domingo, abril 01, 2012

CRISE - Colapso Social


O processo de globalização recorrente da entrada de Portugal na Comunidade Europeia, tem provocado o desgaste sistemático das estruturas de coesão interna na nossa sociedade e, simultaneamente, a progressão de risco e marginalização de exclusão de sectores mais desfavorecidos da população.

Com o aumento das desigualdades, constata-se com elevado ênfase a discriminação de certas camadas sociais e, subsequentemente, a destruição das solidariedades sociais.

Torna-se notório este efeito, resultante do processo de diferenciação, através da segmentação e individualização produzida na vida social das comunidades, centralizado posteriormente nas questões relacionadas e resultante do agravamento do risco social e, por vezes, da pouca visibilidade que se pretende dar deste risco.

Não sendo uma realidade exclusiva do nosso país, temos que ter alguma preocupação e especial atenção, pois ela assume contornos muito particulares face à deficiente posição e enquadramento económico do país, no contexto da economia europeia.

Se por um lado assistimos à descolagem dos segmentos mais débeis da sociedade, aqueles que se encontram nas faixas mais desfavorecidas, onde os problemas e necessidades mais se fazem sentir, em contraponto com a promoção e enriquecimento dos mais fortes, por outro lado, assistimos à individualização da vida social, através da autonomia dos indivíduos relativamente às estruturas colectivas de autoridade baseadas na tradição ou no poder do Estado.

Contudo, este efeito não é tão linear como parece, tal como o não é a globalização, pois ele é o resultado de um conjunto de processos, económico e politicamente influenciáveis.

Nesta ordem de ideias, a fragmentação e individualização manifestam-se nas alterações sentidas no dia-a-dia das instituições em que assenta a nossa sociedade, como resultado da conjugação desses diferentes processos.

Essa diferenciação social é muito mais complexa do que à primeira vista pode parecer, pois a mesma na se esgota nem pode ser justificada unicamente pelo processo de globalização económica, pois a mesma é resultado de uma enorme falta de recursos para aproveitar essas oportunidades e deficiente capacidade de integração face à expansão do mercado global.

A forma desigual como se repartem os recursos materiais, tecnológicos e organizativos nos diferentes grupos sociais, reflecte-se mais tarde no défice dos sectores produtivos da sociedade e na ineficácia do sistema perante o aproveitamento das disponibilidades no desenvolvimento dos mecanismos de produção, através da extensão dos mercados.

A diferente capacidade dos indivíduos e grupos aproveitarem as oportunidades, vai reflectir-se, ou não, no efeito da igualização pretendida para a introdução dos processos de industrialização e racionalização de meios do país.

A necessidade e procura de competitividade face à globalização, bem como a conquista de novos mercados, aumentam a procura de mão-de-obra barata, por vezes recorrendo à subcontratação ou contratação precária, explorando mercados de trabalho mais favoráveis, através da deslocalização dos meios de produção, o que acarreta nos países onde estão implantados efeitos terríveis ao nível do emprego e sustentabilidade da estrutura familiar das classes mais desfavorecidas.

Considerando-se, em geral, que se está perante um agravamento do emprego precário e flexibilização de segurança no trabalho, assistimos à instituição de um novo sistema de emprego, baseado num novo modelo global de produção e defendido por um novo código de trabalho, do qual resulta um agravamento e risco social e de exclusão para um número considerável de trabalhadores, na base da atribuição de salários baixos e contratos flexíveis.

Na presença de tão grandes dificuldades no mercado de emprego, numa sociedade que se pretende de coesão social, assistimos cada vez mais às tentativa de individualização dos cidadãos no mercado de trabalho, num processo de isolamento do indivíduo, onde o que move cada vez mais as pessoas é ter uma vida própria, ter dinheiro, trabalho ou poder como objectivos prioritários na sua realização pessoal, esquecendo-se os valores e princípios éticos que devem nortear os cidadãos numa sociedade igualitária.

