quinta-feira, outubro 01, 2009

Violência Política ou a Teoria da Conspiração


O recente acto eleitoral para as legislativas, veio mais uma vez mostrar que existem muitas e boas razões para acreditarmos que as opções que nos parecem ser as piores escolhas no actual sistema não são acidentais, mas sim um fenómeno que, de tempos a tempos, nos tentam conduzir garantidamente a regimes totalitaristas.
Exactamente por essa ordem de razão, nas sociedades dominadas ou predominantemente com ascendente totalitarista, são provavelmente quase sempre os pouco escrupulosos e mais descarados os mais bem sucedidos. Está na cara e só não vê quem não quer ou não percebe o que realmente separa o totalitarismo de um regime dito liberal.
Um dos objectivos da política de esquerda e dos seus intervenientes, terá de ser o alerta constante nas opções e escolhas contra a privação dos direitos dos cidadãos em geral, eliminando as causas e prevenindo consequentemente os efeitos por forma a não permitir o sucesso de qualquer tentativa de sonegar as liberdades conquistadas.
Para que tal não aconteça, há que impedir a todo o custo a moda actualmente em voga entre a classe de intelectuais que usando o argumento da falta de segurança, apoiam e defendem a contenção e suspensão de liberdades essenciais no sistema democrático português.
Para todos aqueles que defendem e alimentam de forma convicta a inevitável ascensão de um regime totalitarista, minando a sociedade e envenenando os menos esclarecidos, torna-se cada vez mais necessário uma atenção redobrada para todo o tipo de propaganda populista que caracteriza esses farsantes, mostrando-lhes a nossa repulsa, intervindo com maturidade, coerência e convicção dos valores que nos norteiam.
Não nos devemos iludir ao ponto de pretender que todas as pessoas se identifiquem totalmente com a nossa forma de participação na vida pública, nem que todas elas professem dos mesmos valores e convicções e que por isso os julguemos menos competentes só porque muitos deles preferem confiar em governantes conscientes e sensatos, quando esses governantes fazem parte de um sistema estabelecido por homens bons.
A interacção entre a moral das instituições que nos governam, pode e deve funcionar como catalisador do equilíbrio na ética resultante das noções morais da sociedade e nunca como obstáculo à concretização das nobres razões que conduziram Portugal à conquista da Liberdade em Abril de 1974.
Resultado da falta de seriedade e escrúpulos de alguns protagonistas na cena política, afastam cada vez mais gente decente com princípios e convicções, proporcionando a ascensão da canalhice aos palcos públicos da governança.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Liberdade ou Dependência


