Domingo, Janeiro 24, 2010

É PRECISO MUDAR


A corrupção dos políticos é de entre outras, o tipo de corrupção mais próxima do conhecimento público. Contudo, a corrupção dos políticos, não se inicia, nem termina na sua denúncia e “afastamento”, retirando-lhe oficialmente o acesso directo às comissões públicas, ao poder para tirar vantagens próprias, para enriquecimento pessoal, ou de favorecimentos de determinados grupos ou elites, transformando-se e dando origem a uma doença com níveis preocupantes.

Existe um outro tipo de corrupção instalado na política, com ramificações e tentáculos muito mais difíceis de detectar e sanar, do qual ninguém fala, a qual se propaga e instala no sistema político.

Não estamos a falar de privar ao bem público os seus direitos, mas diante de influências questionáveis tomarem-se decisões em proveito de grupos instalados e não com vista ao que deveria ser do interesse para a resolução dos problemas que o País enferma. Trata-se pois, de um sistema corrompido por influências para favorecer determinadas facções elitistas da sociedade, em vez de nos representar para criar melhores condições de vida a todos nós.

Não estamos a falar só de procedimentos ilegais, agora nas primeiras páginas do tablóide nacional e que daí não passa, mas também de dar provimento a decisões, algumas até certo ponto sem lógica aparente, por vezes com algum grau de estupidez e mesmo contraproducentes numa democracia participativa que se exige.

É pelo contrário a destruição e adulteração de um sonho que não deixaram evoluir, que já não nos representa e que está a ser construído para não funcionar.

O estado calamitoso incrementado pelas franjas da governança instituída que teimamos em permitir, consentido com o nosso voto o acesso aos órgãos de poder de gente sem um mínimo de clarividência de ideias nem experiência de vida, os quais se desconhece ou nunca deram algum contributo cívico para o merecerem, fazem com que esta doença epidémica atinja foros de pandemia, da qual não se vislumbra fim à vista.

Não é possível atribuir um qualquer certificado de qualidade aos políticos, para os diferenciar, apresentando uns como mais ou menos qualificados que outros para a função. No entanto, para se aceder a patamares de decisão, que vão influenciar e ditar num futuro o desenvolvimento de um país, alimentar a esperança ou não de geração em geração, devemos exigir dos líderes partidários, independentemente dos partidos no poder, uma escolha efectiva de gente que tenha capacidade para governar, decidindo, respeitando e garantindo os direitos dos seus eleitores, não os usando para moeda de troca para negócios de poder, quando deveriam preocupar-se em dedicar algum tempo a arrumar soluções contra a corrupção do sistema político, de que são responsáveis.

Esse compromisso deveria ser assumido pelos líderes deste país, numa postura efectiva de apoio a uma série de medidas que contribuíssem para aumentar eficazmente a transparência nas decisões de estado.

O Estado tem que de uma vez por todas fazer um esforço no sentido de diminuir a influência dos patrocinadores económicos partidários nas decisões fundamentais e estruturais do país, fazendo com que os políticos e as políticas defendam, como grupo de representantes da sociedade, a discussão de ideias para uma solução da crise em que vivemos, melhorando a condição de vida das famílias, e não um bando de vendedores profanos ideológicos, cuja intenção se resume a pensar em votos e a agradar os seus financiadores.

Quer queiram entender, ou não, as alterações a este sistema corrompido têm que ter alguma solução e rápida para a mudança, porque o cinismo como a questão é assumida por alguns e a relação nas possibilidades de mudança, só parecem interessar a quem gosta e lhe interessa continuar a chafurdar na lama em que vive.

O sistema político, além da corrupção que diariamente chega ao conhecimento público, começa a ser de uma ineficácia por vezes surreal, baseado num modelo ultrapassado e nada actual com a realidade e novas necessidades das gerações futuras.

Está na hora de sermos muito mais ambiciosos connosco próprios, começando para já a pensar na necessidade urgente de refundar um sistema político, consertando os problemas que o afligem, onde os políticos malandros não tenham lugar nem hipótese de manter o seu tráfico de influências.