Uma das consequências deste tipo de comportamento em sociedade, é o desgaste e a precoce desintegração dos valores de cidadania, provocando o enfraquecimento do conceito público, onde as preocupações se centralizam em si próprios, rejeitando o conceito de comunidade, contribuindo para o Estado se descartar das suas obrigações sociais para com as famílias, os grupos e as comunidades.

Desta forma as responsabilidades e compromissos mútuos entre os indivíduos, tendem a desaparecer, ao mesmo tempo que a cidadania, enquanto direitos e obrigações face ao Estado, se vai cada vez mais individualizando.

Com o evoluir da crise no nosso país, este tipo de alterações começam a reflectir-se na incapacidade de combatividade das classes mais expostas e sensíveis aos desequilíbrios do mercado de trabalho, bem como da sua capacidade de emancipação, desencadeando comportamentos individuais desgarrados, de pendor conformista e adaptados às dificuldades de sustentabilidade, onde à incerteza dos resultados alcançados acresce o mais que provável aparecimento de efeitos não esperados ou indesejados numa economia globalizada.

Face à situação de carência económica e social que se faz sentir num número significativo e preocupante de famílias, as quais recorrem a instituições de solidariedade, revelam incontestavelmente a gravidade da crise pela qual o país está a atravessar.

Este problema torna-se ainda mais preocupante, pela razão de que esta situação coloca algumas famílias pela primeira vez num estado de necessidade e pobreza, quer pela falta de emprego, ou pelos fracos recursos provenientes de trabalho com baixo salário. Estes grupos em ruptura completa com as suas obrigações e compromissos, fazem colapsar todas as estruturas de apoio social existentes e o equilíbrio familiar, quando atingem de forma catastrófica a falência alimentar do seu agregado.

Nesta situação, a prioridade deve estar orientada no sentido de proporcionar o bem-estar das comunidades, numa procura incessante no mercado de novos postos de trabalho, só possível com o empenhamento dos órgãos de decisão do país, numa aposta ao investimento e desenvolvimento de novos mercados.

Perante esta realidade nua e crua, devemos estar apreensivos com as consequências, pois a quebra na estrutura familiar pode vir a provocar o desequilíbrio e a sustentabilidade das famílias, aumentando o desalento no seu seio e facilitando a explosão da violência doméstica, contribuindo para o aumento da conflitualidade e tensões sociais que são, na grande maior parte dos casos, o resultado da desorientação das pessoas.

Tal como refere um responsável da Cáritas, o único investimento do Estado até agora, tem sido apenas no sentido de se tomarem medidas no combate ao défice público, descurando-se as alternativas para responder às insuficiências dos extractos sociais mais desfavorecidos perante o novo cenário de crise, desemprego e endividamento das famílias, pois quando se cai no ciclo da pobreza e da dependência, torna-se de sobremaneira muito mais difícil sair dele, se não impossível, sem que se faça sentir a solidariedade providencial do Estado.

Ultimamente tem-se assistido ao dirimir de opiniões sobre se o país deve ou não endividar-se mais, como única solução para encarar e debelar as insuficiências orgânicas e estruturais de que padece, na base da solvência financeira da banca para fazer frente às necessidades financeiras das empresas.

Se por um lado esta poderá ser a solução mais fácil de tomar no momento decorrente da recessão que nos atinge, não poderá o governo deixar que essa aplicação de capital seja feita de forma desregrada, sem qualquer tipo de controlo pelos órgãos de regulação competentes, porque não chega simplesmente injectar-se milhares de milhões de euros na banca, para se resolverem os problemas da miséria e da fome.

Sem se aplicarem as medidas estruturais necessárias, iremos ser confrontados sem apelo por um agravamento da fome no nosso país, e as primeiras vítimas dessa praga social serão sem sombra de dúvida as classes socialmente mais desprotegidas, e que por efeito de contágio, mais tarde ou mais cedo, acabará por atingir toda a classe média.