Quando perante um rumo económico inesperado a nível mundial, nos sentimos ameaçados, damos por nós a culpar tudo e todos, como é natural, excepto a nós próprios.
Afinal de contas, não nos esforçámos todos segundo os mais excelsos ideais?
Não trabalharam incansável e persistentemente os nossos melhores cérebros para transformar e fazer deste um mundo melhor?
Não dirigimos todos os nossos esforços e esperanças no sentido de uma maior liberdade, justiça e prosperidade?
Se o resultado é tão diferente do almejado, se, em vez de liberdade e prosperidade, somos confrontados com cada vez maior dependência e miséria, não estará mais que evidente a frustração das nossas intenções?
Que uma mudança de ideias em conjunto com o poder da vontade humana e do querer de alguns, fizeram do mundo o que ele é hoje, todos sabemos e temos consciência, agora o que não estávamos era preparados para as consequências e os resultados que nos aguardavam a médio prazo, e que nenhuma alteração dos factos, mesmo espontânea que fosse, nos obrigaria a adaptar o nosso pensamento à realidade actual.
Ainda pensamos nos ideais que nos norteiam e nos conduziram ao longo de várias gerações, como sendo ideais apenas a cumprir no futuro, e não temos a percepção de quanto, nas últimas duas décadas, em especial, esses ideais foram responsáveis pelas transformações, não só no mundo, mas por tabela, também neste país à beira mar plantado, que é Portugal.
Ainda estamos em crer, por isso acreditamos, que até há bem poucos anos estávamos a ser governados por ideias e conceitos em permanente conflito ideológico, impacientes por tudo fazer para acelerar a mudança no sentido do equilíbrio e sustentabilidade social, com o objectivo de apanharmos o combóio da Europa e, se possível, que não fosse na última carruagem.
O ponto crucial, para o qual as pessoas neste país estão ainda pouco consciencializadas, não é, contudo, apenas a amplitude das mudanças requeridas e que têm vindo a ocorrer ao longo da última geração, mas o facto de elas significarem uma mudança completa na direcção da evolução das nossas ideias e ordem social.
Nas duas décadas passadas, foi claro que nos vínhamos progressivamente a afastar dos ideais fundamentais que orientaram e foram pilares para a fundação de uma sociedade europeia de pleno direito. Que este movimento, ao qual aderimos com tão grandes esperanças e ambições, nos tenha posto face a face com uma globalização implacável, que não se compadece com fraquezas de um país sem estruturas nem riqueza produtiva à altura dos seus parceiros europeus, bem como do choque enorme para esta geração, que ainda se recusa a aceitar e compreender esses factos.
Não pode haver qualquer dúvida de que as promessas em torno de maior liberdade se veio a constatar ser uma das mais eficazes armas de propaganda, partindo-se do princípio que essa ideia seria genuína e sincera. O que se veio a descobrir, foi que o que nos foi prometido como o caminho para uma maior liberdade e igualdade, seria na verdade transformado no caminho para a dependência.
A ganância de uns tantos, a acrescentar a todos estes factores têm conduzido o país a uma rotura com os princípios da honorabilidade e respeito entre iguais, obrigando-nos a abdicar da liberdade de ideais, hipotecando um futuro, onde a falta de objectivos consistentes e realistas às nossas necessidades, conduzem e precipitam as grandes decisões por questões meramente economicistas, como a liberdade das questões económicas, sem a qual a nossa liberdade política e pessoal nunca teriam sido possíveis no passado.
Nenhuma pessoa sensata duvidaria de que as regras impostas nas quais foram expressos os princípios da economia política europeia, eram ainda um começo num processo extenso e doloroso que iria desnudar as débeis economias dos países do sul.
Surpresa foi o desmoronar dos conceitos que suportaram e estiveram na base do carrossel financeiro instituído, onde o Estado se obrigaria a várias tarefas óbvias, tais como a forma de lidar e controlar o sistema monetário, e o impedimento ou controle de monopólios, o qual ao primeiro balanço cedeu, provocando uma crise de credibilidade de todo o sistema financeiro.
A pergunta que se faz agora, não é como vamos enfrentar a crise e responder às necessidades de um país financeiramente em ruínas, a questão é até onde a resistência e a tolerância vão aguentar, sabendo-se que ao país, mais uma vez, vai ser pedido um esforço sobre-humano, mas que como já estamos habituados, para não variar, vão ser sempre os mesmos a pagar.

João Carlos Soares

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A Arca de Noé - Adaptada




Um dia, o Senhor chamou Noé que morava em Portugal, e ordenou-lhe: "Dentro de 6 meses, farei chover ininterruptamente durante 40 dias e 40 noites, até que Portugal seja coberto pelas águas. Os maus serão destruídos, mas quero salvar os justos, sendo que, e para que tal aconteça, necessite preservar um casal de cada espécie animal.

Por essa razão, vai Noé e constrói uma arca de madeira."
Na devida altura, os trovões deram o aviso e os relâmpagos fizeram-se sentir no céu. Noé chorava, ajoelhado no quintal da sua casa, quando a voz do Senhor se fez ouvir furiosa, entre as nuvens: "Afinal, onde está a arca, Noé?"
"Perdoe-me, Senhor, suplicou o homem. Fiz o que pude, mas encontrei uma quantidade infinita de dificuldades e burocracia: Primeiro tentei obter uma licença da Câmara, mas para isto, além das taxas elevadíssimas para obter o alvará, a burocracia e os requisitos técnicos de projecto pareciam não ter fim. Precisando de dinheiro, fui aos bancos e não consegui o empréstimo necessário, mesmo aceitando as taxas de juros que nos ficam pela hora da morte. Os bombeiros exigiram-me um plano de segurança e um sistema de prevenção de incêndios o mais sofisticado, mas consegui contornar essa situação, subornando um funcionário influente para o efeito."
E Noé nos seus lamentos prosseguiu: "Começaram então os problemas com os ambientalistas para a extracção da madeira. Eu ainda fui dizendo que eram ordens Suas, mas eles só queriam saber se eu tinha um Projecto de Reflorestação para o local e um tal de Plano de Manutenção , Limpeza e Defesa da Floresta contra Incêndios. Entretanto eles descobriram também uns casais de animais que eu já vinha guardando no meu quintal. Além da multa pesada que me aplicaram, o Dr. Juíz ameaçou-me com prisão preventiva ou sujeito a residência fixa e eu para cumprir os Seus desígnios, acabei por subornar um alto signatário bem colocado, sabendo de antemão que a lei para este tipo de crime sempre é mais tolerante e branda."
"Quando fiquei em condições de dar início à obra, apareceu a Ordem dos Engenheiros e a ASAE que me multaram porque eu não tinha um engenheiro naval responsável pela construção. Depois apareceu uma empresa bem instalada no sistema, exigindo que eu a contratasse garantindo no mínimo emprego para 10 anos e uns cobres por fora. De seguida apareceram-me as Finanças, argumentando que eu apresentava a existência de nítidos sinais exteriores de riqueza, e não foram com meias medidas e multaram-me, aplicando-me coimas atrás de coimas.”
"Finalmente, quando a Secretaria de Estado do Ambiente pediu o Relatório de Impacto Ambiental sobre a zona que iria ser inundada pelo Seu projecto, mostrei-lhes o mapa de Portugal.