João Carlos Soares

Domingo, Janeiro 03, 2010

Realidade ou futurologia


Vivemos numa era em que o desenvolvimento e as ideologias dominantes fracassaram em definitivo.
Na base do desenvolvimento e crescimento económico têm que estar salvaguardados e consignados no modelo de transformação social a adoptar, fundamentalmente através de uma rigorosa avaliação de projectos, cooperação e solidariedade onde a participação das populações se façam sentir na concepção e execução dos mesmos.
A distribuição de riqueza só será possível, se houver capacidade para fazer crescer a produção e o rendimento das famílias de forma equilibrada e sustentada em índices de rendimento aceitáveis, onde a discussão com os agentes representativos de consertação social seja respeitada.
A complexidade e realidade social são por vezes contraditórias com os objectivos e planos que reflectem única e exclusivamente os interesses e valores de grupos sociais que se encontram em campos diferentes.
As perspectivas dos governos dirigem-se e assumem como objectivos e metas uma verdade de desenvolvimento baseada exclusivamente no progresso técnico, de forma inquestionável, supostamente como paradigma das leis da evolução natural das sociedades modernas.
Na realidade, o que se passa, é um especulativo crescendo bolsista, que no interesse de alguns é utilizado como indicador de progresso, mas que na realidade o que acontece e se mascara, é uma produção que não cresce, porque não se sabe o que produzir nem o destino para essa produção e o que cresce é a ambição dos ricos se tornarem cada vez mais poderosos.
Vemos a discussão política acontecer em torno de estimativas que não são mais que extrapolações feitas na base das taxas de juro aplicadas pelo Banco Europeu e suas oscilações constantes, que são o espelho e evidenciam o carácter altamente equivocado e perverso dos grandes reguladores da economia mundial.
Entrámos na via da futurologia, quando a nossa maior preocupação deveria ser tentarmos obter uma visão consistente e real que melhor se pudesse adaptar às grandes e necessárias decisões no presente, concebendo e explorando futuros alternativos, mesmo que para isso tenhamos que aceitar a existência de certas condições, consideradas como partes do nosso futuro provável e desejável.
A insegurança e as incertezas, provocam um pesadelo cheio de contradições no nosso dia-a-dia, perante os desafios e os problemas aparentemente insolúveis por eles criados, fazendo com que o cidadão comum viva num caos de identidade, onde a perda de confiança nessa sociedade se faz sentir através da falta de credibilidade nos outros, no governo e na própria sociedade da qual são parte integrante.
Por fim, fica no ar uma simples mas inquieta questão:
Afinal, para onde caminhamos?

João Soares

Quinta-feira, Dezembro 24, 2009

A Verdade da Crise


Governar não é fácil e não se pode resumir ou permitir a um mero acto de resolver e atacar os problemas na forma simples do aqui e agora. Sem uma visão abrangente, clara, lúcida e perspicaz do que nos espera num futuro próximo, poderá conduzir, aquilo que à partida significaria uma esperança para muitos, a um fracasso a evitar a todo o custo, transformando-se num enorme obstáculo de solução impossível, em muitas situações de difícil superação.

As crises podem e devem ser obrigatoriamente enfrentadas com uma visão alargada e nunca reduzindo ou limitando essa visão e acção a uma atitude ou processos e medidas redutoras e defensoras de proteccionismos duvidosos, ignorando-se a possibilidade e oportunidade de implementação de reformas e modernização do País.

É verdade que qualquer mudança estrutural provocada pela acção de reformas do estado, encontram naqueles que directamente vão sofrer as suas consequências, os primeiros detractores dessas medidas. Nesse sentido, somente com um intenso trabalho junto da opinião pública, através do debate, se consegue remover esses obstáculos.

A transparência, ideia tão defendida e exigida nos meios políticos, nunca terá sido tão necessária quanto agora, pois toda a capacidade de vencer uma crise ou de abreviar e condicionar a sua duração, dependerá em grande parte do apoio que os governantes receberem de quem os elegeu e neles confiou, porque a esses é que serão exigidos todos os sacrifícios.

Muitas ilações se poderão retirar da crise que nos assola, havendo, por certo, quem simplesmente a impute a deslizes do sistema financeiro ou de mercado perante a globalização, com a sua incapacidade de auto-regulação.

Contudo, perante uma forma mais abrangente e visionista, há quem preveja nesta crise um móbil para o aparecimento de uma nova ordem internacional, renascida dos escombros do capitalismo, quase que por ironia do destino, provocado exactamente por causas a ele congénitas.

A grande dúvida e preocupação, advém precisamente da grande incógnita que essa nova ordem representará num contexto de globalização, como aquele a que estamos a assistir.

O enorme colapso a que a economia internacional tem estado sujeita, ainda não tem um fim à vista, nem existem esperanças de que, num curto espaço de tempo, se encontre uma solução que ponha cobro e resolva os desequilíbrios, face ao renascer de novas preocupações, resultante de avanços e retrocessos na economia das potências reguladoras de mercado europeu, como a França, Alemanha e Inglaterra, para não falar na economia Norte Americana.

A preocupação imediata dos responsáveis, deverá ser orientada no sentido de uma aprendizagem com base nas lições do passado presente, abrindo as portas para o futuro, sem perder de vista que o primeiro e único objectivo, deverá ser o da criação de condições de sustentabilidade para a concretização das potencialidades da sociedade em geral.