Para que esse cenário não venha a acontecer, temos que reagir com determinação, porque o espectro da fome já se faz sentir entre nós, coisa que não parece preocupar os nossos governantes, mais vocacionados em agradar aos novos capitalistas do Estado, oriundos dos países emergentes, Angola, Brasil e China, representados e capitaneados por altos quadros dos aparelhos partidários, os quais vão, de forma petulante, assumindo hoje lugares no governo e amanhã nos conselhos de administração das empresas que influenciam e cauterizam a economia deste país.

Para que este pesadelo de absurdos em que vivemos, não venha a asfixiar e a sufocar toda a sociedade, torna-se necessário criar um fundo de desenvolvimento com as verbas a injectar no país, as quais em conjunto com o bloqueamento das contas monumentais amealhadas por governantes e gestores públicos assumidamente corruptos, ajudarão a implementar e equilibrar a balança e a trazer mais justiça aos sacrifícios de todos nós.

João Carlos Soares

Barreiro, 01 de Abril de 2012

quarta-feira, março 21, 2012

Que raio de justiça temos em Portugal?


Sentado frente ao televisor, apercebo-me de um programa que estava a passar sobre a dívida e situação catastrófica da Grécia, o berço da democracia. Atento às descrições e entrevistas que passavam frente aos meus olhos, sinto-me quase como um actor de factos que decorrendo noutro País, se enquadram, e de que maneira, no estado da nação deste rectângulo à beira-mar plantado, PORTUGAL.

Avaliando o que se passou na Grécia, aquando das Olimpíadas, dou por mim a questionar-me que também aqui neste País onde vivo, algo de semelhante se passara, o “EURO 2004”.

Tendo decorrido de 12 de Junho a 4 de Julho, assistimos completamente alienados ao evento, embasbacados atrás de uma bola frente ao televisor, sem darmos conta do desvario económico a que fomos sujeitos, tal o custo que este evento acarretou para as já tão depauperadas finanças públicas, fazendo-nos esquecer que o que assistíamos era nada mais nem menos, a mais um golpe na despesa que ajudaria a precipitar os cofres do Estado para o caos em que agora nos encontramos.

Tudo era alegria e festa, só que uma festa do tipo daquela a que assistíamos, inevitavelmente traria um gosto amargo para as nossas vidas, mas que no meio de tanta euforia até passaria despercebida, não fosse vir a ter as consequências que teve e que são hoje, infelizmente do conhecimento público.

A realização dos jogos por todas as regiões do País levou à necessidade de uma renovação total e à construção de infra-estruturas, acessibilidades e de equipamentos desportivos ao longo do País. Esses estádios e infra-estruturas, segundo publicado e divulgado oportunamente nos meios de comunicação social, hipotecavam o País para as próximas décadas em mais de mil milhões de euros, com derrapagens orçamentais elevadíssimas, as quais chegaram a atingir os 360% e que viriam a hipotecar definitivamente as débeis finanças das autarquias e outras instituições públicas.

Já para não falar nos custos diários que rodaram os 43 milhões de euros e nas consequências a longo prazo para a manutenção e conservação desses equipamentos, pois alguns desses equipamentos ficaram à responsabilidade das respectivas autarquias, tal como os custos das empresas municipais entretanto criadas para a sua gestão, esgotando a capacidade de endividamento das mesmas nos próximos 20 anos, provocando o colapso total das contas públicas.

Se a este e outros actos de gestão danosa das finanças públicas, que vão sendo tornadas públicas, da responsabilidade dos diversos governos que tivemos nos últimos 20 anos, acrescentarmos outras despesas que em nada se justificavam, como a aquisição dos célebres submarinos, as parcerias público privadas e o caso BPN, entre outros, encontramos sem grande esforço os responsáveis pela situação a que chegámos.

Perante estes factos, duas perguntas ficam sem resposta:

Enquanto a Sr.ª Ministra da Justiça anda a gastar as suas energias, a perseguir o pobre do contribuinte, porque estamos a falar de insignificâncias se comparado com os roubos a que fomos sujeitos ao longo destas últimas décadas, porque não são também julgados os algozes responsáveis do sistema, até porque estão identificados e são conhecidos, como acontece nos países civilizados como a Islândia?

