sábado, março 10, 2007

Da preplexidade às Ilusões Perdidas


I Parte



Na época em que vivemos, políticos e intelectuais continuam a insistir na retórica pela retórica, quando a esperança se confronta diariamente com o medo, dando aso ao crescimento do cepticismo, a resignação ou até a preplexidade dos actores, que somos todos nós.
Talvez porque estejam demasiadamente obcecados com os mistérios da governação, postados numa primeira fila da plateia da vida, numa peça da qual são protagonistas, e que por isso mesmo sejam os primeiros a ficarem espantados com o péssimo espectáculo dessa mesma política.
Sócrates é observado pela direita, que contra os mais obstinados, vai conseguindo levar por diante algumas reformas, suportado pela garantia e segurança de uma governabilidade maioritária, mesmo que para isso tenha de entrar em conflito com espaços da sociedade, que numa primeira instância, até lhe serviu como almofada eleitoral, a média burguesia.
A própria esquerda começou a deitar as unhas de fora e, com alguma preplexidade, à medida que o tempo vai passando, argumenta no seu modo tão peculiar de arregimentação de massas, tentando demonstrar que as promessas eleitorais vão caíndo no vazio da rotina e do discurso populista e governamental.

Municiando os seus ataques através dos órgão representativos dos trabalhadores, os sindicatos e respectivas centrais sindicais, acusando o governo de usar práticas e conduta neoliberal, apelidando e denunciando este tipo de políticas, como uma continuidade das politicas aplicadas nos anteriores governos do PSD, as quais visam unica e exclusivamente afrontar e por em causa os direitos dos trabalhadores.
A preplexidade desta forma de governar, tem levado os próprios seguidores e apoiantes de Sócrates, a assumirem posições antagónicas a algumas dessas decisões, como tem acontecido nas áreas da saúde e educação, da qual os Presidentes de Câmara Socialistas bem têm deixado claro, passando do período de boas graças para a crítica aberta e o confronto directo com o governo e a maioria da direcção partidária.
Os resultados têm sido visíveis e são conhecidos através da denúncia de falta de diálogo e prepotência da maioria governamental e seus ministros, provocando e tendendo a provocar a divisão da base social de apoio partidário, o qual se fez reflectir passados poucos meses, olhando-se para os resultados nas eleições autárquicas, onde essa franja de apoio mostrou o deu desencanto e admoestou a maiora de forma inequívoca, proporcionando uma derrota ao PS nas urnas com consequências que se fizeram sentir por todo o País.
Esta atitude governativa de Sócrates, é utilizada pelos mais cépticos como força retro-motriz, que em vez de se alimentar da receptividade e energias emanadas da governação socialista na relação com a sociedade civil, enfraquece e deixa cair as bandeiras de mudança e compromissos, provocando desconfiança e perda de identidade.
Diante disto, a tarefa de uma esquerda interna que vinha a disputar posições políticas no Partido, enquanto este actua despudoradamente como correia de transmissão do governo, poder-se-á considerar quase como uma tarefa inacessível e hercúlea.
A falta de esperança leva à desilusão, no entanto, não deixa de ser notável que tanto os perplexos quanto os que perderam suas ilusões confundam as críticas pertinentes com cobranças equivocadas. Há os saudosistas que criticam o PS por ter negado as origens do socialismo.
Imaginam que o partido renunciou ao espírito revolucionário de esquerda, reafirmando apelos a um socialismo sem definição, sintetizado em soluções políticas mais próximas da social-democracia, expressando uma retórica e apelando para o consenso interno, adaptando-se ao momento nas emanações que vierem do governo, não permitindo sublevações esquerdistas, esquartejando e reduzindo as tendências internas.
Para muitos, a eleição de Sócrates representava expectativa e esperança, mas começam agora a perguntar se terá valido a pena os anos dedicados à militância. É compreensível. Afinal, são vidas que se consumiram em reuniões e atividades partidárias na defesa intransigente de causas e projectos.
O crescimento do aparato partidário e a sua estatização, a acomodação interna de conveniências aos jogos eleitorais, transformam o partido numa máquina trituradora, anulando qualquer voz dissonante e abafando todo ou qualquer discurso crítico, absorvendo-o e minimizando o seu impacto pela desvalorização do seu conteúdo, reduzindo essa intervenção à participação controlada e encenada dos congressos e convenções.
Os críticos, como parte da máquina partidária estatizada, acabam por moderar ou anular os seus discursos ou divergências, perante necessidades internas concretas, impostas pelas disputas internas de processos eleitorais mais ou menos negociados.
Numa primeira análise, o erro não está em Sócrates nem no seu Governo, o erro está esse sim, na avaliação da sua postura política interna, negada na sua própria trajectória partidária.