Bem, se as coisas até aqui só tinham sido complicação atrás de complicação, agora a coisa agravou-se e de que maneira. Quiseram-me internar num hospital psiquiátrico!- sorte a minha que à data o Júlio de Matos já estava encerrado e os Serviços de Psiquiatria estavam em greve, contra as medidas governamentais do novo código de trabalho.”
Terminando o seu relato ao Senhor, Noé chorando reparou que o céu clareava e perguntou assustado temendo pelas represálias : "Senhor, então não vais mais destruir Portugal? "Não! - respondeu a Voz do Senhor entre as nuvens - pelo que ouvi da tua boca, Noé, cheguei tarde! Alguém aí em baixo já se encarregou de fazer isso por mim!

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

Os Poderes Ocultos


Democracia sem a participação efectiva de cidadãos na vida do país, não é democracia. Na nossa democracia, optou-se e definiu-se que essa participação fosse exercida através dos partidos políticos. O que não se avaliou, foi se teriam igualmente sido definidas regras estritas sobre o conceito democrático interno nos partidos, por forma a garantir a livre participação no combate de ideias concretas, onde os interesses e o bem estar dos cidadãos estejam sempre em primeiro lugar.
Não podemos, nem devemos sustentar a promoção pessoal de quem quer que seja, nem deixar passar tentativas de branqueamento da História.
Os partidos políticos, têm-se vindo a transformar em autênticos aparelhos burocráticos fechados que contribuem para o esvaziamento da participação dos cidadãos, permitindo a ascensão das elites e o endeusamento de figuras cujo desempenho e transparência deixam muito a desejar, mas que não são mais que funcionários políticos às ordens de forças ocultas que dividem entre si a liderança do poder político.
Prova disso, a ascensão de António Guterres a Secretário Geral do PS, que identificando-se como discípulo de Zenha, teve que abandonar as suas teses moralistas, convertendo-se à doutrina Soarista, definindo de forma incontornável no futuro do PS a opção de lideranças, onde a consciência moral deram lugar à proeminência da sucessão absolutista, que temos vindo a assistir nas últimas décadas.
O poder dos tribunais, nunca por nunca perdoará e estará atento ao passado do políticos, tal como o fez em tempos idos, se nos recordarmos o que se passou com o caso do “fax de Macau”, e como os ciclos se repetem, estamos neste momento no ponto exacto de viragem, onde estes não hesitarão um minuto para colocarem em causa a figura e credibilidade da classe política, impondo-se como um Estado dentro doutro Estado, onde as dúvidas e a instabilidade constitucional será implantada e posta em causa.
A Europa transformou-se numa amálgama de culturas e conflitos, numa visão ocidental da sociedade, onde nunca conseguiu apresentar e consolidar um modelo perfeito de democracia, a qual garantisse igualdade, educação, saúde, trabalho e justiça aos seus cidadãos, com base numa consistente e considerável evolução do conceito de respeito pelos direitos humanos e ambientais.
Para o comum dos mortais, torna-se cada vez mais difícil discernir quem fala verdade, e quem pretende dividir para reinar. Chega ao conhecimento público a mais diversa informação, oriunda das mais diversas fontes, permitindo que a confusão e descrença se instalem no raciocínio de cada um.
Aparecem os jornais, e cá vai uma série de denúncias, desconfianças e afirmações a colocar em causa o comportamento moral dos nossos governantes. Os nossos governantes recorrem-se desses mesmos meios de comunicação e cá vai mais um arremesso de esclarecimentos que em vez de clarificarem, põem a nu e cru a fragilidade do nosso sistema, onde a promiscuidade leviana das elites instaladas é mais por demais denunciadora que andam a jogar com a vida e o futuro dos cidadãos a troco de influências e lucros pessoais, no maior desrespeito e desconsideração por quem não passa de simples joguetes nas suas mãos.
Quem tinha o direito de superiormente se opor e colocar na defesa dos nossos direitos, a Procuradoria Geral da República, remete contradições atrás de contradições, conforme vais sendo confrontada com provas públicas, que desacreditam anteriores afirmações da PGR.
Então no final de contas em que ficamos?
Se não podemos acreditar na justiça deste País, se não podemos acreditar nos nossos governantes, senão podemos acreditar nos meios de comunicação social, senão podemos acreditar naquilo que os nossos olhos vêm, então perguntamos;
Em quem deveremos acreditar?
Seria bom que nos lembrássemos o exemplo da nossa Revolução de Abril, a qual recolheu praticamente de todas as forças democráticas internacionais os mais elevados elogios, não permitindo que esta geração venha a ser recordada no futuro, exactamente pelos motivos contrários que nos projectaram e fomos invejados nessa década dourada, onde fomos exemplo na defesa e consolidação de valores e sentimentos de grandeza ética e moral inquestionáveis.