Que raio de justiça afinal temos em Portugal?

João Carlos Soares

Barreiro, 21 de Março de 2012

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Desigualdade, Pobreza, Exclusão Social


Muitas são as causas que podem e devem ser afloradas na análise do tema sobre a pobreza, onde a exclusão social e o acesso e exercício de direitos na sociedade moderna caracterizam a pobreza, fazendo dela um problema social.

O que difere a pobreza de outros tempos da actual, que indicadores permitem falar em exclusão social, o que cabe à sociedade e ao Estado nesse processo e, em particular, em que medida está associado o tema da pobreza com o Direito e os direitos, são algumas das perguntas que necessitam urgentemente de resposta, numa demonstração inequívoca da importância do Estado, na gestão das desigualdades sociais e culturais, que possibilitem aos mais desfavorecidos o exercício activo dos direitos civis e políticos relevantes para uma democracia efectiva.

A desigualdade de condições na saúde, habitação e emprego, condicionam e repercutem-se de forma evidente na cada vez mais diminuta participação cívica das populações, dificultando a participação na democracia e aprofundando as desigualdades e os problemas que fazem dispersar a integração social das populações.

Extensas faixas da população sofrem a ausência e omissão activa do Estado, que privilegia parcelas reduzidas da sociedade, assumindo-se como uma verdadeira violação dos direitos humanos e hipotecam os direitos dos cidadãos salvaguardados na constituição, descredibilizando e questionando a função social do próprio Estado.

Aliado a uma racionalidade de privilégios de alguns sectores de produção, a corrupção e o despotismo acabam por colocar em causa a legitimidade que outorgou ao Estado o seu papel de guardião dos direitos e liberdades de todos os membros da sociedade, onde o reconhecimento da pobreza como uma disfunção relacional, impede o pleno direito e acesso dessas pessoas às condições mínimas de sobrevivência, provocando um crescendo de famílias com carências básicas e, mais recentemente, desigualdade, exclusão, precariedade e vulnerabilidade.

O combate à pobreza e à exclusão social, deve ser entendido como um imperativo ético e prioritário do Estado para com as populações mais desfavorecidas, como solução indispensável na correcção e erradicação das causas geradoras das desigualdades, resultantes de políticas neoliberais.

Com vista à construção de uma sociedade livre, justa e solidária, princípio indissociável de uma democracia, tais objectivos, devem ser a matriz de orientação e a razão de ser do Estado para com os seus cidadãos, através da elaboração de um pacto social justo, no qual os direitos fundamentais na Constituição são os meios para a sua consolidação, onde o sistema jurídico, na sua plenitude, garantam os meios para a sua concretização, num esforço conjunto do poder público e da sociedade em geral, combatendo-se as causas da pobreza e os factores de marginalização e promovendo a integração social dos sectores mais desfavorecidos.

O direito ao trabalho, a livre escolha de emprego, condições justas e favoráveis e de protecção contra o desemprego e protecção social, são factores fundamentais para a estabilidade das famílias, garante de uma existência compatível com a dignidade humana, onde as condições alcançadas permitam a cada um ter os seus direitos económicos, sociais, culturais, civis e políticos consignados.

Enquanto as sociedades não garantirem o pleno gozo dos direitos dos seus cidadãos, os mesmos não poderão considerar-se livres, permanecendo subjugados, como se de escravos se tratassem, e sem meios para desenvolver livremente a sua personalidade.

