segunda-feira, março 01, 2010

Onde pára a Justiça?


Quando assisto, sentado frente a um qualquer canal de televisão, vendo um qualquer programa em emissão, ou escutando e visualizando imagens degradantes de comportamentos cretinos de determinados actores com responsabilidade na nossa sociedade em completa desfiguração, dou por mim a delirar em vociferações de desespero, por não querer acreditar nem aceitar tanta cretinice.
Pois é, começo a pensar e ao mesmo tempo a ficar cada vez mais confuso, ou por outras palavras com a leve impressão de que a levar a peito tudo o que vejo e ouço, deixando de pensar, me poderá conduzir simplesmente a perguntas sem resposta, ou então a um quase estado doentio sem recuo, situação a que não me permito enquanto cidadão de direito.
É que não consigo deixar de pensar nas coisas, à procura de alguma escapatória possível nesta sociedade louca que, quer queiram ou não ajudámos a construir, numa busca desesperada de soluções, onde o empenho, o conhecimento e o esclarecimento de todos se torna cada vez mais necessário e indispensável.
No cerne de todas as minhas dúvidas e questões, as palavras formação e valores, são como que sinónimos no contraditório da responsabilidade nas causas do sofrimento desta sociedade constrangedora de penúria e lamentos que padece. Para entender toda a imbecilidade que nos rodeia, sou quase obrigado a admitir que está em curso uma qualquer mutação genética no ser humano, provocado por uma falta de vergonha insaciável de altos responsáveis, que não se coíbem de continuar a arremessar serradura para os nossos olhos, mentindo com quantos dentes têm na boca, vergonhosamente protegidos por uma justiça onde se incluem todos os sectores do poder judiciário sem excepção, onde todas as injustiças começam por se fazer sentir.
A Justiça simplesmente não faz o trabalho que lhe compete, no cumprimento das leis deste país. Deveria obrigar à apresentação de provas concretas e justificação das afirmações proferidas nos meios de comunicação social. Pelo invés, usa de uma panóplia de sigilos, continuando a proteger os interesses de uma certa elite de privilegiados, ofuscando a verdade e o conhecimento dos factos à população, os quais, fazem recair sobre os órgãos de soberania um ambiente de desconfiança e descredibilização e sobre o povo uma sensação de revolta perante tanta pouca vergonha.
Continuam a deixar em liberdade sem qualquer tipo de punição, políticos e administradores de empresas com participações do Estado, que não cumprem a lei, são useiros e vezeiros em comportamentos repreensíveis perante os órgãos que representam e a sociedade, utilizando a fuga aos impostos e servindo-se de negócios nada ou pouco lícitos perante a lei, desviando o dinheiro que deveria ser investido pelo Estado na educação do povo e na construção de condições de vida para todos, numa sociedade onde os valores sociais da igualdade de oportunidades prevalecessem.
Para que se faça cumprir a justiça num país, não basta dizer que num regime democrático todos somos iguais, quando sabemos à partida que, essa mesma justiça que protege lobbies descaradamente, considera uns mais iguais que outros, bastando para isso ser rico e bem relacionado, pois nessa condição, pelo que temos assistido infelizmente nos últimos tempos, tendo essas condições pode-se fazer tudo o que se quiser, se calhar até matar, porque não, pois a prisão parece não ter sido feita para eles.
Será caso para dizer: Se não fores rico, se não fores bem relacionado, se não tiveres amigos no poder, vais preso sem direito a qualquer perdão e prepara-te para sofrer toda uma série de injustiças.
Diz-se que este país está doente. Não será uma das suas maiores doenças a falta de equidade com que somos julgados por uma Justiça que nos faz desacreditar nos valores e na consistência de igualdade de tratamentos num Estado Democrático e na transparência e imparcialidade das suas decisões?
No entanto, independentemente das causas e da justiça que seja feita, esta é a sociedade que ajudámos a construir, à qual devemos exigir acima de tudo e em primeiro lugar, a segurança e o bem estar a proporcionar aos seus cidadãos.

Só que até a própria injustiça tem limites, limites esses que começam a ultrapassar o admissível, permitindo-se a constituição em pequenas máfias infiltradas em quase, se não todos os segmentos da sociedade, e quando menos esperarmos, rectificar os erros cometidos será tarde demais.