A qualidade política dos governantes mede-se com base nas sua capacidade de decisão. Oscilar e refrear uma decisão, pode-se considerar um defeito tão grave quanto escolher o caminho errado. Não abordar os problemas de frente ou adiar a sua resolução, pode conduzir e precipitar o país para um desastre de consequências irremediáveis.

Subestimar esta crise e o seu impacto na nossa economia, por fanfarronice partidária ou angariação de popularidade, podem colocar em causa a verdade no combate à crise, comprometendo irremediavelmente qualquer solução e eficácia.


João Soares

Domingo, Dezembro 06, 2009

Preocupações


Perante os factos de corrupção chegados ao conhecimento público, como poderemos fazer prevalecer a vontade popular, para que efectivamente possamos fiscalizar a administração pública, pondo termo de uma forma efectiva aos flagrantes casos que são denunciados e chegam ao nosso conhecimento?
A necessidade que os partidos têm para fazer frente e custear toda uma máquina de propaganda eleitoral demasiado pesada, aquando dos processos eleitorais, abrem espaço e criam a oportunidade a gestores e administradores corruptos e incompetentes sem qualquer pudor nem escrúpulos, que se deixam aliciar por poderosos grupos económicos, através de contrapartidas em suportes financeiros volumosos, viciando-se assim o resultado sufragado pelas populações, através de um processo eleitoral próprio de qualquer democracia participativa.
Neste processo corrosivo e perigoso, as instituições que deveriam pugnar para expurgar estas santas alianças, elas próprias se vêm condicionadas e agrilhoadas por uma panóplia de segredos de justiça, com os expedientes só possíveis num sistema onde, a hierarquia de clãs com base político partidária, quase sempre conotadas a esses grupos económicos, procuram perpetuar nos diversos níveis de poder e decisão, uma elite de privilegiados, em proveito próprio.
Sendo os partidos políticos os agentes de um poder democraticamente constituído, disputando a sua manutenção e liderança, tornam-se, nessas disputas, os alvos privilegiados dessas elites, sedentas por manter no poder ligações a executivos que lhes facultem e concedam acessos às grandes negociatas do regime, mesmo que para o efeito tenham que abrir de mão a quantias volumosas e outros favores.
A forma descarada como os lugares de administração desses grupos são preenchidas, quer por quadros de forças partidárias, quer por ex-membros do Governo ou Instituições públicas, levam a que a promiscuidade do tratamento entre o público e o privado, que deveria ser da maior transparência, enverede por caminhos nebulosos e lamacentos, como aqueles a que nos últimos anos temos vindo a assistir.
Perante este cenário de total falta de controle e fraude na máquina administrativa do Estado, as dificuldades com que o acompanhamento da sua gestão é feito, ou lhe é permitido nos diversos órgãos de soberania, será possível alguma vez podermos responsabilizar e fazer pagar a todos esses senhores os prejuízos que causaram à Nação?
A reforma política do Estado exige rapidamente mudanças na forma de gestão da coisa pública, através da necessidade de uma maior avaliação de desempenho dos governos, quer central quer local, na implementação dos orçamentos participativos e movimentos de cidadania, em função das promessas que os partidos fazem quando em campanha eleitoral, em função e defesa do interesse público.
Independentemente dos partidos que estiverem no poder, a opção recai sempre no planeamento e controle centralizado nas tomadas de decisão, em contraponto e oposição às verdadeiras políticas de descentralização e autonomia, quase sempre com a justificação que os conflitos de interesses e de valores podem e devem ser resolvidos pela via da decisão técnica e jurídica.
As dúvidas quanto ao futuro e desenvolvimento sustentável, só poderão deixar de existir na mente de todos nós, quando as organizações, as instituições públicas e os políticos, estiverem comprometidos na defesa da igualdade de valores na sociedade, no cumprimento das suas responsabilidades perante o respeito dos cidadãos, defendendo e apresentando alternativas para as questões que afectam a segurança e bem-estar de todos e em particular dos mais carentes, contribuindo de forma solidária na construção de uma sociedade justa.
João Carlos Soares

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Só não vê quem usa cangalhas


A obstinação de alguns, perante a vontade inequívoca de outros, em proporcionar e disponibilizar capacidades e vontades, faz com que o futuro seja constantemente adiado, influenciando e reinterpretando as escolhas de ontem e de hoje na realidade política actual, esquecendo-se que nem só do passado se faz e constrói o presente, muito menos o futuro.