João Carlos Soares

Barreiro, 27 de Fevereiro de 2012

quinta-feira, janeiro 26, 2012

O Outro Paradigma das crises


As discussões ao mais alto nível, numa concertação macabra entre os países mais ricos, ou onde a instabilidade financeira ainda não se faz sentir, começa a ganhar consistência, assumindo oposição às estratégias políticas que se vão perfilando como recomendáveis no seio da União Europeia, para salvar os países em graves dificuldades financeiras.
A tragédia que se avizinha e começa a viver actualmente na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália, quer queiram quer não, alastrará a passos largos a outros países da União, pelo efeito dominó provocado, deixando de ser um problema exclusivo destes cinco países, consumindo as economias e alastrando esta bolha a todos sem excepção, criando-se uma situação preocupante de endividamento.
Mais cedo ou mais tarde, também a França, os Estados Unidos e o Brasil, com dívidas públicas gigantescas, sofrerão do mesmo problema, arriscando-se a um colapso das suas estruturas financeiras e económicas, gerando-se uma situação de insolvência generalizada com repercussões incalculáveis.
Só com uma arquitectura financeira baseada em novos padrões de desenvolvimento, será possível ultrapassar-se as causas da crise globalmente instalada. Parecendo surpresa para a maioria dos cidadãos, o mesmo já nos espanta ter sido da parte daqueles que, com responsabilidade, conduziram as finanças públicas a este descalabro.
O sistema capitalista assenta a sua génese no poder de concentração para fazer circular a riqueza, através do sinistro mecanismo dos juros compostos, que não representam qualquer tipo de riqueza real para os países, sendo utilizados como principal móbil na acumulação de receita para o grande capital através dos mais diversos esquemas financeiros, elevando por sua vez de forma exponencial o total já inflacionado do valor das dívidas.
Desta forma, as oscilações nos mercados deixaram de flutuar face ao funcionamento da economia real dos países, e sim na contingência da especulação financeira, resultado dos empréstimos concedidos aos países em dificuldades que deveriam funcionar como pacotes de salvamento e não como novos e sobrecarregados empréstimos, que se vão juntar à já impagável dívida existente.
Não havendo qualquer hipótese, ou estratégia de investimento necessários para a recuperação do aparelho produtivo, não adquirindo por isso condições de desenvolvimento sustentável, estes países vêem o valor das suas dívidas aumentar de dia para dia, onde os pagamentos incidem praticamente na amortização de juros, enquanto se assiste ao aumento drástico do valor primordial da dívida, com a aplicação de juros sobre juros do capital em dívida, sobejamente superiores aos que vão pagando, como se de uma bola de neve se tratasse.
E assim sendo, os governos tornados lacaios de uma exploração capitalista desmedida, perpetuam esta dívida descomunal nas costas das populações, chamados a todo o tipo de sacrifícios, enquanto fica garantido de forma especulativa o ganho e acumulação de riqueza para os donos do capital.
O refinanciamento do sistema bancário, não é mais do que alimentar uma máfia ao serviço das financeiras, responsáveis e principal instrumento que levou à crise de 2008 e que continua a preparar mais um round para os anos que se aproximam.
O uso de fundos ou empréstimos públicos para salvar bancos privados, que vem sendo praticado pelos governos, é ilegítimo, indecente e contraria na sua essência, toda a lógica própria do capitalismo.
Se houvesse vontade e intenção para enfrentar as causas e contribuir para a solução da crise, teria que se auditar integralmente e com a maior transparência as dívidas públicas de todos os países sobre endividados, identificando e acusando criminalmente os responsáveis pela dívida ilegítima contraída, apresentadas as conclusões dessas auditorias e os resultados contabilizados sobre as economias. Expor publicamente as consequências, permitindo assim o plebiscito das populações sobre as dívidas a pagar ou não, bem como as condições para o seu pagamento, sem prejuízo das condições de vida e necessidades das populações, anulando e renegociando um método de juros que não conduzisse à acumulação de juros compostos (juros sobre juros) na nova estrutura financeira, impedindo desta forma que a dívida se torne exagerada e incomportável.
É fundamental, necessário e indispensável disciplinar o encargo da dívida financeira, à capacidade solvente e às prioridades de cada país, reestruturando os instrumentos jurídicos adequados, criando legislação que limite e condicione o pagamento da dívida, a fim de dar condições e capital resultante do orçamento do estado para investimento, substituindo a fórmula dos juros compostos, até agora aplicados, pelos juros simples.
Quer o comportamento dos governos, quer as medidas consideradas e levadas a efeito pelos responsáveis na condução dos destinos da União Europeia, frente à crise instalada e na falta de soluções com coragem e determinação, colocam cada vez mais em risco a democracia, o respeito à pluralidade e sobrevivência dos seus povos.
Esta situação é ainda mais agravada, no nosso país, pelo facto de que desde a ofensiva neoliberal desencadeada com a crise da dívida vivida nos anos oitenta, que levou o governo a privatizar muito do património público conquistado em Abril de 74, entregando-se áreas fundamentais e estratégicas da nossa economia, tornando-se assim altamente vulnerável à descarada e enganadora benevolência dos capitalistas internacionais.
João Carlos Soares
Barreiro, 26 de Janeiro de 2012

