sábado, maio 26, 2007

Basta de Hipocrisia - O Barreiro merece melhor



Reconhecer nas memórias a credibilidade e confiança no futuro, para dar e garantir a dignidade que o Barreiro e os barreirenses merecem.






Passamos a citar:

“...O ministério de António Mexia continua sem esclarecer o que se passa com os catamarãs, nem quais as medidas preventivas em novos dias de Tejo revolto.


Entretanto, sem justificação ou estudos, anunciou uma solução absurda e uma opção errada que penalizam gravemente o Barreiro. Em vez de retomar os trabalhos sobre a terceira travessia do Tejo ferro-rodoviária no corredor Barreiro-Chelas, anunciou a passagem do TGV pela ponte 25 de Abril e um túnel rodoviário entre Algés e a Trafaria.


O túnel Algés.Trafaria, velho sonho de Isaltino Morais, é um erro de estratégia de transportes e de ordenamento do território, criando uma rua para trazer os lisboetas à praia, densificando a zona já mais sobrecarregada da Península de Setúbal, sem libertar tráfego no eixo central e promovendo ainda mais a utilização de transporte individual. Esperemos que Mexia não mexa neste assunto durante muito mais tempo para que os erros não sejam tão irreversíveis como os de Ferreira do Amaral ”

(declarações de Eduardo Cabrita em 02 de Novembro de 2004)


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"O Distrito de Setúbal é um distrito com particular relevância no cômputo nacional, mas assume particular importância na Área Metropolitana de Lisboa é, aliás, um pólo de centralidade no desenvolvimento integrado e sustentável desta área geográfica.

Pelas suas características económicas e sociais, pelo desenvolvimento que assumiu nos últimos anos, não pode agora ser esquecido, como o foi durante anos de reinado cavaquista. O PSD, igual a si próprio, tem agora uma atitude irresponsável face a esta região do país (esta ideia foi assumida, também, pelo próprio líder distrital do PSD de Setúbal), fazendo crer que a sul do Tejo nada importa!

Concentremo-nos apenas num exemplo do que tem sido a política do PSD nestes dez meses de Governação, um exemplo de enorme importância para o distrito de Setúbal: a terceira travessia do Tejo Barreiro-Chelas. Perguntar-me-ão, os leitores, qual a importância deste projecto quando o desemprego sobe mais que a média nacional no Distrito de Setúbal, nos últimos dez meses. Mas a verdade é que a não realização deste projecto é o reflexo do abandono a que a nossa região ficou vetada com este Governo.

O Partido Socialista assumiu, sempre, a necessidade de construir uma terceira travessia do Tejo, que ligasse Barreiro e Chelas. Fundamental, tanto no plano do escoamento de tráfego da Ponte 25 de Abril, como no plano económico, porquanto a ligação à margem norte do Tejo, por esta via, potenciará não só o desenvolvimento dos concelhos do Barreiro e da Moita, mas atrairá para o Distrito de Setúbal um maior investimento. Isto é, criará as condições adequadas a uma maior fixação do sector económico nesta região e, por consequência, mais emprego e maior permanência das pessoas nas suas terras não tendo que se deslocar para trabalhar em Lisboa.

É, assim, com grande espanto, que assistimos ao Governo do PSD retirar do PIDDAC a verba inscrita para os estudos de viabilidade desta nova travessia do Tejo e extinguir o Grupo de Missão, criado pelo Partido Socialista, para proceder aos respectivos estudos, afirmando o Ministro Valente de Oliveira, que esta obra não é uma prioridade para o Governo do PSD.

Mas, pasme-se!!! Fomos surpreendidos pelas declarações do Professor Nunes da Silva, consultor e responsável, no âmbito do Plano Estratégico de Desenvolvimento da Península de Setúbal, para a área das acessibilidades, afirmando que não reconhece, hoje, a importância desta ligação Barreiro-Chelas! À boa maneira cavaquista de outros tempos, reconhece que esta travessia existirá, mas não sabe quando, afinal o Professor Nunes da Silva não era, há uns meses, um dos grandes impulsionadores desta grande obra? Não considerava que seria um investimento imprescindível para o Distrito de Setúbal, na lógica de ser um distrito com enormes potencialidades na Área Metropolitana de Lisboa? O que o fez mudar de opinião e juntar-se ao imobilismo do Governo do PSD?

