmente desprotegidos, uma existência no mínimo condizente com os valores da condição humana, na consolidação de uma sociedade mais justa e menos desigual.

A importância que o governo atribui à concentração do poder económico, apoiada e defendida pelas minorias que dela beneficiam, suportado por políticas económicas, culturais e ideologicamente recessivas, afrontam a dignidade da maioria dos portugueses, ao defenderem e aplicarem exclusivamente medidas que só penalizam os que menos têm, como solução para o regabofe a que o país chegou, resultado da onda de corrupção em sucessivos governos e a displicência e falta de atitude e transparência dos órgãos reguladores, no desempenho das suas obrigações.

A continuidade destas disparidades sociais encontra, na falta de capacidade e mobilização das populações, um fiel aliado para perpetuar no tempo essa concentração de poder, agravando e vilipendiando as condições de vida das populações, através da difusão de visões especulativas da sociedade, responsabilizando-a pela situação de miséria a que chegou, promovendo o culto do individualismo e a violência psicológica, enquanto privilegiam e se assiste, à evasão descontrolada e obscena dos impostos, praticada pelas elites económicas.  

Enquanto uma grande parte da população, vive abaixo da linha de pobreza, em péssimas condições de sobrevivência, as minorias privilegiadas do sistema, os antigos e os emergentes, vivem faustosamente instalados num mundo à parte, escondendo a realidade das condições desumanas de vida da restante população, sacrificada às imposições restritivas de direitos do FMI, BCE  e Comissão Europeia.

Cada vez mais as desigualdades se vão perpetuando, ao permitir-se, à sombra das bandeiras partidárias, candidatos a lugares do aparelho legislativo ou vinculadas de alguma forma ao aparelho do Estado, que estão conotados com processos fonte de enriquecimento ilícito, como acontece com o tão famigerado caso dos submarinos, que já deu direito a penas noutros países, como na Alemanha e na Grécia e que se relacionam de igual modo com políticos da nossa praça, mas que continuam a ter a protecção de uma imunidade parlamentar, eleitoralmente conseguida.

Para além deste caso, está bem vivo o resultado do processo Portucália, o qual depois de quase uma década, trazendo inevitavelmente custos ao aparelho judicial do Estado, deu o resultado que deu, saindo ilibados todos os implicados, e o caso Freeport, que se arrasta vagarosamente nos tribunais, mais parecendo um folhetim ou telenovela, que no fim, para não variar, irá culminar com um final feliz para os seus protagonistas.

Estranhamente, ou não, é com alguma estupefacção que lemos em grandes paragonas nos meios de comunicação social, declarações de pessoas com enorme responsabilidade no Estado, como a Dr.ª Maria José Morgado e, segundo as suas palavras, que são públicas, refere que, “o enriquecimento ilícito deveria ser legislado”, pois, e ainda usando palavras suas, “existem políticos que eram pobres quando iniciaram as suas funções, e ao fim de alguns anos estão milionários”. No mesmo sentido, afirma o “Correio da Manhã” na sua primeira página, de que, os juízes vão processar José Sócrates. Perante estes factos, fica no ar uma questão;

Por onde andaram estes senhores este tempo todo?

São realidades terríveis e monstruosas para um país a saldo, só possível pela passividade do eleitorado na hora das decisões, onde a influência do poder económico, através de campanhas financiadas por grandes empresas nos processos eleitorais, têm um peso decisivo, permitindo mais tarde a reciprocidade e retorno desses investimentos, em pessoas sem escrúpulos, que lhes irão assegurar os privilégios, legais e fiscais, de que gozam e que garantem o seu enriquecimento pessoal e das entidades a que pertencem.

Este tipo de comportamento da classe política, onde a vontade política do povo e interesse público se vê subvertido, é um crime que pode ser considerado mais grave do que a própria corrupção económica, pois inflige no país de forma dramática, o golpe de misericórdia a que nenhuma sociedade verdadeiramente democrática consegue resistir, ou seja, o falsear e a descredibilização dos valores e princípios da própria democracia.