terça-feira, janeiro 24, 2012

Proteste!


Passando os olhos pelas notícias com que diariamente somos prendados, mesmo tentando afastar a crise financeira do nosso pensamento, somos brutalmente acordados de um sono que mais parece um pesadelo, o que torna de todo impossível negarmos a sua existência.
Os últimos dias têm sido profícuos em tristes episódios, que demonstram a leviandade com que os mais altos dirigentes da Nação encaram as dificuldades das populações, sendo o Presidente da República um dos tristes protagonistas dessa atitude miserável e desumana, onde o poder constituído mostra como, de forma musculada, aplica o quer posso e mando, sem escrúpulo e desdém pelo sofrimento dos mais carenciados, gerando um mau estar que começa a preocupar os menos atentos, face à detioração das condições de vida e insustentabilidade das famílias.
O clima é tenso, e o cenário social não deixa adivinhar nada de bom para os tempos que se adivinham de contracção geral na zona euro, onde os países devastados pela dívida acumulada e as populações, se preparam para ser esfolados para honrar os seus compromissos.
No entanto, perante este quadro desolador das economias, constata-se a proliferação e manutenção das exorbitantes compensações e expedientes remuneratórias dos executivos nas mais diversas corporações, na sua maior parte grandes responsáveis pelo actual momento deficitário das finanças públicas, todos eles ligados à máfia predatória das finanças públicas e, simultaneamente, antigos responsáveis de altos cargos na governação do país.
Começam a sentir-se por todo o lado movimentos contestatários, muitos deles usando as plataformas das redes sociais, como o 15 de Outubro, reunindo em seu torno reformados, desempregados, jovens em situação precária, estudantes, sindicalistas e uma juventude desencantada e sem confiança no futuro.
Estes movimentos, de génese pacífica, usam essas plataformas como forma de ampliar a sua mobilização, reflectindo a indignação e a falta de perspectivas latente desta sociedade contemporânea globalizada, onde o vazio de soluções e alternativas políticas, constrangem e asfixiam o berço da democracia, que é a Europa, e que, de um momento para o outro, face a este ataque desenfreado dos mercados, se vai transformando assustadoramente no símbolo de uma inquietante decadência.
O poder corporativo dos mercados esmigalha e oprime por completo a razão das populações afectadas, subjugando-as a uma matilha de ambiciosos, que de forma cruel influenciam e condicionam qualquer projecto de recuperação alternativo, que não seja complacente com os interesses dos agentes especuladores do grande capital, nas reformas de ataque desenfreado e incapacitante na sustentabilidade de qualquer estado social.
Neste triste e resignado cenário, há que ripostar energicamente à petulância do governo, na contingência de o não fazermos, ser tarde demais para reagir, tal o ataque desenfreado e contundente desencadeado, e consentido pelos governantes, sobre as frágeis estruturas dos países em desenvolvimento.
Vivemos um momento de perplexidade e medo, perfilados perante um cadáver de um moribundo, a Europa, onde uma concordata de ilustres sabichões apregoa a inevitabilidade de uma agonia dos povos, marcada por paradigmas civilizacionais, onde hoje tudo se parece ter desmoronado numa senilidade constrangedora, presunçosa e cega, incapaz de se regenerar nos valores fundamentais que lhe deram forma.
Contudo, não nos podemos deixar vencer por este paradigma em que nos pretendem lançar, há que protestar e discutir novos modelos e consciencializar, agora mais que nunca, da necessidade da proximidade dos cidadãos, onde ninguém deverá ignorar o sofrimento, a solidão, a pobreza ou a exclusão do seu concidadão.
João Carlos Soares
Barreiro, 24 de Janeiro de 2012