Torna-se inevitável, de facto, o resgatar da memória e da experiência acumulada de valores que enriquecem o tempo presente, contribuindo para um entendimento, análise e compreensão do passado, na pretérita justificação das escolhas e posturas políticas e pessoais, na realidade actual.

Nesta perspectiva, os actores que contribuem e fundamentam a história, entre eles os políticos como agentes representantes da vontade dos povos, têm como obrigação e dever, compreender o passado sempre presente das organizações e movimentos sociais, aos quais temos as nossas vidas ligadas, fazendo com que as suas opções políticas não fiquem reféns e vinculadas única e exclusivamente à dimensão partidária.

Essa memória expressa a dimensão da vida, mas que tem como actores homens e mulheres de carne e osso, pessoas que também sofrem como qualquer um, sofrem dos mesmos medos e receios, e, tal como ser humanos que são, também têm os seus momentos de alegria e tristeza, sobretudo quando têm consciência e medem a responsabilidade de estar ao serviço de quem neles confia, reflectida numa enorme esperança e, porque não, também utopia.

São essas escolhas que fazem a diferença e explicam nos nossos actos o que somos, ainda que, por vezes, não sejamos reconhecidos no meio de uma amálgama complexa e atribulada, construída por decisões que tomamos e rumos que escolhemos, por vezes influenciados pelas atitudes inconscientes de outros.

Caminhar com memória, sem esconder o passado, compartilhar lembranças e informações sobre a vida, sem receio de olhares e críticas sem fundamento, ajuda-nos a compreender os caminhos a seguir, cujo objectivo tem que ter como único epílogo e prazer, compartilhar experiências pessoais e colectivas, à medida que formos confrontados com novas realidades, algumas das quais, pela sua natureza, seriam absolutamente imprevisíveis.

Acima das memórias do passado, não nos devemos retrair, muito menos acobardar, perante opções e escolhas, aos princípios que nos guiam e proporcionam uma reflexão crítica sobre os caminhos percorridos e a percorrer.

Perante alguns comentários, quanto ao sentido da ética na política, a única resposta que tenho, resume-se ao lamentar dos tempos sombrios que vivemos, onde o descrédito e o desencanto das populações cresce perante a descrença nos partidos políticos e na própria democracia participativa, como protesto de todos aqueles que não se podem conformar com as desigualdades e injustiças, a concentração de riqueza, onde os negócios suspeitos que envolvem milhões e milhões são cada vez mais o pão nosso de cada dia.

A esperança transformada em utopia passados 30 anos, na qual eu confiava, configurava um Estado capaz de repor e manter o equilíbrio numa luta entre classes sociais, receptivo a reformas e garantindo a ordem, a segurança e o bem estar de todos

Nunca é tarde para percebermos que afinal de contas o Estado, face a uma convenção perversa com as elites tradicionais e modernas do sistema, sustentadas e supostamente legitimadas por poderes ocultos, iniciou um processo de opressão aos mais desfavorecidos da sociedade.

Isto, com toda a certeza, eu sei que não é ética nem moralmente recomendável para todos quantos se preocupam com o seu semelhante.

Acredito que algo de novo emerge, onde a participação da maioria dos actores sociais serão indispensáveis para uma transição, onde será possível transformar este cenário actual com dinâmicas sociais, conscientes dos seus direitos e obrigações, conjuntamente com uma capacidade de agirmos colectivamente. O caminho irá ser longo, cheio de obstáculos e contratempos, mas não há nada mais gratificante na vida do que sabermos e termos a consciência plena de onde vimos e para onde queremos ir.