João Carlos Soares

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Sustentabilidade moral em democracia


A sustentabilidade moral nos regimes democráticos, assenta nos partidos como garante do sistema, contudo, deverão facilitar e disponibilizar o acesso à informação completa e rigorosa por parte dos cidadãos na actividade política, fundamentada por regras claras e precisas, onde as competências e a transparência dos actos deverão representar e espelhar, objectivamente, os desígnios das instituições na comunidade sem qualquer tipo de dúvidas ou suspeitas.
A hipocrisia e o tráfico de influências, que parecem caracterizar a actividade política nos tempos que correm, não nos apanha desprevenidos nem nos surpreende, tal a forma desiludida e de descrédito como, cada vez mais, os eleitores olham para a actividade político-partidária.
A falta de transparência, as negociatas encapotadas de interesses instalados e a forma como alguns parasitas passam a vida a apregoar aos quatro ventos que estão na política à custa de sacrifícios pessoais, revelam quão subtis são os meios utilizados, permitindo o compadrio e o tráfico de influências no dia a dia da política e dos políticos por nós eleitos, com quem nos identificámos, e em quem acreditámos e depositámos confiança.
Em Portugal, também pela negativa, a forma indigente e enevoada pela opacidade do próprio sistema político-partidário, adaptado ao longo de três décadas, na base de alternância dos dois partidos mais representativos, somente agora e de forma envergonhada, começa a estar disponível para se discutir o tráfico de influências e a transparência nas instituições. Desta forma se tenta evitar o perigo da corrosão na credibilidade sentida das instituições e seus representantes, que se evidencia de forma galopante e sintomática pela descrença popular que se começa a instalar, pautando-se em certa medida, pela ausência nos processos eleitorais.
As notícias com que somos confrontados diariamente pelos OCS, onde a consciência moral dos protagonistas os coloca em permanente risco e sobressalto, mostram a precariedade como foi forjado aquela que viria a ser a espinha dorsal do nosso regime democrático.
Como diz o ditado, ”vamos esperar para ver”, mas pela forma como estamos a assistir ao desenrolar de mais um episódio da nossa democracia, temo que uma vez mais a consciência moral do Estado seja congelada, o que poderá ser um mau sinal para a nossa democracia, à qual muito dificilmente se poderá prever um futuro promissor se o passado não ficar completamente esclarecido e liberto de bodes expiatórios, onde o triunfo de alguns se continuará a fazer à custa e sacrifício dos mais desfavorecidos, o Povo.



Clip TVI - sobre acusações no caso Freeport



João Carlos Soares

terça-feira, janeiro 27, 2009

Eficácia e defeitos da ética na política


Haverá compatibilidade entre a ética e a política?

Será que fazendo a ética parte integrante da política, esta manterá a eficácia na defesa dos interesses colectivos?

Será devaneio puro reivindicar que a política contemple os valores éticos, como condição indispensável para a sua credibilidade?

Pergunto-me e arrisco-me a não ter resposta fácil para este binómio, ética e política, tal a complexidade de conceitos que me proponho analisar, sabendo-se que muita gente os considera como o azeite e a água, pois não se misturam. Contudo, assumir e professar essa atitude, é o mesmo que admitir a incompatibilidade da moral aos políticos, reconhecendo, sem reservas, que tudo vale a pena para se atingirem os fins pretendidos.