A não construção desta terceira travessia do Tejo Barreiro-Chelas trará consequências nefastas para o Distrito de Setúbal, abandonando uma estratégia integrada de desenvolvimento para a Área Metropolitana de Lisboa e amputando a sua maior proximidade com a margem norte do Tejo e consequentes recuperações ribeirinhas, tão necessárias, nestas zonas.

A actividade política não pode ser um jogo ao sabor dos ventos, mas tem que ser exercida com responsabilidade, verdade e coerência. O Partido Socialista assume as suas responsabilidades e os compromissos que firmou com os eleitores, assim, continuaremos a lutar para que a Terceira Travessia do Tejo Barreiro-Chelas seja uma realidade e que se reconheça ao Distrito de Setúbal a importância devida no todo nacional.

A política do imobilismo do Governo do PSD merece o nosso total repúdio!"

(declarações de Ana Catarina Mendes em 24 de Fevereiro de 2003)

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Meus senhores, por favor entendam-se. As vossas declarações e decisões enquanto poder instituído, têm que ter alguma coerência. Não acham?
Mudam-se os tempos e infelizmente também se mudam as vontades.
Assim sendo, cada vez mais a atenção dos cidadãos e movimentos cívicos, em particular, deverá incidir e ter uma prioridade;

  • Exigir o cumprimento na concretização dos interesses das regiões e das populações, contrariando assim um crescente clientelismo bem como a forma leviana como nos partidos, após conquistado e instalados no poder, abdicando das promessas e ilusões usadas com sofisma, nas bem urdidas e dispendiosas campanhas eleitorais, mudam de opinião e critérios, na mais descarada e promiscua impunidade institucional.

  • A resposta deverá e terá que ser dada com veemência, mostrando aos actores representativos da vontade dos eleitores, que não os defraudem, e pelo contrário, abdicando das suas conveniências e comodidades partidárias, assumam e não reneguem aos seus compromissos, respeitando a memória das suas próprias convicções.

João Carlos Soares



domingo, maio 06, 2007

Viver ou não Viver da Política






Existem só duas maneiras de se estar na política para que uma verdadeira independência pública seja o garante no cumprimento de tão nobre função de cidadania.
Viver dela e para ela.
Deixando de lado os oportunistas e bajuladores bem como todos aqueles que para garantir o poder, até são capazes de vender a alma ao diabo, mesmo aqueles que vivem por ideais, os que defendem uma ideologia, transformando a defesa dessa ideologia política como a essência e razão do seu viver, mesmo esses estão constantemente expostos ao reino das necessidades, tornando-se necessário e indispensável fundir os interesses particulares aos interesses comuns e vice-versa.
Por mais disponíveis e solidários que sejam, ou pareçam ser, seria de todo absurdo exigir-lhes que vivam como eremitas ou franciscanos.
Tal como na origem de outro tipo de ordens sociais, as quais nascem de gestos de abnegação dos seus fundadores e, ao evoluírem, vêm-se perante a acumulação simultânea de capital económico e simbólico, vindo mais tarde ou mais cedo a negar o seu status original.
Cria-se um mito que o vincula ao passado, mantendo-se a retórica, perdendo-se os escrúpulos, por outras palavras, usando um discurso pretensamente fiel aos objectivos que deram origem e motivaram a sua constituição, encobrindo dessa forma, no fim de contas, uma prática conservadora.
Todo o militante político abnegado, aquele que serve e abraça a causa em que acredita, também vive dela. Viver dela e para a causa, é uma diferença muito imperceptível, já que uma se funde à outra.
Como poderemos ou deveremos duvidar da forma sincera ou não, dos que dedicam a sua vida por uma ideologia ?
Será correcto criticar ou condenar a sua nova condição social e económica ?
Será que ao conquistar um cargo, vindo a usufruir privilégios e recursos financeiros proibitivos à maioria dos seus colegas, não será por isso mesmo uma consequência natural da sua militância e ou competência ?
Não foram por acaso esses seus colegas e companheiros que o indigitaram e reconheceram para o desempenho desse cargo ?
Quanto maior a independência económica de um político, maior será a possibilidade de que este viva para a política; quanto menos independente, maior a tendência para se fazer da política um meio de vida, por outras palavras, para se viver dela.
Não é que se coloque em causa ou duvidemos da sinceridade dos idealistas e pragmáticos que vivem para a causa pública, apenas queremos realçar de que em concreto as suas necessidades impelem-nos e condicionam-nos a viverem da política. Esta passa a ser a forma de ascensão económica e social, possibilidade de emprego e ao mesmo tempo conciliar o exercício do poder.
É verdade que determinadas conjunturas sociais produzem uma geração disposta a viver de e para a política. O crescendo das lutas sociais, a demanda pelas liberdades democráticas e um certo idealismo romântico, empolgaram a velha e as novas gerações canalizando os seus sonhos e energias em torno das instituições partidárias, na esperança de uma oportunidade. No entanto, com o passar dos anos, a militância política torna-se, cada vez mais numa actividade restrita a uma clientela minoritária incrustada nos aparelhos institucionais dos partidos e do Estado.
É verdade que os partidos não se ressentiram com esta nova realidade, pelo contrário, os partidos profissionalizam-se aperfeiçoando o marketing e concentrando a sua acção mobilizadora ao aproximar dos processos eleitorais.
A velha militância que colava cartazes, pintava paredes, fazia as campanhas eleitorais e usufruía da vida e alma partidária nos períodos entre processos eleitorais, sente-se atraiçoada e esquecida em detrimento dos favores e clientelas de grupos e facções.
A conjuntura actual apresenta-se desfavorável para estes críticos, os quais apercebendo-se do expurgo a que os partidos e seus dirigentes os sujeitaram, dão origem a uma dissidência surda, levando-os ao encapsulamento político e partidário, optando por um caminho quantas vezes penoso e solitário.