João Carlos Soares

Domingo, Novembro 15, 2009

E assim se passaram 50 anos




Sem a noção do passar dos anos, e quando ainda há pouco tempo, menino e moço vivia a Revolução de Abril com tudo o que ela representava no coração dos jovens da época, que como eu sentiram este momento inesquecível, apercebo-me que cheguei aos 50 anos.
Como quem não quer a coisa, meio século de vivências se passou com alguma turbulência inevitável, outras não tanto assim, mas consciente e cada vez menos optimista quanto ao futuro, sabendo contudo que a partir de agora passarei a descontar os dias, faltando-me o tempo para concretizar projectos de uma vida, mas com uma certeza: Já não tenho pachorra nem tempo para lidar com mediocridade e ignorância gratuita travestida com opções pomposas de gente, como diria alguém a quem politicamente muito devo e que seria bom muito boa gente não esquecer, Aires de Carvalho, os apelidava de “aprendizes de feiticeiro”.
Fico inquieto quando vejo egos extravasando sadismo intelectual polido de verniz a estalar por todos os poros, de invejosos cuja única prioridade que têm na vida é tentar destruir a imagem de todos aqueles que fazem por merecer o nosso respeito e admiração.
Quando somos jovens, sonhamos utopicamente que será possível mudarmos radicalmente o mundo, acordando diariamente de sonhos revolucionários mensageiros de profecias anunciadoras do fim da miséria e das desigualdades.
Agora que a meninice passou a fazer parte de um sonho passado do faz-de-conta, não quero acreditar nem continuar a sonhar que será impossível acabar com uma sociedade com falsidades e ressentimentos, só porque as pessoas estão mais preocupadas em usar os rótulos do que a debater e defender os conteúdos, dando ouvidos a cantos de sereia autoritários, que para nossa infelicidade começam a fazer escola nos corredores da política.
Embora já não acredite em profecias e revoluções, quero e tenho o dever de, continuar a sustentar a esperança de uma sociedade que opte por um caminho de sustentabilidade apoiada na aprendizagem, ao lado de gente que pauta a sua conduta do dia-a-dia com a sabedoria prática da razoabilidade, conhecimento e racionalidade, reconhecendo e auto criticando os seus erros, não se deslumbrando com os triunfos fáceis, defendendo com humildade a vida neste mundo cada vez mais complexo e confuso.
Pertenço a uma esquerda que se pauta pela liberdade de expressão e pela defesa da democracia participativa, mas não me enquadro nem defendo atitudes de autêntica histeria e cegueira ética partidária, que facilmente perde o autocontrole.
Renuncio a qualquer tipo de convívio político com pessoas onde a razoabilidade não impere e a falta de consistência e conteúdos transforma o debate em ressentimentos recalcados dos seus fracassos, esgotando a nossa paciência e comprometendo obviamente as relações pessoais.
Passados que foram precisamente 53 anos, vou-me esforçar e tudo farei para tentar preservar na minha conduta aquilo que considero como virtudes, retocar e tornar os meus defeitos mais leves, polidos e coerentes, por forma a sentir-me melhor de bem com a vida.

João Soares

Quinta-feira, Novembro 12, 2009

ILUSÃO E PERPLEXIDADE




Ao folhearmos as páginas de um jornal, ao fazer zapping com o comando da televisão, confrontamo-nos com um espectáculo nojento protagonizado por uma corja de malfeitores, os quais sempre atentos a uma oportunidade, espreitando os cofres públicos, aprontam os seus golpes, sem que a justiça leve até ao fim a sua função, e os meios à sua disposição possam ter consequências visíveis, fazendo com que a tentação não faça o tentado.


Todos aqueles que quando abordados politicamente respondem prontamente que não querem nada com a política, não percebem, ou não sabem que a sua indiferença ajuda a contribuir para a manutenção desses ladrões e oportunistas, fortalecendo os argumentos com a sua indiferença e o não envolvimento na vida política os podres putrefactos instalados.


A simples afirmação do cidadão comum, não quero nada com a política, abre espaço e alimenta a reprodução desta corja indesejável num estado de direito, porque o cultivar da indiferença pelo que se passa no país, o egoísmo ético e o interesse de cada um em particular, fazem desse mesmo cidadão conivente com as políticas e decisões tomadas por quem os governa.


Não é justo nivelar ou tratar todos os políticos como corruptos e lançar todas as culpas apenas a estes, pois os políticos pela própria actividade que desempenham, ficam muito mais expostos, mas de uma coisa não nos podemos esquecer, não existe corrupção sem corruptores e corrompidos.


Quando numa sociedade se começa a instalar a ideia de que honestidade passa a ser sinónimo de burrice e até correr o risco de ser apelidado de parvo, quando essa sociedade pela sua competitividade e ganância premeia os mais espertos, ambiciosos e egoístas em detrimento dos mais capazes e competentes, por quanto tempo conseguirá fazer prevalecer e manter a coerência entre o pensamento e acção, discurso e prática de quem exerce o poder.


Por vezes somos tentados a abstrairmo-nos da coisa pública e tentação da política, mas tomando essa opção estamos de certeza a contribuir para um crescimento e ignorância do que nos rodeia, sucumbindo às rotinas do dia-a-dia consumindo-nos o pensamento e tornando-nos anestesiados e incapazes, criando e dando uma ilusão de felicidade.


Só os tolos não reflectem sobre o que os rodeia, por mais alienado que o ser humano seja, tem todas as condições de pensar de forma crítica, compreendendo e projectando o que pretende.


Vivemos numa sociedade onde a esperança de dias melhores começa a ser confrontada com o medo de assumir política e intelectualmente posições claras e desprendidas de facciosismo bacoco, sempre que necessário, não nos resignando e não cedendo a qualquer tipo de pressões, tenham elas as origens que tiverem.


