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terça-feira, janeiro 06, 2009

Reflexões sobre a Corrupção


Mutações e deturpação dos princípios de ética sob os quais se regem no seu desempenho as instituições que deveriam ser o garante e suporte nas democracias, tal como o acréscimo de casos de corrupção latentes na administração pública, e, mesmo a nível dos órgãos representativos do Estado, configuram-se como a causa e a razão para o declínio dos níveis de confiança na percepção e avaliação dos cidadãos, face ao desempenho dos partidos políticos na nossa Democracia.

Entendendo-se e analisando-se na óptica do comum dos mortais, este profundo mal-estar, resultante em parte, na forma e nos processos de decisão de quem nos governa, o distanciamento e a falta de renovação dos partidos com os seus militantes e simpatizantes, a forma autista como são encarados os graves problemas dos cidadãos, a miscelânea pouco clara e promíscua em que neste momento se fundem na relação da gestão público/privado, não salvaguardando de forma incondicional o interesse público, precipitam medos e frustrações nos cidadãos de forma mais intensa do que as suas esperanças e optimismo fariam prever.

A corrupção é uma prática ou comportamento, onde, aos valores de ética, se sobrepõem os interesses privados, valores esquecidos ou subalternizados no exercício das suas funções, para os titulares de cargos, sejam eles públicos ou privados.

Como tal, este tipo de comportamento viola e ultrapassa a fronteira do aceitável, defraudando as expectativas dos cidadãos, transformando-se numa conveniência, onde ninguém parece querer admitir, assumir, ou tomar decisões contra o seu próprio interesse.

Todo este naufrágio, resultado do vazio provocado no seio dos partidos pela ausência de ideologia, conceitos e ideias, estratégias auto sustentadas, incapacidade política, onde a capitulação dos líderes se sucedem em catadupa, a menos que se vislumbre estabilidade e capacidade dirigente confiável.

Por um lado não podemos esquecer, porque seria má fé, iniciativas levadas a cabo por algumas figuras de relevo nacional, como João Cravinho e outros, partidários do combate à corrupção, assumindo-a como uma prioridade política inequívoca à luta anti-corrupção, não só liderando um movimento com peso crítico substanciado, mas apresentando igualmente planos e iniciativas legislativas, visando a prevenção e combate a esse flagelo. Pena, que a maioria dos partidos, e os seus dirigentes, que a todos nós deveriam representar e proteger, se desinteressassem de tal missão, mostrando inequivocamente falta de coragem e pouco à vontade que sentem, em discutir e regular sobre esta matéria.

Enquanto os partidos não definirem as suas próprias linhas de orientação estratégica internas, para a forma, atitude e transparência como pretendem cultivar na formação dos seus quadros políticos os valores de ética dirigente, sem as quais não conseguirão uma cumplicidade e participação activa da sociedade civil, factor primordial e indispensável de transparência e de responsabilidade social.

A satisfação dos portugueses em relação às estruturas e instituições representativas, está cada vez mais hipotecada, sendo a mesma confiança proporcional ao desempenho da classe política em dar ou não resposta à forma de solucionar as necessidades dos mais desfavorecidos e, à capacidade em ultrapassar as deficiências do nosso sistema político.

A ausência de participação, cada vez maior, dos portugueses na actividade política, é um sinal preocupante de debilidade na sociedade civil, diminuindo e dificultando o enriquecimento dos partidos e instituições políticas, com a massa crítica indispensável e necessária ao fortalecimento da nossa Democracia.

A ausência de pressão da sociedade civil organizada, faz com que a classe política e as instituições que representam, se exponham e sejam cada vez mais vulneráveis aos interesses corporativos, criando as condições ideais e propícias à corrupção.


João Carlos Soares

domingo, outubro 14, 2007

Personalidade......Liderança.......Poder

Na eminência de se poderem vir a afirmar como líderes no futuro, a tendência actual dos políticos é exagerar o papel da sua personalidade, conjugado com a vaidade no exercício da sua actividade, transformando este binómio como factor fundamental e indispensável para a sua afirmação.
Prova disso, é a forma como acreditam dispor, de maneira excepcional, das qualidades de liderança resultantes da inteligência, encanto ou capacidade retórica confirmada, a qual os motiva a crer e fazer acreditar os outros também.
O que poderemos chamar de efeito bajulador, é outra das razões que contribuem efectivamente para o engrandecimento da personalidade como fonte de poder ambicionado.
Os instrumentos de poder disponibilizados e a que os lideres têm acesso, tal como as influências que passam a ter nos diversos meios e órgãos de decisão, conferidos pela sua condição perante o poder, são em certa medida uma atracção natural para todos aqueles que desejam partilhar e usufruir o poder dessas influências, vivendo à sua sombra.
Nesse contexto, constará para memória futura, que o poder concedido resulta, isso sim, do facto de integrar uma organização, à sua personalidade, às suas qualidades como líder, fazendo na insistência de tal constatação, o acreditar e fazer acreditar, de quem o rodeia, tal presunção.
Faz parte da natureza, naquilo que se convenciona chamar de contexto social, dramatizar também o papel da personalidade. Uma grande parte das relações sociais está relacionada com quem exerce o poder, por outras palavras, com quem está a impor os seus objectivos aos outros. Grande parte do esforço social despendido nas comunidades, consiste em procurar ligações com os que são considerados como poderosos. Este tipo de atitude, é muito apreciado pelos que a recebem e, por isso, políticos, funcionários públicos, jornalistas e outros cultivam e alimentam uma atitude pública que sugere poder ou dá a entendê-lo como omnipresente. Na forma como agem, vestem e no seu próprio comportamento social em geral, mostram um aspecto bem elaborado e estudado de liderança e comando.
As conversas e os temas desenvolvidos, centram-se frequentemente, e muitas vezes de maneira ostensiva, na forma como a vontade do orador se está a impor aos outros, o que, diga-se, resulta frequentemente de forma bastante convincente.
Os rituais utilizados na política, reuniões, plenários, assistências e aplausos, também conduzem a um equívoco sobre a personalidade como fonte de poder, isto porque os oradores falam regularmente para públicos já totalmente condicionados às suas convicções, adaptando por isso o seu pensamento automaticamente, àquilo que sabe ser essa convicção.
A descrição de um líder, tal como vulgarmente a sociedade o concebe, sofre de uma certa ambiguidade e como tal assim deve ser encarada. O líder pode ser brilhante a obter a submissão dos outros ao seu objectivo, mas na referência que lhe é feita no dia-a-dia não passa de um perito em se identificar com a vontade condicionada da comunidade em que se insere e na sua capacidade de identificar para essa mesma comunidade os seus próprios projectos.
O poder de um líder pode-se avaliar pela forma como consegue convencer os seus seguidores a aceitar as suas soluções para os problemas deles e, consequentemente, o seu caminho na concretização dos seus objectivos.
Quando esses objectivos são conseguidos, quando a sua personalidade entra em associação de proximidade com o seu eleitorado, poder-se-á desenvolver uma estrutura, que dotada de organização, se transformará numa verdadeira e eficiente máquina política.

João Carlos Soares