sexta-feira, janeiro 20, 2012

O Sentido das Crises


Ao olharmos para a Europa resplandecente dos últimos 20 anos, uma Europa de consumismo exagerado, uma Europa dos grandes eventos como as feiras de Barcelona, as Expo por tudo o que era sítio, a sofisticação da frota automóvel, a construção de vias de comunicação ao lado umas das outras, ao aparecimento de toneladas e toneladas de betão a encher os bolsos de empresas cujos administradores, ou são ex-ministros ou correligionários partidários sem escrúpulos, etc.etc., foi chão que já deu uva, a teta secou.
A Europa transforma-se de um dia para o outro num enorme caldeirão de miséria em busca de sobrevivência e melhores oportunidades de trabalho, provocando uma avalanche de novos imigrantes.
Portugal, Grécia e Irlanda, em plena fase de desenvolvimento, estenderam a passadeira vermelha aos bancos estrangeiros, julgando que se encontravam protegidos pelo implacável guarda-chuva do FMI.
O mercado, identificado e dependente dos Estados Unidos, a sua locomotiva, descarrilou, o que fez com que o resto da composição, os vagões da Europa, como a Itália se atolassem com o peso da sua astronómica dívida, pondo fim a uma festa que há muito vinha ameaçando ter os seus dias contados, e tal como se previa, face ao crash na economia global, antecipou a hora do apertar o cinto, tendo como consequências imediatas, a proliferação do desemprego e as suas nefastas consequências no seio das comunidades.
A única coisa que este sistema económico aprendeu a fazer, foi acumular dinheiro em investimentos de multiplicação duvidosa e especulativa, sem criar justiça social, tendo como resultado uma cordilheira de dinheiro que circula nas praças financeiras de uma forma volátil, demonstrando uma enorme falta de imaginação e reforçando cada vez mais os estrondosos rendimentos dos casinos da especulação, provocando uma onda de pânico em toda a zona euro, ao ponto de alguns países consideraram vir a ponderar a taxação das grandes fortunas.
Perante este colapso, eis que a permanência no euro começa a ser questionada por alguns países, sendo a Grécia a primeira a preparar-se para saltar fora, o que se vier a confirmar, pelo impacto e efeito que irá provocar, de uma forma mais directa nos bancos alemães e franceses, funcionará como que um tornado em toda a Europa, arrasando aqueles que mais fragilizados se encontram, e neste caso Portugal não será excepção.
A saída do euro obrigará inevitavelmente ao abandono da União-Europeia, colocando esses países à margem do actual mercado unificado, o que vai ser um deus nos acuda.
Se essa situação se vier a confirmar, a corrida aos bancos, a falência de um sem número de empresas, o aumento do desemprego e de emigrantes em busca de, sabe Deus onde, um lugar ao sol, onde será cada um por si e Deus por ninguém, então não tenham dúvida que será definitivamente decretada a já anunciada e tão desejada morte do Estado de bem-estar social, como se daí tivessem vindo os males que hipotecaram a estabilidade das finanças no nosso país.
A ameaça de bancarrota, obriga os governos a pôr as barbas de molho e repensar o actual modelo económico mundial, construído e baseado essencialmente com o intuito perverso e pornográfico de acumulação de riqueza à custa da exploração do povo.
O interessante deste descalabro anunciado, vai revelando e de forma surpreendente coisas interessantes da propalada democracia em que supostamente vivemos. Se não vejamos o que se passou na Grécia, quando o primeiro-ministro Papandreou, face à situação no seu país, resolveu fazer uma consulta pública para auscultar o povo sobre o que pensava das medidas de austeridade propostas. Os dirigentes europeus e todo o núcleo capitalista entraram em pânico e completo desnorte, provocando a queda de Papandreou e a sua substituição por um novo lacaio, não sufragado democraticamente, que não colocasse em causa os interesses por eles defendidos.