É indispensável evoluir-se deste estado de perplexidade com que somos confrontados todos os dias, para uma crítica aberta e o confronto directo com formas autistas e imorais de gestão da coisa pública, exigindo a punição dos detractores com mão pesada pela justiça.


A crítica publica não pode nem deve ser considerada suspeita, nem o direito de usar a sua consciência poderá condicionar quem quer que seja de poder usar o direito de intervir. Não podemos fechar os olhos, só porque algo ou alguém melhor posicionado hierarquicamente numa estrutura partidária assim entende, nem deixar que influências de interesses pouco ou nada condizentes com a vontade e o desejo das populações assim o exige. Os políticos têm o dever de dar o melhor de si no desempenho das suas funções de estado, mesmo que para isso tenham que assumir posições não concordantes com a sua própria estrutura partidária.


O desespero das populações conduzem a sociedade para a descrença, a desilusão e perplexidade de todos quantos acreditaram numa militância dedicada à defesa de conceitos e formas de desenvolvimento coerentes com a realidade e necessidades correntes das famílias.


Se a ruptura com os partidos de alguns desiludidos se pode imputar a aspectos conjunturais, equivocam-se duplamente, porque a política dá muitas e diversas voltas e o que é hoje criticado, é amanhã reconhecido pelos que nos passam um cheque de confiança nos processos eleitorais face aos resultados obtidos.


A concretização e a prática de boas políticas reforçam a tomada de posição daqueles que perante o contraditório político partidário optam pela sua consciência, numa prova de esclarecimento, ética e moral, porque mais vale a decisão de procurar outros rumos e viver a vida, do que persistir num papel passivo de conspirador.


Vale mais ser lembrado pelo que fizeste, do que pelo que pretenderam que deixasses de fazer.

João Soares

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Artigo de Clara Ferreira Alves - Expresso

Pela pertinência do artigo e actualidade apeteceu-me publicá-lo no blog, para aqueles que não tenham tido a oportunidade de ler.

Não admira que num país assim emerjam cavalgaduras, que chegam ao topo, dizendo ter formação, que nunca adquiriram, que usem dinheiros públicos (fortunas escandalosas) para se promoverem pessoalmente face a um público acrítico, burro e embrutecido.


Este é um país em que a Câmara Municipal de Lisboa, desde o 25 de Abril distribui casas de RENDA ECONÓMICA - mas não de construção económica -
aos seus altos funcionários e jornalistas, em que estes últimos, em atitude de gratidão, passaram a esconder as verdadeiras notícias e passaram a "prostituir-se" na sua dignidade profissional, a troco de participar nos roubos de dinheiros públicos, destinados a gente carenciada, mas mais honesta que estes bandalhos.

Em dado momento a actividade do jornalismo constituiu-se como O VERDADEIRO PODER. Só pela sua acção se sabia a verdade sobre os podres forjados pelos políticos e pelo poder judicial. Agora contínua a ser o VERDADEIRO PODER mas senta-se à mesa dos corruptos e com eles partilha os despojos, rapando os ossos ao esqueleto deste povo burro e embrutecido. Para garantir que vai continuar burro o grande cavallia (que em português significa cavalgadura) desferiu o golpe de morte ao ensino público e coroou a acção com a criação das Novas Oportunidades.

Gente assim mal formada vai aceitar tudo e o país será o pátio de recreio dos mafiosos.

A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.

Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros. Por uma vez gostava que em Portugal alguma coisa tivesse um fim, ponto final, assunto arrumado. Não se fala mais nisso. Vivemos no país mais inconclusivo do mundo, em permanente agitação sobre tudo e sem concluir nada.

Desde os Templários e as obras de Santa Engrácia, que se sabe que,nada acaba em Portugal, nada é levado às últimas Consequências, nada é definitivo e tudo é improvisado, temporário, desenrascado.

Da morte de Francisco Sá Carneiro e do eterno mistério que a rodeia, foi crime, não foi crime, ao desaparecimento de Madeleine McCann ou ao caso Casa Pia, sabemos de antemão que nunca saberemos o fim destas histórias, nem o que verdadeiramente se passou, nem quem são os criminosos ou quantos crimes houve.

Tudo a que temos direito são informações caídas a conta-gotas,pedaços de enigma, peças do quebra-cabeças. E habituámo-nos a prescindir de apurar a verdade porque intimamente achamos que não saber o final da história é uma coisa normal em Portugal, e que este é um país onde as coisas importantes são "abafadas", como se vivêssemos ainda em ditadura.

E os novos códigos Penal e de Processo Penal em nada vão mudar este estado de coisas. Apesar dos jornais e das televisões, dos blogs, dos computadores e da Internet, apesar de termos acesso em tempo real ao maior número de notícias de sempre, continuamos sem saber nada, e esperando nunca vir a saber com toda a naturalidade.