Vivemos tempos difíceis, atravessando um período delicado onde os valores éticos e morais são constantemente postos em causa, onde a sociedade de consumo dirigida e manipulada por uma grande indústria de magnatas e banqueiros, cuja preocupação é fabricar ilusões inebriando mentes fragilizadas de pessoas que hoje vivem como marionetas, ao sabor dos chamados especialistas de opinião, fazendo com que o mundo perca as suas referências positivas comportamentais, esquecendo-se que todos somos iguais e, que um dia vamos morrer e da Terra nada levaremos.


João Carlos Soares



sábado, fevereiro 13, 2010

DE MÃO NA CONSCIÊNCIA


Entrámos em 2010, debaixo do espectro de uma recessão que devido à sua extensão e causas, deixaram Portugal e os restantes países com fraco poder de produção na comunidade, condicionados e subjugados às regras do mercado internacional e interesses da banca.

Deu para perceber que os dirigentes partidários tentam focalizar e usar a atenção dos Portugueses como isca, num jogo de intriga e desconfiança, apoiados por uma imprensa com laivos e tendências burguesas, escondendo o que realmente preocupa as famílias, onde a falta de escrúpulos dos governantes, acaba por preencher os tablóides nacionais, quando o desemprego e os desequilíbrios sociais são na realidade o que deveria preocupar e ocupar o interesse para as grandes decisões deste país.

Sub-repticiamente vai-se preparando o terreno para um processo eleitoral que se avizinha, a Presidência da República, preparando o caminho aos interesses de grupos económicos privilegiados, num processo de despolitização de massas, onde as peças são estrategicamente colocadas num tabuleiro de interesses instalados, numa prática política maléfica de meros chavões desprovidos de qualquer conteúdo, não passando de uma farsa bem montada, quando deveria ser, acima de tudo, uma consciente e livre escolha popular.

No meio de tudo isto, é de lamentar a predisposição como a auto-denominada militância partidária, em exércitos de mercenários de opinião, apoiada por franjas controladas da comunicação social, nos tentam enfiar pela goela abaixo os seus candidatos, de uma forma preocupante, sem escrúpulos, denotando um total desprezo e desinteresse pela verdadeira função de informar, esclarecendo e explicando o que é ser bom ou o que será ter uma prática política reprovável, abordando as questões fulcrais que levam e conduzem aos desvios, de forma criminosa, para o cada vez maior agravamento da dívida pública.

Sempre que a situação de forma cíclica se descontrola nas finanças do Estado e caem a níveis perigosos, as lideranças políticas começam a ser contestadas, sem qualquer alternativa credível à vista e, aos poucos, numa falsa envolvência emocional patriótica, eis que se lançam numa propaganda eleitoral, que acabará influenciando as escolhas do povo, por este ou aquele candidato, na maior das vezes sem jamais entenderem o porquê dessa escolha, que ao fim e ao cabo esses exércitos propagandistas lhes conseguiram impingir, mas que nada ou pouco contribuirão para uma mudança nas estruturas políticas, que se exige, e se tornam cada vez mais necessárias, esgotado que está o modelo actualmente vigente, esquecendo todas as promessas entretanto formuladas, mas que antecipadamente sabiam muito bem não terem intenção de cumprir.

Na base da constituição de qualquer governo, deverá estar prioritariamente o seu projecto de política económica. Esse projecto deverá estar vocacionado e provido de soluções capazes de responder às verdadeiras necessidades vitais de quem os elege, o povo, direccionando os seus objectivos na resolução dos estrangulamentos que impedem o verdadeiro desenvolvimento social e económico do país. Esta deveria ser a informação e o esclarecimento que esses exércitos militantes deveriam transmitir, reportando esse conhecimento e fazendo entender às grandes massas, que nada entendem de economia. Contrariamente, continuar a esconder essa realidade, mantendo na ignorância se possível as populações e, criando-lhes por isso mesmo um sentimento de inferioridade.

É altura mais que propícia para que os políticos se assumam e reflictam de forma consciente, abdicando de algumas mordomias e privilégios, dedicando um pouco do seu tempo fora dos corredores do poder, proporcionando aos seus eleitores e dando-lhes a oportunidade de se educarem politicamente, fornecendo toda a informação necessária e indispensável para o esclarecimento e conhecimento dos seus eleitores com a realidade que é o labirinto da economia e a relação que a mesma terá com a vida a proporcionar às populações.