(cont....)


Joao Carlos Soares

quinta-feira, março 08, 2007

08 de Março - Dia Internacional da Mulher

A todas as mulheres


Que amanhã continue a ser sempre o teu dia

Corrupção e Sistema (...cont)

Parte V


A corrupção é um péssimo espectáculo que enoja o cidadão comum.
Quando esse espectáculo tem como protagonistas os políticos, ainda mais desacreditada sairá a actividade política, fazendo com que os analfabetos políticos, aqueles que primam pela indiferença e detestam a política, se regozijem e fortaleçam nos argumentos pela indiferença, o não envolvimento na política, e a abstracção nas decisões em comunidade.
A ingenuidade e a moralidade abstracta, oculta e dissimula infelizmente algum egoísmo dos que não conseguem pensar nem querem ver para fora do seu casulo.
Essa indiferença contribui para a manutenção e reprodução dessa corja de ladrões que, espreitando os cofres públicos, estão sempre disponíveis e prontos para dar o golpe de asa à primeira oportunidade que tenham. Tal como Pilatos não impediu a morte de Cristo ao lavar as mãos, também aqueles que se recusam a fazer parte da decisão na sociedade a que pertencem, estão de forma inconsciente mas consequente a alimentar a corrupção.
Aqueles que vêm alimentando ou cultivando a indiferença perante a sociedade ou defendendo e promovendo o egoísmo ético de particulares, torna-os a eles próprios coniventes. Num estado democrático de direito, a gestão da coisa pública é responsabilidade de todos nós.
De uma coisa podemos estar cientes, quando os políticos deixarem de ser responsáveis e responsabilizados pelos negócios do Estado, então podemos ter a certeza que o sector público pode estar sem rumo e completamente perdido.
Meter todos os políticos no mesmo saco, nivelá-los pela mesma bitola e atribuir-lhes a podridão da corrupção em exclusividade, é um erro que não pode nem deverá ser cometido, sendo com certeza um equívoco de avaliação a evitar. É verdade que são os políticos aqueles que mais expostos estão, no entanto chamo a atenção para factores que são de extrema importância contemplar. Não há corrupção sem corruptores e corrompidos, como diz o ditado “ A ocasião faz o ladrão, a necessidade também o faz”.
Não podemos nem permitiremos que a hipocrisia nos ofusque o raciocínio e a razão. Exigimos ética e compromisso aos políticos como se esta fosse uma exclusividade restrita ao submundo da política e dos políticos. Mas e então o resto da sociedade? Quando um ladrão se apodera do alheio e o transacciona junto de receptores, estes tornam-se tão culpados quanto os autores.
Nós não procedemos assim. Só os outros é que o fazem!. Afirmam uns, desculpam-se outros.
Então como se justifica e compreende que desde que se processam alterações no xadrez político, o conhecimento, a sabedoria, a eficácia, a experiência, enfim a competência passem de um momento para o outro a fazer parte de características próprias em exclusividade dos acólitos dessa mesma força política?.
Quem de nós não subornou ou foi tentado a subornar?, mesmo que o significado do acto, pouco ou nada signifique num contexto generalizado de uma sociedade comparativa de grandezas?.
Ou não vivemos numa sociedade onde a honestidade é sinónimo de burrice, de ser trouxa, ou corremos o risco de ser bobos, quando a sociedade competitiva parece premiar os mais espertos, os egoístas, os mais ambiciosos?.
A bem da verdade, o ladrão aproveita a ocasião. Quem de nós nunca foi tentado? Quem de nós não cometeu algum deslize perante a ocasião? Quem foi tentado e não caiu em tentação? Quem conseguiu manter a coerência entre pensar e agir, discurso e prática?
Os homens têm que ser julgados pelo seu trabalho e apenas através dele é que podemos comprovar a sua capacidade de resistir à tentação.
Aos que denomino de analfabetos políticos da chamada tentação da política, o seu único prémio é a ignorância, e que muitas vezes, enojados e cansados perante o espectáculo proporcionado pelos sucessivos governos, nos seduzem a segui-los sucumbindo à rotina do quotidiano, consumindo e desgastando valores e causas.
Só as bestas não reflectem sobre a situação do Mundo e da sociedade em particular. Por mais distraído que seja, o ser humano tem capacidade e condições de criticar, compreender e projectar o seu próprio futuro. Isto é que nos diferencia dos demais animais e nos torna no único animal capaz de produzir cultura contribuindo para a sua própria história.
Não chega criticar os que prevaricam, é indispensável e aconselhável superar o comodismo a que os analfabetos políticos se submetem constantemente. Não se pode nem se deve exigir ética na política ou formar uma nova geração de cidadãos politicamente activos, consciente dos seus deveres e direitos, dotada de capacidade de poder vir a assumir a defesa da justiça social, se os nossos exemplos se pautarem pelo contrário.