Do caso Portucale à Operação Furacão, da compra dos submarinos às escutas ao primeiro-ministro, do caso da Universidade Independente ao caso da Universidade Moderna, do Futebol Clube do Porto ao Sport Lisboa Benfica, da corrupção dos árbitros à corrupção dos autarcas, de Fátima Felgueiras a
Isaltino Morais, da Braga Parques ao grande empresário Bibi, das queixas tardias de Catalina Pestana às de João Cravinho, há por aí alguém quem acredite que algum destes secretos arquivos e seus possíveis e alegados, muitos alegados crimes, acabem por ser investigados, julgados e devidamente punidos?

Vale e Azevedo pagou por todos?

Quem se lembra dos doentes infectados por acidente e negligência de Leonor Beleza com o vírus da sida?

Quem se lembra do miúdo electrocutado no semáforo e do outro afogado num parque aquático?

Quem se lembra das crianças assassinadas na Madeira e do mistério dos crimes imputados ao padre Frederico?

Quem se lembra que um dos raros condenados em Portugal, o mesmo padre Frederico, acabou a passear no Calçadão de Copacabana?

Quem se lembra do autarca alentejano queimado no seu carro e cuja cabeça foi roubada do Instituto de Medicina Legal?

Em todos estes casos, e muitos outros, menos falados e tão sombrios e enrodilhados como estes, a verdade a que tivemos direito foi nenhuma.

No caso McCann, cujos desenvolvimentos vão do escabroso ao incrível, alguém acredita que se venha a descobrir o corpo da criança ou a condenar
alguém?

As últimas notícias dizem que Gerry McCann não seria pai biológico da criança, contribuindo para a confusão desta investigação em que a Polícia
espalha rumores e indícios que não têm substância.

E a miúda desaparecida em Figueira? O que lhe aconteceu? E todas as crianças desaparecidas antes delas, quem as procurou?

E o processo do Parque, onde tantos clientes buscavam prostitutos,alguns menores, onde tanta gente "importante" estava envolvida, o que aconteceu?

Arranjou-se um bode expiatório, foi o que aconteceu.

E as famosas fotografias de Teresa Costa Macedo? Aquelas em que ela reconheceu imensa gente "importante", jogadores de futebol, milionários, políticos, onde estão? Foram destruídas? Quem as destruiu e porquê?

E os crimes de evasão fiscal de Artur Albarran mais os negócios escuros do grupo Carlyle do senhor Carlucci em Portugal, onde é que isso pára?

O mesmo grupo Carlyle onde labora o ex-ministro Martins da Cruz, apeado por causa de um pequeno crime sem importância, o da cunha para a sua filha.

E aquele médico do Hospital de Santa Maria, suspeito de ter assassinado doentes por negligência? Exerce medicina?

E os que sobram e todos os dias vão praticando os seus crimes de colarinho branco sabendo que a justiça portuguesa não é apenas cega, é surda, muda, coxa e marreca.

Passado o prazo da intriga e do sensacionalismo, todos estes casos são arquivados nas gavetas das nossas consciências e condenados ao esquecimento.

Ninguém quer saber a verdade. Ou, pelo menos, tentar saber a verdade.

Nunca saberemos a verdade sobre o caso Casa Pia, nem saberemos quem eram as redes e os "senhores importantes" que abusaram, abusam e abusarão de
crianças em Portugal, sejam rapazes ou raparigas, visto que os abusos sobre meninas ficaram sempre na sombra.

Existe em Portugal uma camada subterrânea de segredos e injustiças, de protecções e lavagens, de corporações e famílias, de eminências e reputações, de dinheiros e negociações que impede a escavação da verdade.

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa

Clara Ferreira Alves - "Expresso"

Incerteza, Desnorte e Falsas Promessas

A incerteza no dia-a-dia e a insegurança no nosso quotidiano aumentam a angústia das populações, que se sentem desprotegidas por um sistema social desequilibrado.

O desnorte de algumas famílias e a perplexidade perante as informações e interpretações contraditórias da instabilidade económica do país levam os cidadãos a interrogar-se, desesperadamente, sobre o rumo da sociedade e das suas vidas.

Esta situação conduz, cada vez mais, as famílias encurraladas e sujeitas a uma violência quotidiana do meio social onde se enquadram, vivendo permanentemente um pesadelo carregado de absurdos em cujo sentido não encontram razão ou análise racional.