Parece que ninguém tem dúvidas de que a crise económica mundial assenta na peneira desenfreada do capital financeiro, na actual ganância capitalista de acumulação de riqueza, que se preocupa mais com o capital financeiro, do que com a sustentabilidade social e a capacidade produtiva dos países, onde o dinheiro circula num paradoxo obsceno de bolhas especulativas, com a única preocupação de resolver o problema dos seus causadores, e que tudo leva a crer, está para ficar.
Até agora, todas as medidas implementadas e a implementar pelos governos dos países em maior dificuldade e dependência, são dirigidos com o intuito exclusivo de preservar os grandes ganhos financeiros das empresas privadas, não beliscando as estruturas bancárias, não permitindo assim qualquer tipo de prejuízo para o grande capital, aqueles que transformaram, sem qualquer remorso ou sentido de culpa, os seus países em enormes salas de jogo, penalizando pelo contrário os trabalhadores, aumentando-lhes a carga fiscal, alterando as condições e segurança no trabalho, diminuindo os ordenados, e facilitando ao patronato a arbitrariedade nos despedimentos.
Com os anos de dificuldades que temos pela frente, não nos podemos deixar abater pela manipulação de sectores com interesses exclusivamente especulativos, preocupados apenas com as jogadas financeiras e não com o potencial produtivo que temos.
Se alguém julga que esta crise nos coloca perante o colapso do sistema capitalista, não tem a menor ideia de como funciona uma economia de mercado, ou de como funciona o sistema capitalista. Esta crise económica, que se desenvolveu a partir de uma bolha financeira, não é a primeira, nem será com certeza a última a afectar o sistema capitalista. Para que haja um colapso do sistema capitalista teria que estar a ocorrer uma crise profunda nas estruturas de economia de mercado, o que não me parece ser a situação.
Ao longo destes últimos 20 anos, temos vindo a assistir a uma propaganda sufocante, produzida pela burguesia e seus acólitos, apregoando as vicissitudes do sistema capitalista, como sendo o único sistema possível para a humanidade, através da criação de riqueza e bem-estar crescentes para toda a gente.
Esta última crise da economia, vem de certa forma repor uma verdade escondida, pois as políticas neoliberais, os excessos especulativos ou até mesmo a falta de regulamentação, por si só, não são as únicas causas deste fracasso. Pelo contrário, as crises são a essência e fazem parte do sistema capitalista.
O capitalismo é um sistema em decadência mas que tenta sobreviver a todo o custo, tendo como único objectivo a obtenção de grandes lucros em contraponto com os baixos valores praticados no mercado de trabalho, através de uma produção desordenada, um consumo descontrolado e supérfluo das minorias, numa exploração desregulada dos recursos naturais e da especulação financeira.
Um sistema em que o capital não tem fronteiras, mas utiliza constantemente as barreiras impostas pelas fronteiras de cada país, para reprimir e melhor poder explorar os trabalhadores imigrantes, criando assim um sistema que ciclicamente, sempre que lhe convenha, obriga a humanidade a longos e desgastantes períodos de violento desemprego, o que conduz invariavelmente à fome e miséria das populações.
A cada ciclo de crise, somos confrontados diariamente com os escândalos financeiros, o aumento brutal das desigualdades, a ameaça constante de uma nova depressão sobre as nossas cabeças e a irracionalidade comprometedora do sistema.
Há que encontrar soluções e buscar uma saída para estas crises, cada vez mais violentas e arrasadoras, que nos colocam à mercê da ganância de uns quantos, através da planificação de uma economia sustentável estruturada e suportada num sistema sério de investimento e crédito controlado pelo Estado.

João Carlos Soares
Barreiro, 20 de Janeiro de 2012