João Carlos Soares


domingo, janeiro 24, 2010

É PRECISO MUDAR


A corrupção dos políticos é de entre outras, o tipo de corrupção mais próxima do conhecimento público. Contudo, a corrupção dos políticos, não se inicia, nem termina na sua denúncia e “afastamento”, retirando-lhe oficialmente o acesso directo às comissões públicas, ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecimento pessoal, ou de favorecimentos de determinados grupos ou elites, transformando-se e dando origem a uma doença com níveis preocupantes.

Existe um outro tipo de corrupção instalado na política, com ramificações e tentáculos muito mais difíceis de detectar e sanar, do qual ninguém fala, a qual se propaga e instala no sistema político.

Não estamos a falar de privar ao bem público os seus direitos, mas diante de influências questionáveis tomarem-se decisões em proveito de grupos instalados e não com vista ao que deveria ser do interesse para a resolução dos problemas que o País enferma. Trata-se pois, de um sistema corrompido por influências para favorecer determinadas facções elitistas da sociedade, em vez de nos representar para criar melhores condições de vida a todos nós.

Não estamos a falar só de procedimentos ilegais, agora nas primeiras páginas do tablóide nacional e que daí não passa, mas também de dar provimento a decisões, algumas até certo ponto sem lógica aparente, por vezes com algum grau de estupidez e mesmo contraproducentes numa democracia participativa que se exige.

É pelo contrário a destruição e adulteração de um sonho que não deixaram evoluir, que já não nos representa e que está a ser construído para não funcionar.

O estado calamitoso incrementado pelas franjas da governança instituída que teimamos em permitir, consentido com o nosso voto o acesso aos órgãos de poder de gente sem um mínimo de clarividência de ideias nem experiência de vida, os quais se desconhece ou nunca deram algum contributo cívico para o merecerem, fazem com que esta doença epidémica atinja foros de pandemia, da qual não se vislumbra fim à vista.

Não é possível atribuir um qualquer certificado de qualidade aos políticos, para os diferenciar, apresentando uns como mais ou menos qualificados que outros para a função. No entanto, para se aceder a patamares de decisão, que vão influenciar e ditar num futuro o desenvolvimento de um país, alimentar a esperança ou não de geração em geração, devemos exigir dos líderes partidários, independentemente dos partidos no poder, uma escolha efectiva de gente que tenha capacidade para governar, decidindo, respeitando e garantindo os direitos dos seus eleitores, não os usando para moeda de troca para negócios de poder, quando deveriam preocupar-se em dedicar algum tempo a arrumar soluções contra a corrupção do sistema político, de que são responsáveis.

Esse compromisso deveria ser assumido pelos líderes deste país, numa postura efectiva de apoio a uma série de medidas que contribuíssem para aumentar eficazmente a transparência nas decisões de estado.

O Estado tem que de uma vez por todas fazer um esforço no sentido de diminuir a influência dos patrocinadores económicos partidários nas decisões fundamentais e estruturais do país, fazendo com que os políticos e as políticas defendam, como grupo de representantes da sociedade, a discussão de ideias para uma solução da crise em que vivemos, melhorando a condição de vida das famílias, e não um bando de vendedores profanos ideológicos, cuja intenção se resume a pensar em votos e a agradar os seus financiadores.

Quer queiram entender, ou não, as alterações a este sistema corrompido têm que ter alguma solução e rápida para a mudança, porque o cinismo como a questão é assumida por alguns e a relação nas possibilidades de mudança, só parecem interessar a quem gosta e lhe interessa continuar a chafurdar na lama em que vive.

O sistema político, além da corrupção que diariamente chega ao conhecimento público, começa a ser de uma ineficácia por vezes surreal, baseado num modelo ultrapassado e nada actual com a realidade e novas necessidades das gerações futuras.

Está na hora de sermos muito mais ambiciosos connosco próprios, começando para já a pensar na necessidade urgente de refundar um sistema político, consertando os problemas que o afligem, onde os políticos malandros não tenham lugar nem hipótese de manter o seu tráfico de influências.