As falsas promessas de desenvolvimento, sempre presente nos discursos mentirosos de alguns lideres governamentais, dos políticos corruptos, cuja ganância insaciável e voraz, controlada por elites instaladas no sistema, conduzem cada vez mais as famílias a uma autodestruição e revolta violenta numa estrutura social já de si frágil.

Para combater essa tendência destrutiva e conduzir para caminhos que possam resgatar os valores que dão sentido à vida, individual e colectiva, pode e deve ser invertida essa tendência, exigindo-se moral e ética a quem tem o dever e a obrigação de o fazer, que são os políticos que nos governam.

O desempenho com apego e convicção nas lides do poder, deve e tem que ter, dos seus protagonistas uma face visível e nunca uma máscara onde a pouca vergonha, o vale tudo da ganância insansiável de gente sem escrúpulos se sobrepôem ao dever de servir e gerir a causa pública. O poder pelo poder não pode servir nem deve ser usado pelos seus detentores, mas sim para ser exercido com honestidade, verdade e acima de tudo com muita coerência e sensatez.

Para que a ética e a moral prevaleçam na sociedade, torna-se necessário que exista e se cumpra um código de conduta baseado em valores, consentido e praticado pela classe política, baseado em manifestações concretas de cooperação e solidariedade, inserido numa organização social pluralista e de democracia participativa, transcendente a todos os outros sistemas de crenças e valores, como súmula da consciência humana no direito dos cidadãos à sua liberdade e felicidade.

Para uma sociedade de cidadãos activos, participantes e confiantes no futuro, fonte da liberdade que transformou a história, essa democracia participativa não pode nem deve ser vista como ficção ou sonho, mas sim como uma visão de futuro na construção de um discurso em que não se tenha medo do confronto de valores nem do seu impacto real e mais que provável na existência humana à luz de experiências políticas e práticas acumuladas ao longo dos tempos.

Deve-se exigir ética e moral como dever dos nossos governantes, numa visão da humanidade inspirada numa aprendizagem de gerações, em conformidade com os actores sociais, de uma forma racional, que se pode e deve vir a manifestar no futuro, onde a razão comande e oriente as paixões para um grau de confiança das pessoas na possibilidade de uma concreta realização do verdadeiro potencial da sociedade .

João Soares

Quinta-feira, Outubro 01, 2009

Violência Política ou a Teoria da Conspiração


O recente acto eleitoral para as legislativas, veio mais uma vez mostrar que existem muitas e boas razões para acreditarmos que as opções que nos parecem ser as piores escolhas no actual sistema não são acidentais, mas sim um fenómeno que, de tempos a tempos, nos tentam conduzir garantidamente a regimes totalitaristas.
Exactamente por essa ordem de razão, nas sociedades dominadas ou predominantemente com ascendente totalitarista, são provavelmente quase sempre os pouco escrupulosos e mais descarados os mais bem sucedidos. Está na cara e só não vê quem não quer ou não percebe o que realmente separa o totalitarismo de um regime dito liberal.
Um dos objectivos da política de esquerda e dos seus intervenientes, terá de ser o alerta constante nas opções e escolhas contra a privação dos direitos dos cidadãos em geral, eliminando as causas e prevenindo consequentemente os efeitos por forma a não permitir o sucesso de qualquer tentativa de sonegar as liberdades conquistadas.
Para que tal não aconteça, há que impedir a todo o custo a moda actualmente em voga entre a classe de intelectuais que usando o argumento da falta de segurança, apoiam e defendem a contenção e suspensão de liberdades essenciais no sistema democrático português.
Para todos aqueles que defendem e alimentam de forma convicta a inevitável ascensão de um regime totalitarista, minando a sociedade e envenenando os menos esclarecidos, torna-se cada vez mais necessário uma atenção redobrada para todo o tipo de propaganda populista que caracteriza esses farsantes, mostrando-lhes a nossa repulsa, intervindo com maturidade, coerência e convicção dos valores que nos norteiam.
Não nos devemos iludir ao ponto de pretender que todas as pessoas se identifiquem totalmente com a nossa forma de participação na vida pública, nem que todas elas professem dos mesmos valores e convicções e que por isso os julguemos menos competentes só porque muitos deles preferem confiar em governantes conscientes e sensatos, quando esses governantes fazem parte de um sistema estabelecido por homens bons.
A interacção entre a moral das instituições que nos governam, pode e deve funcionar como catalisador do equilíbrio na ética resultante das noções morais da sociedade e nunca como obstáculo à concretização das nobres razões que conduziram Portugal à conquista da Liberdade em Abril de 1974.
Resultado da falta de seriedade e escrúpulos de alguns protagonistas na cena política, afastam cada vez mais gente decente com princípios e convicções, proporcionando a ascensão da canalhice aos palcos públicos da governança.