Afinal de contas, até os ladrões têm a sua ética.



João Carlos Soares

sexta-feira, março 02, 2007

Bento deixou-nos



A dignidade de um homem entre os seus pares.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Corrupção e Sistema (...cont)


Parte IV


Se alguma coisa os textos que apresento não pretendem de todo, é macerar aqueles que perdem tempo em lê-los, nem utilizar rectóricas anarquistas, muito menos utilizar argumentos heterodoxos, tentando transmitir de forma descomprometida, aquilo que me vai na alma, quase como obrigação, compartilhando os meus temores com quem tal esforço faça.
O compartilhar reflexões sobre política de esquerda, serão desde sempre os objectivos que me motivam.
Confesso, que sempre usei do meu direito, enquanto cidadão, de contribuir com o voto nas urnas para a consolidação do sistema eleitoral vigente, respeitando contudo aqueles que assumem posição contrária, não usando desse direito, mas servindo-se dessa posição igualmente como opção legítima.
Não quero fazer julgamentos morais a quem usa desse direito, tal como não é minha intenção concordar ou discordar de quem se serve desse direito, como forma de mostrar o seu desagrado e insatisfação.
Por outro lado, é com respeito e admiração que encaro todos aqueles, que aceitaram a opção da política nas suas vidas, perfilhando conceitos e valores através da institucionalização partidária. Só dessa forma se entende que um número cada vez maior estará em consonância na crítica social e política na defesa dos princípios em que ainda acreditamos.
Tem que ser com respeito e admiração, a forma como devemos encarar todos aqueles que nas bases partidárias, se expôem e entregam de corpo e alma, a um projecto político no qual acreditam e apostam, investindo todas as suas energias na militância partidária como única motivação.
Já o mesmo não defendo nem posso aceitar, quando uma estirpe de intelectuais, conselheiros e comissários políticos, instalados e encastelados abastadamente nas torres das instituições públicas, através de nomeações e pactos de regime partidário, mas que não têm nem desempenham qualquer papel ou compromisso nas áreas sociais e políticas, nas comunidades que os sustentam.
Contudo, estou convencido que na actual conjuntura, a abstenção nunca poderá ser a alternativa para consagrar um descontentamento crescente, o qual venha a questionar através do voto a falta de legitimação do sistema político e eleitoral, consciente que o caminho deverá passar e vir a concretizar-se num acto consciente pela anulação do voto nas urnas.
O peso do voto nulo em processos eleitorais, pode contribuir num futuro próximo, de forma inquestionável na transformação indispensável das instituições representativas, bem como no garante da defesa da própria democracia, através do choque que provocará na política convencionalmente aceite.
Institucionalmente, a política foi quase sempre uma actividade muito restrita a uma minoria da sociedade. Após o 25 de Abril com a instauração da democracia participativa, todo o panorama sofreu roturas com o passado e a liberdade participativa das populações tomou conta do palco político.
Passados mais de 30 anos de democracia, sentimos algum retrocesso ao conceito de representatividade, a qual começa a ser questionada e posta em causa inclusivé no interior das instituições representativas, que são os partidos.
Entre os conceitos de democracia, existe a ilusão de que o exercício da política é uma actividade de massas. Nada mais despropositado, pois o voto em cada acto eleitoral não pode ser considerado como sinónimo de participação activa na política, mas simplesmente o exercício de um direito e um dever de cada cidadão em democracia.
Estudos e consultas junto do eleitorado e actos eleitorais recentes, vêem mostrando cada vez mais o abstencionismo dos cidadãos, bem como num acréscimo de absentismo dos cidadãos em actos de cidadania.
O descrédito na relação da comunidade com os políticos e com a política, é uma reacção que é facilmente compreendida. No quotidiano do cidadão comum, a necessidade de conveniência impele cada indivíduo a viver absorvido e imerso nos seus problemas, desejando acima de tudo, para que na melhor das hipóteses, não vejam as suas vidas atrapalhadas com medidas e acções dos políticos.
Vão acompanhando o que se vai passando através dos jornais, televisão, etc..., absorvendo no máximo aquilo que lhe poderá vir a afectar directamente a sua vida, descorando e não levando em conta os noticiários políticos, como se estes em nada lhes dissesse respeito.
Esta reacção é sintomática da abstracção a que este mundo da política é votado pela maioria da população, que acha que a política e as coisas da política, se restringe apenas a uma determinada classe social. Parece-lhes que os políticos vivem numa esfera diferente das suas. Quer a classe operária, quer os empresários que não estão envolvidos nas suas instituições de classe, apenas esperam que os deixem viver sem grandes sobressaltos e traumas. Para este tipo de pessoas, os políticos e a política são simplesmente um estorvo, aceitando-os no mínimo como um mal necessário à sociedade a que pertencem.