João Carlos Soares

domingo, janeiro 03, 2010

Realidade ou futurologia


Vivemos numa era em que o desenvolvimento e as ideologias dominantes fracassaram em definitivo.
Na base do desenvolvimento e crescimento económico têm que estar salvaguardados e consignados no modelo de transformação social a adoptar, fundamentalmente através de uma rigorosa avaliação de projectos, cooperação e solidariedade onde a participação das populações se façam sentir na concepção e execução dos mesmos.
A distribuição de riqueza só será possível, se houver capacidade para fazer crescer a produção e o rendimento das famílias de forma equilibrada e sustentada em índices de rendimento aceitáveis, onde a discussão com os agentes representativos de consertação social seja respeitada.
A complexidade e realidade social são por vezes contraditórias com os objectivos e planos que reflectem única e exclusivamente os interesses e valores de grupos sociais que se encontram em campos diferentes.
As perspectivas dos governos dirigem-se e assumem como objectivos e metas uma verdade de desenvolvimento baseada exclusivamente no progresso técnico, de forma inquestionável, supostamente como paradigma das leis da evolução natural das sociedades modernas.
Na realidade, o que se passa, é um especulativo crescendo bolsista, que no interesse de alguns é utilizado como indicador de progresso, mas que na realidade o que acontece e se mascara, é uma produção que não cresce, porque não se sabe o que produzir nem o destino para essa produção e o que cresce é a ambição dos ricos se tornarem cada vez mais poderosos.
Vemos a discussão política acontecer em torno de estimativas que não são mais que extrapolações feitas na base das taxas de juro aplicadas pelo Banco Europeu e suas oscilações constantes, que são o espelho e evidenciam o carácter altamente equivocado e perverso dos grandes reguladores da economia mundial.
Entrámos na via da futurologia, quando a nossa maior preocupação deveria ser tentarmos obter uma visão consistente e real que melhor se pudesse adaptar às grandes e necessárias decisões no presente, concebendo e explorando futuros alternativos, mesmo que para isso tenhamos que aceitar a existência de certas condições, consideradas como partes do nosso futuro provável e desejável.
A insegurança e as incertezas, provocam um pesadelo cheio de contradições no nosso dia-a-dia, perante os desafios e os problemas aparentemente insolúveis por eles criados, fazendo com que o cidadão comum viva num caos de identidade, onde a perda de confiança nessa sociedade se faz sentir através da falta de credibilidade nos outros, no governo e na própria sociedade da qual são parte integrante.
Por fim, fica no ar uma simples mas inquieta questão:
Afinal, para onde caminhamos?

João Soares

quinta-feira, dezembro 24, 2009

A Verdade da Crise


Governar não é fácil e não se pode resumir ou permitir a um mero acto de resolver e atacar os problemas na forma simples do aqui e agora. Sem uma visão abrangente, clara, lúcida e perspicaz do que nos espera num futuro próximo, poderá conduzir, aquilo que à partida significaria uma esperança para muitos, a um fracasso a evitar a todo o custo, transformando-se num enorme obstáculo de solução impossível, em muitas situações de difícil superação.

As crises podem e devem ser obrigatoriamente enfrentadas com uma visão alargada e nunca reduzindo ou limitando essa visão e acção a uma atitude ou processos e medidas redutoras e defensoras de proteccionismos duvidosos, ignorando-se a possibilidade e oportunidade de implementação de reformas e modernização do País.

É verdade que qualquer mudança estrutural provocada pela acção de reformas do estado, encontram naqueles que directamente vão sofrer as suas consequências, os primeiros detractores dessas medidas. Nesse sentido, somente com um intenso trabalho junto da opinião pública, através do debate, se consegue remover esses obstáculos.

A transparência, ideia tão defendida e exigida nos meios políticos, nunca terá sido tão necessária quanto agora, pois toda a capacidade de vencer uma crise ou de abreviar e condicionar a sua duração, dependerá em grande parte do apoio que os governantes receberem de quem os elegeu e neles confiou, porque a esses é que serão exigidos todos os sacrifícios.

Muitas ilações se poderão retirar da crise que nos assola, havendo, por certo, quem simplesmente a impute a deslizes do sistema financeiro ou de mercado perante a globalização, com a sua incapacidade de auto-regulação.

Contudo, perante uma forma mais abrangente e visionista, há quem preveja nesta crise um móbil para o aparecimento de uma nova ordem internacional, renascida dos escombros do capitalismo, quase que por ironia do destino, provocado exactamente por causas a ele congénitas.

A grande dúvida e preocupação, advém precisamente da grande incógnita que essa nova ordem representará num contexto de globalização, como aquele a que estamos a assistir.