Para algumas pessoas, esta será uma falsa questão, contudo, a realidade política actual, tem vindo a confirmar uma avaliação moral negativa à classe política, comprometendo-os com todo o tipo de actos de consciência reprováveis que só os desconsideram e penalizam, não podendo simplesmente tornar-se público e ficar circunscrito a um “mea culpa” na consciência dos prevaricadores.

Sendo a moral um dos predicados e uma exigência na sociedade, inevitavelmente aos políticos se exigirá, na base do seu desempenho, comportamento e entendimento compatíveis com valores de consciência essenciais para o aumento de legitimidade no desempenho das suas funções.

A vida social privada dos políticos, confronta-os e coloca-os na atenção dos seus eleitores, aprisionando-os de certa maneira de forma ameaçadora e subjectiva, perante a sua eficácia e defeitos, enfatizando a esperança de mutação e contribuição para a moralização dos indivíduos na transformação social da sociedade.

Não podemos considerar a política e a moral como uma relação unívoca. Embora com características diferentes, torna-se necessária uma relação recíproca que não anule as características particulares de cada uma. Portanto, nem a renúncia à política em nome da moral; nem a rejeição absoluta, pura e simples da política.

Considerando-se a ética uma questão prática que ultrapassa a política, torna-se interessante como se exige ética na política, quando, muitas vezes, na vida privada procedemos de forma contraditória. Aliás, alguns casos considerados políticos, onde se exige ética, afinal de contas não passam de casos de polícia, devendo exigir-se a intervenção da autoridade policial, porque na realidade do que se trata são de casos de corrupção e não de falta de ética.

Esta relação directa de conceitos, na realidade está a contribuir para confundir e fazer passar uma pela outra, pois não podemos confundir a existência de moral nos partidos, quando o que na realidade existe, são códigos de ética e nada mais.

Não podemos confundir costumes com modos de ser. Enquanto a maneira de ser é a forma de comportamento moral dos homens em sociedade, os costumes referem-se e estão directamente relacionados com um conjunto de normas aceites pelo homem de forma livre e consciente, que disciplinam o seu comportamento individual.

A moral e a ética concorrem em patamares diferentes, mas materializam em concreto a regulamentação das relações entre os indivíduos e a comunidade, contribuindo assim para a estabilidade na ordem social.

A moral resulta da acção do homem enquanto ser social e prudente nos diversos patamares da evolução da humanidade, enquanto a ética acompanhando esse mesmo desenvolvimento, tem as suas origens em factos concretos, tendo, como particularidade, a existência de moral.Logo, se de um lado se exige ética enquanto componente da política onde a moralização se torna essencial e imprescindível, por outro, a consciência e o comportamento relacionado do indivíduo, choca e gera conflitos entre interesses de grupos opostos, potencializando ainda mais o choque com os imperativos morais do indivíduo, mostrando o quanto os interesses colectivos se sobrepõem à defesa do bem comum.


João Carlos Soares

terça-feira, janeiro 06, 2009

Reflexões sobre a Corrupção


Mutações e deturpação dos princípios de ética sob os quais se regem no seu desempenho as instituições que deveriam ser o garante e suporte nas democracias, tal como o acréscimo de casos de corrupção latentes na administração pública, e, mesmo a nível dos órgãos representativos do Estado, configuram-se como a causa e a razão para o declínio dos níveis de confiança na percepção e avaliação dos cidadãos, face ao desempenho dos partidos políticos na nossa Democracia.

Entendendo-se e analisando-se na óptica do comum dos mortais, este profundo mal-estar, resultante em parte, na forma e nos processos de decisão de quem nos governa, o distanciamento e a falta de renovação dos partidos com os seus militantes e simpatizantes, a forma autista como são encarados os graves problemas dos cidadãos, a miscelânea pouco clara e promíscua em que neste momento se fundem na relação da gestão público/privado, não salvaguardando de forma incondicional o interesse público, precipitam medos e frustrações nos cidadãos de forma mais intensa do que as suas esperanças e optimismo fariam prever.

A corrupção é uma prática ou comportamento, onde, aos valores de ética, se sobrepõem os interesses privados, valores esquecidos ou subalternizados no exercício das suas funções, para os titulares de cargos, sejam eles públicos ou privados.

Como tal, este tipo de comportamento viola e ultrapassa a fronteira do aceitável, defraudando as expectativas dos cidadãos, transformando-se numa conveniência, onde ninguém parece querer admitir, assumir, ou tomar decisões contra o seu próprio interesse.