Serão estes personagens da sociedade, num futuro/presente uma espécie de analfabetos políticos?


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João Carlos Soares

Corrupção e Sistema (...cont)

Parte III

Nada pode ser mais preocupante em qualquer sistema democrático, que o aumento da falta de confiança nos representantes eleitos.
Nesse momento, toda a sustentabilidade e legitimidade na qual o sistema se alicerça, cai por terra, desmoronando-se fatidicamente, abrindo caminhos a movimentos duvidosos, proporcionando a ascensão de déspotas oportunistas, os quais servindo-se do efeito dominó, fácilmente ganham apoios e congregam em seu redor órfãos de uma sociedade em rotura.
É indispensável que os partidos comecem a perceber este binómio, desenvolvendo políticas que se enquadrem em respostas efectivas às necessidades dos mais desfavorecidos, decisões estratégicas equilibradas, onde a transparência e a lucidez dos seus dirigentes, torne a conquistar, ganhando a sua confiança, aqueles que foram perdendo quando se esqueceram a quem serviam.
É verdade que estamos na era do descartável, é verdade que estamos no tempo em que as mais valias se sobrepôem aos valores de uma sociedade justa, é verdade que nos esquecemos de onde vimos, mas não podemos esquecer como e para onde queremos ir, e que esse objectivo nunca poderá vir a ser atingido, sem que haja coragem para romper e quebrar estigmas, afrontar e confrontar ideias e preconceitos, sobrepondo sem qualquer tipo de receio a razão e a justiça.
Só assim a população que nos elege voltará a acreditar nos seus representantes.
Vale a pena observar que essa descrença e falta de confiança não se resume a este ou aquele partido ou facção política, mas tornou-se nos últimos tempos, num crescendo que varre todos, sejam eles de esquerda, centro, direita ou radicais.
A prática nos partidos das estratégias de terra queimada e descarado clientelismo, têm de uma forma quase acintosa gerado feridas dilacerantes no seio da militância partidária, as quais se fazem sentir, a cada dia que passa, numa contestação e num contraditório sem freio, atentando contra tudo e contra todos, num claro desafio à liderança, quartando toda ou qualquer hipótese de concretização dos objectivos programáticos definidos e consignados nos programas sofragados.
Esta crise que atinge a sociedade portuguesa, não sendo uma exclusividade da esquerda, torna-se mais notada, em virtude dessa mesma esquerda não ter a coragem de assumir em primeiro lugar a defesa dos interesses daqueles com quem se identifica, e dos seus executores se colocarem numa situação egoista, preocupados consigo próprios num quadro institucional de poder, salvaguardando os seus interesses directos em detrimento daqueles que os elegeram e em quem confiaram o seu futuro.
A classe política tem que entender que tal como referi no início deste texto, estamos numa era em que cada vez mais o descartável é regra, mas não poderemos, nem consentiremos que nos tratem como um qualquer assalariado, em que os únicos direitos que lhes são reconhecidos e consignados são a obediência, a ignorância e a resignação.
A estatização dos partidos, resultante da dependência dos mesmos enquanto poder, serve e aplica-se conscientemente para evitar tudo quanto possa contradizer, ou por em causa o Governo. Esta teoria serve e é o mesmo que dizer, que os partidos desvirtuam e deformam os seus conceitos e crenças, transformando-se em organizações permanentemente ameaçadas pelo poder estatal, num forte, envolvente e sufocante abraço, a todos aqueles a quem deveriam proporcionar uma cada vez maior qualidade de vida.
Pelo contrário, aquilo a que somos chamados a assistir como testemunhas, não passa de um pesadelo criado pelas elites, onde os interesses dos mais desfavorecidos só servem para ilustrar caricaturas de mau gosto, onde o que apenas não mudou, continua a ser o discurso político do partido.