O enorme colapso a que a economia internacional tem estado sujeita, ainda não tem um fim à vista, nem existem esperanças de que, num curto espaço de tempo, se encontre uma solução que ponha cobro e resolva os desequilíbrios, face ao renascer de novas preocupações, resultante de avanços e retrocessos na economia das potências reguladoras de mercado europeu, como a França, Alemanha e Inglaterra, para não falar na economia Norte Americana.

A preocupação imediata dos responsáveis, deverá ser orientada no sentido de uma aprendizagem com base nas lições do passado presente, abrindo as portas para o futuro, sem perder de vista que o primeiro e único objectivo, deverá ser o da criação de condições de sustentabilidade para a concretização das potencialidades da sociedade em geral.

A qualidade política dos governantes mede-se com base nas sua capacidade de decisão. Oscilar e refrear uma decisão, pode-se considerar um defeito tão grave quanto escolher o caminho errado. Não abordar os problemas de frente ou adiar a sua resolução, pode conduzir e precipitar o país para um desastre de consequências irremediáveis.

Subestimar esta crise e o seu impacto na nossa economia, por fanfarronice partidária ou angariação de popularidade, podem colocar em causa a verdade no combate à crise, comprometendo irremediavelmente qualquer solução e eficácia.


João Soares

domingo, dezembro 06, 2009

Preocupações


Perante os factos de corrupção chegados ao conhecimento público, como poderemos fazer prevalecer a vontade popular, para que efectivamente possamos fiscalizar a administração pública, pondo termo de uma forma efectiva aos flagrantes casos que são denunciados e chegam ao nosso conhecimento?
A necessidade que os partidos têm para fazer frente e custear toda uma máquina de propaganda eleitoral demasiado pesada, aquando dos processos eleitorais, abrem espaço e criam a oportunidade a gestores e administradores corruptos e incompetentes sem qualquer pudor nem escrúpulos, que se deixam aliciar por poderosos grupos económicos, através de contrapartidas em suportes financeiros volumosos, viciando-se assim o resultado sufragado pelas populações, através de um processo eleitoral próprio de qualquer democracia participativa.
Neste processo corrosivo e perigoso, as instituições que deveriam pugnar para expurgar estas santas alianças, elas próprias se vêm condicionadas e agrilhoadas por uma panóplia de segredos de justiça, com os expedientes só possíveis num sistema onde, a hierarquia de clãs com base político partidária, quase sempre conotadas a esses grupos económicos, procuram perpetuar nos diversos níveis de poder e decisão, uma elite de privilegiados, em proveito próprio.
Sendo os partidos políticos os agentes de um poder democraticamente constituído, disputando a sua manutenção e liderança, tornam-se, nessas disputas, os alvos privilegiados dessas elites, sedentas por manter no poder ligações a executivos que lhes facultem e concedam acessos às grandes negociatas do regime, mesmo que para o efeito tenham que abrir de mão a quantias volumosas e outros favores.
A forma descarada como os lugares de administração desses grupos são preenchidas, quer por quadros de forças partidárias, quer por ex-membros do Governo ou Instituições públicas, levam a que a promiscuidade do tratamento entre o público e o privado, que deveria ser da maior transparência, enverede por caminhos nebulosos e lamacentos, como aqueles a que nos últimos anos temos vindo a assistir.
Perante este cenário de total falta de controle e fraude na máquina administrativa do Estado, as dificuldades com que o acompanhamento da sua gestão é feito, ou lhe é permitido nos diversos órgãos de soberania, será possível alguma vez podermos responsabilizar e fazer pagar a todos esses senhores os prejuízos que causaram à Nação?
A reforma política do Estado exige rapidamente mudanças na forma de gestão da coisa pública, através da necessidade de uma maior avaliação de desempenho dos governos, quer central quer local, na implementação dos orçamentos participativos e movimentos de cidadania, em função das promessas que os partidos fazem quando em campanha eleitoral, em função e defesa do interesse público.
Independentemente dos partidos que estiverem no poder, a opção recai sempre no planeamento e controle centralizado nas tomadas de decisão, em contraponto e oposição às verdadeiras políticas de descentralização e autonomia, quase sempre com a justificação que os conflitos de interesses e de valores podem e devem ser resolvidos pela via da decisão técnica e jurídica.
As dúvidas quanto ao futuro e desenvolvimento sustentável, só poderão deixar de existir na mente de todos nós, quando as organizações, as instituições públicas e os políticos, estiverem comprometidos na defesa da igualdade de valores na sociedade, no cumprimento das suas responsabilidades perante o respeito dos cidadãos, defendendo e apresentando alternativas para as questões que afectam a segurança e bem-estar de todos e em particular dos mais carentes, contribuindo de forma solidária na construção de uma sociedade justa.
João Carlos Soares