Todo este naufrágio, resultado do vazio provocado no seio dos partidos pela ausência de ideologia, conceitos e ideias, estratégias auto sustentadas, incapacidade política, onde a capitulação dos líderes se sucedem em catadupa, a menos que se vislumbre estabilidade e capacidade dirigente confiável.

Por um lado não podemos esquecer, porque seria má fé, iniciativas levadas a cabo por algumas figuras de relevo nacional, como João Cravinho e outros, partidários do combate à corrupção, assumindo-a como uma prioridade política inequívoca à luta anti-corrupção, não só liderando um movimento com peso crítico substanciado, mas apresentando igualmente planos e iniciativas legislativas, visando a prevenção e combate a esse flagelo. Pena, que a maioria dos partidos, e os seus dirigentes, que a todos nós deveriam representar e proteger, se desinteressassem de tal missão, mostrando inequivocamente falta de coragem e pouco à vontade que sentem, em discutir e regular sobre esta matéria.

Enquanto os partidos não definirem as suas próprias linhas de orientação estratégica internas, para a forma, atitude e transparência como pretendem cultivar na formação dos seus quadros políticos os valores de ética dirigente, sem as quais não conseguirão uma cumplicidade e participação activa da sociedade civil, factor primordial e indispensável de transparência e de responsabilidade social.

A satisfação dos portugueses em relação às estruturas e instituições representativas, está cada vez mais hipotecada, sendo a mesma confiança proporcional ao desempenho da classe política em dar ou não resposta à forma de solucionar as necessidades dos mais desfavorecidos e, à capacidade em ultrapassar as deficiências do nosso sistema político.

A ausência de participação, cada vez maior, dos portugueses na actividade política, é um sinal preocupante de debilidade na sociedade civil, diminuindo e dificultando o enriquecimento dos partidos e instituições políticas, com a massa crítica indispensável e necessária ao fortalecimento da nossa Democracia.

A ausência de pressão da sociedade civil organizada, faz com que a classe política e as instituições que representam, se exponham e sejam cada vez mais vulneráveis aos interesses corporativos, criando as condições ideais e propícias à corrupção.


João Carlos Soares

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Castelos de cartas

Conhecidos como um povo de brandos costumes, começamos a padecer dos mesmos problemas.

O Homem tem desde o início da sua existência, uma máxima que diz: “ podem enganar muitos durante algum tempo, mas não todos durante toda a vida”.

Isto vem ao caso do desastre resultante do cair da máscara de um sem número de teorias económicas que têm contribuído única e exclusivamente para benefício dos poderosos, e posto a descoberto intenções pouco éticas e de uma injustiça moral e social, de que não temos memória.
Os cidadãos um pouco mais atentos, não têm quaisquer dúvidas, se alguma vez as tiveram, sobre as injustiças sociais, que, embora tenhamos conhecimento hoje, da existência de algumas ténues tentativas de as fazer sair do segredo dos deuses, de uma forma descarada, tiveram a sua origem e foram provocadas exactamente pela falta ou ausência no combate à corrupção.

Na política e nos partidos, a contradição é cada vez maior no que concerne aos objectivos, às intenções e razão da sua existência. A ambição torna-se fundamental e fixa-se única e exclusivamente na ascensão e padrões do poder, no intuito de poderem mandar e tornarem-se poderosos a nível material, em detrimento de conceitos e ideias, tornando-se cada vez menos credíveis e criando a desilusão e descontentamento nas populações.

Os embustes em que caíram aqueles que acreditaram nesse tipo de propaganda, alienados por modelos de consumo desenfreado e rentabilidade incomensurável, tornam mais evidentes os paradigmas de realidades tidas como verdades até um passado recente, tornando os pobres ainda mais pobres e os ricos aumentando o seu pecúlio, prosperando à custa da especulação, da corrupção desenfreada e permitida, e do tráfico de influências que manipulam a seu belo prazer.

Nos últimos dias não param as notícias sobre escândalos, parecendo que se avizinha um colapso institucional, tal é a forma e a intensidade como se vão desmascarando os disfarces em que os seus autores se têm escudado, figuras de proa identificados com as mais diversas instituições.
Este País vai sendo destroçado por mafiosos, e em cada dia que passa, mais um caso de corrupção chega ao conhecimento público, mas os seus autores já estão bem arrumadinhos com as contas e bens a salvo.