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João Carlos Soares

domingo, fevereiro 04, 2007

Corrupção e Sistema (...cont)

Parte II


Existem pessoas, tal como eu, que nos encontramos no limiar ou mesmo até à beira de um abismo, onde pouco ou nada falta para que uma enorme descrença na democracia provocada pelo desgaste e falência nos partidos, precipite a nossa confiança, em acreditar na possibilidade de se construir um país com mais dignidade, onde a ética e a justiça se perfilem numa grande marcha contra o autoritarismo, o individualismo de alguns ou o populismo e demagogia das elites instaladas.
Começamos a sentir e a sofrer as consequências da fraude e desrespeito pela lei, onde o salve-se quem puder prevalece, e hipoteca a credibilidade dos partidos, através do descontentamento e expectativas defraudadas dos seus militantes e simpatizantes, manifestadas quase sempre num compulsivo afastamento e contestação aos seus dirigentes.
Com todos estes desequilíbrios que um sistema democrático proporciona, começam a gerar-se algumas preocupações em determinados meios de influência, receando-se até que o descrédito da população nos políticos e subsequentemente arrastando esse descrédito em relação ao próprio sistema, possa mais tarde ou mais cedo vir a criar condições a ideias autoritaristas, como desculpa e argumento para a refundação de um novo ou qualquer sistema político eleitoral, pela reconstrução dos ideais republicanos, num esforço pela salvação da pátria.
O crescendo da abstenção, votos nulos e brancos de processo em processo eleitoral, devem inquietar e preocupar todos aqueles que defendem um sistema democrático, pautado pela defesa dos valores e direitos dos cidadãos, sustentado numa estrutura representativa, justa, séria e credível entre os seus pares.
Nos últimos anos, temos assistido a uma passividade consentida dos governos, evitando tocar sectores da sociedade, como forma expedita de manter apoio eleitoral, alterações essas, que de uma forma ou outra, venham a proporcionar e restabelecer uma maior equidade social, como exemplo, o que se passou nalgumas classes sociais privilegiadas, Juízes, Médicos, Professores, Políticos, etc......
Não é o que se passa neste momento com o actual governo, pois de todos os que nos últimos anos têm tido a oportunidade de o fazer, foi o único, que até ao momento, tem tomado algumas iniciativas reformistas, as quais sendo no meu entender de alguma forma exíguas, são com certeza, um sinal de vontade e predisposição para alterar os acontecimentos, e pela primeira vez criar reacções rompendo com tabus e privilégios.
Se o Governo alguma coisa tem vindo a fazer no desempenho do seu programa, apresentando algumas reformas, que têm para todos os efeitos criado mexidas na inércia constatada nos últimos anos, também é verdade que algo mais deveria ter sido feito a nível da corrupção, tendo com a posição assumida pelo grupo parlamentar que suporta o Governo, rejeitando o plano recentemente apresentado pelo Eng. João Cravinho, levantado mais uma vez dúvidas e desconfiança na razão das suas intenções e, de certa maneira, perdendo, julgo, na altura certa, esta oportunidade única.