terça-feira, dezembro 01, 2009

Só não vê quem usa cangalhas


A obstinação de alguns, perante a vontade inequívoca de outros, em proporcionar e disponibilizar capacidades e vontades, faz com que o futuro seja constantemente adiado, influenciando e reinterpretando as escolhas de ontem e de hoje na realidade política actual, esquecendo-se que nem só do passado se faz e constrói o presente, muito menos o futuro.

Torna-se inevitável, de facto, o resgatar da memória e da experiência acumulada de valores que enriquecem o tempo presente, contribuindo para um entendimento, análise e compreensão do passado, na pretérita justificação das escolhas e posturas políticas e pessoais, na realidade actual.

Nesta perspectiva, os actores que contribuem e fundamentam a história, entre eles os políticos como agentes representantes da vontade dos povos, têm como obrigação e dever, compreender o passado sempre presente das organizações e movimentos sociais, aos quais temos as nossas vidas ligadas, fazendo com que as suas opções políticas não fiquem reféns e vinculadas única e exclusivamente à dimensão partidária.

Essa memória expressa a dimensão da vida, mas que tem como actores homens e mulheres de carne e osso, pessoas que também sofrem como qualquer um, sofrem dos mesmos medos e receios, e, tal como ser humanos que são, também têm os seus momentos de alegria e tristeza, sobretudo quando têm consciência e medem a responsabilidade de estar ao serviço de quem neles confia, reflectida numa enorme esperança e, porque não, também utopia.

São essas escolhas que fazem a diferença e explicam nos nossos actos o que somos, ainda que, por vezes, não sejamos reconhecidos no meio de uma amálgama complexa e atribulada, construída por decisões que tomamos e rumos que escolhemos, por vezes influenciados pelas atitudes inconscientes de outros.

Caminhar com memória, sem esconder o passado, compartilhar lembranças e informações sobre a vida, sem receio de olhares e críticas sem fundamento, ajuda-nos a compreender os caminhos a seguir, cujo objectivo tem que ter como único epílogo e prazer, compartilhar experiências pessoais e colectivas, à medida que formos confrontados com novas realidades, algumas das quais, pela sua natureza, seriam absolutamente imprevisíveis.

Acima das memórias do passado, não nos devemos retrair, muito menos acobardar, perante opções e escolhas, aos princípios que nos guiam e proporcionam uma reflexão crítica sobre os caminhos percorridos e a percorrer.

Perante alguns comentários, quanto ao sentido da ética na política, a única resposta que tenho, resume-se ao lamentar dos tempos sombrios que vivemos, onde o descrédito e o desencanto das populações cresce perante a descrença nos partidos políticos e na própria democracia participativa, como protesto de todos aqueles que não se podem conformar com as desigualdades e injustiças, a concentração de riqueza, onde os negócios suspeitos que envolvem milhões e milhões são cada vez mais o pão nosso de cada dia.

A esperança transformada em utopia passados 30 anos, na qual eu confiava, configurava um Estado capaz de repor e manter o equilíbrio numa luta entre classes sociais, receptivo a reformas e garantindo a ordem, a segurança e o bem estar de todos

Nunca é tarde para percebermos que afinal de contas o Estado, face a uma convenção perversa com as elites tradicionais e modernas do sistema, sustentadas e supostamente legitimadas por poderes ocultos, iniciou um processo de opressão aos mais desfavorecidos da sociedade.

Isto, com toda a certeza, eu sei que não é ética nem moralmente recomendável para todos quantos se preocupam com o seu semelhante.

Acredito que algo de novo emerge, onde a participação da maioria dos actores sociais serão indispensáveis para uma transição, onde será possível transformar este cenário actual com dinâmicas sociais, conscientes dos seus direitos e obrigações, conjuntamente com uma capacidade de agirmos colectivamente. O caminho irá ser longo, cheio de obstáculos e contratempos, mas não há nada mais gratificante na vida do que sabermos e termos a consciência plena de onde vimos e para onde queremos ir.

João Carlos Soares