O PSD pela voz de Manuela Ferreira Leite, vem dizer que a crise é grave, e que deveria haver contenção nos valores do aumento salarial a atribuir aos trabalhadores com ordenado mínimo, 24 euros, provando a palhaçada em que se encontra neste momento o maior partido da oposição, quando evita pronunciar-se sobre a corrupção e muito em especial a corrupção da Banca. Porque será?

Quantos altos ex-dirigentes de diversos partidos, os quais tiveram responsabilidades governamentais, aparecem ou estiveram no BPN e no BPP?

Será que tudo isto vai ficar impune?

Até a estratégia institucional do actual Presidente da República e José Sócrates caminha para o colapso, não disfarçando o mal estar nas relações entre os dois mais distintos altos cargos da Nação.

Este ciclo tenebroso, teve o seu prelúdio com a queda abrupta das bolsas e a subida descontrolada e inflaccionada dos combustíveis, não sabendo como vai ser o final previsto para este filme tenebroso em que nos meteram, não querem assumir, nem pretendem responsabilizar, tal a conivência com os culpados envolvidos e que tenho sérias dúvidas venham a ser julgados.

De uma coisa podemos tirar as nossas conclusões, não restam dúvidas sobre a não existência de intrigas, maledicência perpetrada na calada da noite com fins obscuros de destruir pessoas bem colocadas.

Contudo, subsistindo ainda tantas dúvidas e desconfianças quanto ao futuro, acredito que os Portugueses têm a fibra e a coragem para trilhar um caminho sinuoso e traiçoeiro, para que, finalmente, à luz da justiça possa prevalecer a verdade.


Joao Carlos Soares

terça-feira, dezembro 23, 2008

Tolos, Burros?.... mas que falta de Vergonha.


Realmente devemos ser todos tolos, ou então querem-nos fazer passar por parvos, resumindo-se a inteligência deste povo, versus esperteza, aos ilustres mafiosos conotados e autorizados por quem manda neste país, que e de uma forma desavergonhada, pura e simplesmente roubam as poupanças dos que trabalham por estas bandas, gerindo o sistema bancário de uma forma leviana e kafkiana.

Há mais de vinte anos, têm vindo a ser transferidas e dizimadas as reservas do Estado acumuladas ao longo de 40 anos, durante a opressão fascista, para as contas bancárias das elites instaladas, criando-se fortunas incalculáveis, de uma série de famílias privilegiadas pelo sistema capitalista defendido Governo após Governo, pedindo-se sistematicamente ao povo, às massas produtivas deste país, sacrifícios atrás de sacrifícios.

Sempre que se colocam à discussão os orçamentos de estado, a situação apresenta-se geralmente, para não variar, deficitária para se poder sequer pensar vir a contemplar compensações remuneratórias nos ordenados, confinando-se míseras percentagens nos aumentos salariais respectivos, justificando-se tal facto, pela razão de dificuldades e equilíbrios de gestão financeira do estado, que ninguém entende, enquanto uma série de ilustres crânios se apressam a ludibriar publicamente os incautos cidadãos, com números que não fazem sentido, nem correspondem na realidade à verdade dos factos.

Obrigam-nos a viver num sistema virtual, onde esgotados o maná de cifrões oriundos anos após anos dos fundos comunitários resultantes da nossa integração na Comunidade Europeia, pouco mais fizeram a este país que não fosse encher os bolsos dos que sempre estiveram ao comando e na decisão da atribuição desses fundos, porque todos os investimentos suportados pelos quadros comunitários, mais tarde ou mais cedo apresentam-nos a factura do seu pagamento, com aumentos ou aparecimento de novos impostos.

Não se consegue entender porque razão, sabendo o governo português e estando na posse de informação concludente dos diversos desvios e fraudes recentemente a descoberto no sistema bancário Português, não tenha ainda tomada a decisão mais importante contra a fuga de capitais dos prevaricadores, congelando-lhes de imediato todas as suas contas e bens. Só assim prestariam um serviço inestimável e credível aos portugueses, que se vêem mais uma vez enganados e ludibriados pelos barões que vieram substituir no regime democrático, o papel dos caciques do regime salazarista.

Anda-se a discutir migalhas, não havendo dinheiro, quando a discussão é em torno dos salários e das reformas, mas quando se trata de fazer face ao desmando que actualmente existe no sistema bancário, fica no ar a pergunta:

De onde, afinal de contas, aparece todo este dinheiro injectado pelo Governo nos diversos bancos ?