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João Carlos Soares

domingo, janeiro 28, 2007

Corrupção e Sistema

Parte I
Os problemas do “sistema” na política, acumulam-se num crescendo de indiferença dos homens e das mulheres do dia a dia, diante da política e das políticas instituídas pelos profissionais da mesma, que vivem numa minoria, disso e para isso, envoltos em limites e esquemas mais ou menos mal disfarçados, mas consentidos.
Quer a política quer os políticos, são uma coisa com a qual a sociedade não gosta e detesta, mas com a qual se obrigada a aceitar e conviver. Por essa razão, para além da sua própria conduta, fazem com que cada vez se torne mais difícil a alguns políticos, se diferenciarem ou, pelo menos, poderem vir a convencer os seus eleitores, que são e podem ser diferentes.
Cada vez mais a democracia representativa e o seu sistema, se confrontam com a sua própria capacidade sustentável, tendo alguma dificuldade em conciliar a atitude política com a actividade vinculada a uma institucionalidade que se pretenderia identificada e conhecedora da realidade social.
O mundo dos “eleitos”, parece ser coisa de outros mundos, é como se aquilo que se passa na sociedade, com os quais somos confrontados nos meios de comunicação, a nós não dissesse respeito, sendo exclusividade só de alguns, os outros, porque se lá estão, então que se entendam.
Nada mais errado.
O efeito dessa forma de entender a acção participativa dos cidadãos na sociedade, potencializa cada vez mais a crise nas políticas adoptadas, e é suficiente para que os valores que nos regem e deverá assentar toda a actividade política, se esvaziem e descredibilizem aos olhos dos mais atentos, bem como aos perigos adjacentes ao descrédito face à política naquilo que denominamos de Democracia.
A crise reconhecida dessa mesma democracia, representativa do sistema partidário na qual se fundamenta, deixa transparecer o vazio e a falta de preocupações sociais, argumentando-se aos quatro ventos, quer por altas individualidades do sistema, políticos ou intelectuais, a preocupação emergente que clama incessantemente por reformas políticas.
O descontentamento contra os políticos e as instituições como o Governo, Parlamento, Autarquias e até o Presidente da República, geram uma onda de falta de confiança dos cidadãos, em quem delegaram a sua esperança, podendo vir a pôr em causa a legitimidade do regime, colocando a própria democracia exposta à sua própria contextualidade.
Para garantir a independência dos cidadãos perante as estruturas do poder, poder-se-á admitir a desconfiança como forma de reacção a qualquer desmando ético ou político da vida pública, desde que essa desconfiança não ultrapasse os limites do descrédito e os cidadãos na sua maioria não se sintam defraudados.
A ineficiência e a indiferença das instituições democráticas perante a corrupção, fraude e desrespeito a direitos adquiridos, consagrados e assegurados pela lei, catalizam e abrem caminho à falta de compromisso social do estado e ao aumento da criminalidade.

Joao Carlos Soares
(Cont.........)

domingo, dezembro 31, 2006

Boas Festas


Que o Ano de 2007, seja para todos o início de algo em que sempre acreditaram, com paz, amor, saúde e acima de tudo com muita, mas muita compreensão entre os Povos e os Homens de boa vontade.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Aborto, Pedofilia e Eutanásia