João Carlos Soares

Barreiro, 18 de Abril de 2012

domingo, abril 15, 2012

Europa Global - Um Erro de Cátedra


A crueldade dos homens, porque não dizer a hipocrisia dos homens, é cada vez mais um facto latente na sociedade contemporânea, provocando o desencanto, a mágoa, e uma raiva que rapidamente se transforma numa repulsa e contestação incontroláveis.
No entanto, há momentos em que a hipocrisia de tão mesquinha que é, me faz pensar e acreditar que a nossa postura revela quem somos, e que a sociedade sofre de uma doença incurável, onde os sentimentos estão impregnados de egoísmo, que nos choca, enoja e entristece, à espera do dia do juízo final.
Perante esta constatação, tão evidente, achei que me deveria conter e calar, aguardando momento mais oportuno para expressar a minha opinião de maneira mais serena, sem os vícios da reacção imediata que se interpõem na nossa alma, nos momentos em que nos sentimos feridos e enxovalhados.
Portugal está ferido e a ser enxovalhado, mas não se pode nem deve considerar um país do Terceiro Mundo, mas é sem sombra de dúvida um país subdesenvolvido, que pela força das circunstâncias, da sua localização e posicionamento na Europa, a juntar às razões históricas desfavoráveis, que nos têm empurrado para uma subserviência política e económica dependente dos países economicamente mais fortes, nos têm colocado à margem de todo o processo evolutivo da economia mundial.
A ausência de desenvolvimento sustentado e a condução desregulada dos mercados, com uma concentração de riqueza a todos os tipos censurável, pelos países mais poderosos da União Europeia, num processo infame e descarado de uma nova forma de neocolonialismo capitalista, são os principais factores que determinaram o subdesenvolvimento da maioria dos países em queda abrupta na Europa, como a Grécia, a Irlanda, Portugal, Itália, a Espanha e agora também alargado à Hungria, onde através da imposição de uma governação imposta pela Troika, caso não obedeçam e cumpram as directivas, terão inevitavelmente o seu futuro definido, à espera da decisão de exclusão no momento mais apropriado assim que acharem ter chegado o momento.
A má utilização dos recursos naturais e humanos, propositadamente executada por forma a impedir a expansão económica e os equilíbrios sociais num processo de integração dos grupos desfavorecidos num sistema económico integrado, impediram a concretização de uma estratégia global de desenvolvimento, que fosse capaz de mobilizar os factores de produção de cada um dos países, na defesa dos interesses da sociedade.
Só com uma estratégia adaptada aos condicionalismos e comum aos interesses de todos os países da Comunidade Europeia, e não só a alguns, poderíamos atingir o desenvolvimento indispensável que recolocaria os países menos preparados e apetrechados economicamente, na senda do desenvolvimento, desde que fossem acauteladas as evidentes diferenças entre eles.
Infelizmente cometeu-se o erro de considerar o processo de desenvolvimento, como se todos se encontrassem ao mesmo nível de crescimento e possuíssem por igual os mesmos meios e recursos que só estavam ao alcance dos mais ricos. Um egocentrismo levado às últimas consequências, orientou as decisões dos teóricos para a metodologia a estabelecer nas suas ideias e pensamento, na criação e implementação de um sistema económico, ignorando totalmente a realidade socioeconómica de cada região, deixando nas mãos dos dirigentes locais, a habilidade e o confronto ideológico acompanhado do folclore eleitoralista, na sua capacidade persuasiva das populações, para mascarar as suas reais intenções
Essa terrível desigualdade nos tecidos sociais de cada país, estrema os índices da economia na Europa e no Mundo, onde se faz sentir o poder dos ricos sobre os pobres, ou seja, onde cada vez mais se faz notar a diferença entre países desenvolvidos e com uma indústria forte e dominante, em contraponto com os países com um tecido social precário, onde predomina o trabalho assalariado numa indústria sem apoios, caduca e a saldo.
Os dois grupos, resultantes do fosso económico criado entre eles, que não se entendem, deixam cerca de dois terços da humanidade à beira do colapso, fazendo com que a fome e miséria tomem conta da razoabilidade e do bom senso comum.
As desigualdades sociais estão a tomar conta das populações completamente desprotegidas, aumentando a intranquilidade e intensificando as discrepâncias sociais, gerando e alimentando conflitos políticos e ideológicos.
Quando assistimos à opulência em que uma minoria vive, em oposição a dois terços da população mundial mergulhada na miséria, deixa de ser por si só uma situação perigosa, como passa a ser considerado um crime sobre a humanidade, porque a tensão social com que somos confrontados no dia-a-dia, na maior parte das situações que se conhecem, são nada mais nem menos do que o produto desta reconhecida injustiça social, quando as populações subjugadas ao jugo do poder dos mais ricos, começam a tomar consciência da verdadeira e crítica realidade socioeconómica em que vivem.
Sempre me disseram que pior que errar é não reconhecer os erros. Para que não tombemos num fosso sem retorno, torna-se urgente restabelecer o equilíbrio económico das nações, sem o qual muito dificilmente poderão aspirar a uma verdadeira paz e tranquilidade entre os homens.
Cada vez mais se questiona se o desenvolvimento terá obrigatoriamente que passar pela desumanização frenética na procura da riqueza, priorizando o lucro fácil e imediato, em vez de, capitalizar as energias que enriquecem a vida da humanidade em geral, e lhes poder trazer muito mais estabilidade no caminho para a felicidade.

João Carlos Soares

Barreiro, 15 de Abril de 2012