Se não há condições económicas para dar alguma saúde aos ordenados dos trabalhadores portugueses, porque será que essas mesmas condições não se fazem sentir para encher e salvaguardar os bolsos da classe rica deste país?

Não somos tolos, não somos burros nem estamos disponíveis para tolerar mais tanta falta de vergonha.

É preciso começar a fazer-se sentir a revolta dos portugueses perante esta pouca vergonha, não permitindo e tomando posições públicas de desagrado para com esta atitude e postura dos nossos representantes, confrontando-os com a verdade dos factos, e alertando-os que a paciência tem limites.

Um regime democrático, não pode só por si ser chamado de livre, quando as trafulhices começam a proliferar e ser toleradas na nossa sociedade, as desigualdades acentuam-se carregando e exigindo aos mais desfavorecidos sacrifícios, enquanto os nossos representantes parecem e estão mais empenhados em salvarem-se politicamente a si próprios, do que a tudo fazerem ao seu alcance para criar as condições de vida a que todo o cidadão num sistema democrático deve ter direito.

O livre sistema partidário, suporte indispensável nos regimes democráticos, há muito se tem vindo definhando, encontrando-se fortemente debilitado e à beira da ausência e falência idelógica, resultante da ganância pelo poder.

Com tanta inteligência crítica que nos apresentam diariamente nos órgãos de comunicação, pergunto-me onde estavam, enquanto os vigaristas do sistema perpetraram todo este logro financeiro?

Os termos técnicos que apresentam, são todos cheios de malabarismos tal qual espectador no circo, que de boca aberta, se surpreende número atrás de número , só que os efeitos deste circo em que nos têm envolvido, acarreta nas nossas vidas consequências devastadoras.


João Carlos Soares

sábado, dezembro 20, 2008

Catástrofe Financeira Mundial


Os desafios e as consequências do capitalismo

Com a consolidação da União Europeia e o crescimento de alguns mercados emergentes a ter um papel importantíssimo no desenvolvimento e sustentabilidade dos mercados bolsistas mundiais, houve quem considerasse que o espectro do fantasma capitalista Norte Americano tivesse deixado de ter a importância que até há bem pouco tempo exercia na economia global.

Pura ilusão, pois a catástrofe económica emergente no sector habitacional dos Estados Unidos, tomou proporções jamais imaginadas, difundindo-se a todos os mercados sem excepção.

Como referiu Hugo Chávez, esta catástrofe do sistema financeiro internacional, só pode ter comparação ao poder de uma centena de furacões, tal a profundidade e o efeito devastador global em toda a economia mundial.

Esta crise começou a assumir proporções assustadoras, quando os mercados de acções asiáticos e europeus se apresentaram em queda abrupta e sistemática, com perdas consideráveis, situação que após alguns dias se percebeu não ser passageira mas contagiada pela instabilidade da crise financeira Norte Americana.

A corrida em Outubro do Congresso dos Estados Unidos para o apoio aos bancos, por forma a salvarem da falência eminente esses mesmos bancos, e ao mesmo tempo não permitirem a auto-destruição de todo o sistema económico americano, foram o facto determinante e prova de que o sistema capitalista mais uma vez tinha fracassado.

Da mesma forma que os americanos financiaram as instituições bancárias, numa tentativa de contenção à corrida aos bancos, levou os governos Europeus a avançar com estratégias de financiamento às instituições apanhadas neste colapso.

Perante este quadro, conclui-se a vulnerabilidade cíclica do sistema capitalista, onde a falta ou ausência de uma regulamentação efectiva contribuíram e facilitaram o descalabro nos mercados financeiros.

A evidência destes factores são claros no mercado habitacional, onde as casas se vão amontoando nas agências imobiliárias sem compradores, as empresas sem saída e saturação no mercado dos seus produtos, confrontadas com a queda da taxa de lucro, são obrigadas a redução dos salários e a despedimentos e subsequente encerramento, aumentando e contribuindo para um cada vez maior desequilíbrio e instabilidade social.

Um sistema como o capitalista, apodrecido e tendente às crise sistemáticas, com o único objectivo de obtenção de lucros, sem preocupação de atender a necessidades humanas específicas, só poderá contribuir para o empobrecimento das classes menos favorecidas, concorrendo inevitavelmente para uma calamidade, que, se não evitada a tempo, poderá levar a uma catástrofe absurda de milhares de lares arrestados pelas instituições bancárias, aumentando o já elevado número de famílias sem tecto, a fome e o aumento da criminalidade.


João Carlos Soares