Um olhar pela consciência

Quando se fala de crianças, seres que pela sua vulnerabilidade e exposição a uma sociedade estigmatizada, madrasta e predadora, transmite aos mais atentos, a precisa noção de precariedade e desconforto, como os mais altos órgãos responsáveis do Estado deste país se pronunciam e tomam medidas sobre esta matéria.
A sociedade é responsável e o garante, a par do Estado, da função de vigilância e segurança, respeitando a família e seus valores morais. Não significa isto substituir-se à família na sua essência, mas reforçar e fortalecê-la, nessa natural função protectora a crianças e adolescentes.
A liberalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, nos últimos anos, vem ocupando um espaço de debate e contradições, tendo já sido sujeito há alguns anos a referendo, que na altura entendeu dar aos mais cépticos a garantia do impedimento legal, dirimindo entre a esquerda e a direita o poder de uma liderança à custa do valor ao direito ou não à vida.
O direito à existência é matéria que divide corações, questiona a ética, gera polémica aos mais diversos níveis da sociedade, enfim, questiona-se a si próprio sobre a razão de decidir e usar esse direito por qualquer ser vivo.
Vamos ser chamados brevemente, já no próximo mês de fevereiro de 2007, a tomar a decisão mais difícil da nossa vida, que é decidir sobre a opção de escolher a nossa própria razão de existir
O nascimento de uma criança provoca inevitavelmente reacções inequívocas de júbilo, mas ao mesmo tempo atenção, cuidados e muita preocupação. Basta mencionar as constantes notícias sobre denúncias feitas por adolescentes e crianças, dilaceradas pela conspurcada e maquiavélica seita de pedófilos, que tal como vampiros, se alimentam destes inocentes, a coberto de uma justiça morosa e impotente.
O tema pedofilia, arregimenta normalmente um conjunto de opiniões públicas e penaliza inequivocamente os seus autores, exigindo de imediato ao Estado, uma intervenção enérgica sobre esses criminosos. É função do Estado interpretar, fazer julgar e cuidar de todos esses casos identificados.
O poder e a autoridade que o Estado tem para proibir qualquer tipo de incitação à pedofilia, bem como a qualquer outro crime, coloca algumas dúvidas em diversos sectores da sociedade, sobre a sua autoridade e poder de decidir sobre a continuidade ou não da vida, argumentando que decidir ou não pela vida, poderá considerar-se uma outra forma não menos maquiavélica de vampirismo, que para alguns se compara em mediocridade de valores à pedofilia.
A atitude do Estado neste assunto tão delicado como a pedofilia, apresenta-se como um guardião da moral e respeito pela segurança e protecção das crianças, prestigiando-se assim, como o maior responsável pela contenção na propagação da pedofilia, assumindo-se como se de um pai se tratasse acima de todos os outros pais, mantendo uma imagem de perfeição, honestidade, integridade, e pleno de boas intenções.
Mas será que na realidade o Estado se comporta como um pai? O Estado será realmente um pai acima de todos os outros pais?
Em princípio essa será a pretensão da sociedade, ou é induzida a querer.
Ao fim e ao cabo essa é a pretensão de todos nós.
Um Pai não mata nem manda matar!
Como tal, terá que ter uma atenção muito especial, clara, lúcida e ética, como irá conduzir um processo onde a demagogia e a controvérsia, irão assumir níveis de confronto extremados, relegando o nuclear da questão para cenários onde os actores terão muita dificuldade, em contrapor argumentos válidos, perante questões consideradas de suma importância, como a saúde pública, considerando-se que a saúde pública sexual ou reprodutiva, não serão uma questão de livre escolha, porque somente aos assassinos se observa a escolha de matar.
Não podemos admitir, ou melhor, não poderá a sociedade exigir, que ao Estado seja imputado o ónus da decisão. O Estado apresentando-se como o defensor máximo das crianças, não poderia nunca assumir, neste caso, um papel que contrariasse e hipotecasse frontalmente essa imagem e esse dever. Esta é uma decisão, na qual o Estado se confrontará perante o resultado a sufragar, no sentido de aplicar e fazer aplicar uma decisão a que todos nós dirá respeito e responsabilizará.
Liberalizar ou por outras palavras, despenalizar a Interrupção Voluntária de Gravidez, aborto, terá que ter em conta e observar de forma inequívoca, que a interrupção de um direito à vida, só poderá ser tolerada e admitida, cumpridas as condições de acompanhamento e apoio técnico a nível de um planeamento familiar, que este processo implica, não colocando em risco a saúde de quem o pratica, nem tornando o acto como uma prática corrente e subsequente de um mau ou inexistente planeamento familiar, transformando-se como prática comum e imoral.
Quando uma mãe decidir impedir o acesso à vida de um ser que gera dentro de si, será com certeza confrontada e flagelada pela razão da sua própria existência. Se alguém, antes de si, tivesse tido a mesma oportunidade de decidir.
Interromper um processo de vida às dez semanas, colocará no futuro uma outra questão relacionada com a vida, a Eutanásia.
A Eutanásia só por si gera controvérsia e radicaliza dois lados com valores intrinsecamente associados, mas ambos identificando-se como inegáveis defensores da dignidade humana.
Vindo a ser, ou não, legalizada a IVG, irão ser usados argumentos por ambas as partes, na qual os princípios que se colocam perante a existência ou não de um direito de decidir sobre a vida, se sobrepõe à ética e à consciência moral de quem decide.
Não será, pois, nem o poderemos permitir, uma opção de esquerda, centro ou direita, mas sim de um direito e um dever a que nenhum cidadão se deverá escusar.

Joao Carlos Soares