Joao Carlos Soares

Da Preplexidade às Ilusões Perdidas (...cont)


III Parte

Essa esperança, leva-nos por vezes, nos tempos que correm ao ódio, ao confronto de ideias traduzido fundamentalmente em manifestações de rua, incentivadas pela insegurança, descrédito e insustentabilidade social.
Falar de ódio em democracia, pode até parecer um paradoxo, mas ele acontece na maioria das vezes, alimentado por gente que não reconhece outra fonte de poder que não seja a vontade dos cidadãos livremente expressa nas urnas, que defende as instituições em que se materializa o estado de direito e, no entanto, se insurge quase de imediato, contra aquilo a que chama de igualitarismo e o surto sem freio de reivindicações, quer de bens de consumo, quer de direitos individuais ou de grupo, que a democracia alegadamente originou.
O seu alvo aparente não será tanto a estrutura do poder democrático, mas a sociedade que de forma sonolenta, mas contudo ousada, vai crescendo à sombra dessa mesma estrutura, uma sociedade partidária egocêntrica, onde os cidadãos desinteressados da política, parecem não querer senão aumentar indefinidamente os privilégios, levando o individualismo a extremos que ameaçam a própria existência de uma coisa pública, algo em nome do qual tenderá a tocar nos direitos de cada um, mais tarde ou mais cedo, caso nada em contrário venha a ser feito.
Mas, será realmente o individualismo e a conversão das multidões, a razão do ódio democrático ostentado frequentemente por certas elites em análises sociológicas, ou esse será mais um argumento para justificar uma metamorfose sócio-política, de que a própria democracia não se encontra a salvo.
À primeira vista, dir-se-á que a democracia pouco ou nada tem a ver, na sua acepção, com os estados e as sociedades a que, vulgarmente, e de acordo com os mais apurados critérios de análise política, são chamados de democráticos. Se atentarmos com a devida atenção nos tempos que correm, o poder encontra-se ameaçado, quando não liderado por diversos tipos de elites que se conseguem impor à elite política, distribuindo a sua influência por dois ou três partidos alinhados ao centro e remetendo para a periferia do sistema político, os grupos com propostas mais radicais.
A influência dos agentes económicos na organização política e social de um estado, acessório indispensável perante a complexidade dos assuntos sobre que incidem as decisões, encarrega-se de seleccionar e limitar as propostas aceitáveis.
Em nome do saber e da competência, os representantes do povo encarregam-se de desfazer, com o seu discurso e as suas controvérsias, qualquer ameaça que se perfile ao sistema, ou qualquer princípio do que se considera o verdadeiro político.
Uma tal pressão e exclusão acarreta enormes custos ao sistema democrático, pois cada vez que alguma coisa se decide, afastado dos centros nevrálgicos, ou amalgamado em folgados consensos em que os conflitos inerentes a qualquer multidão se entorpecem, o povo anónimo e sem título ameaça voltar costas àquilo que se julgaria ser de interesse comum, enfraquecendo, pela abstenção, a legitimidade dos governos eleitos e entregando-se, na qualidade de puro consumidor, ao seu interesse privado e egoísta.
Julgar-se-ia, porventura, que tudo se encaminharia para o melhor dos mundos, com a massa inteligente do planeta a governar e o amontoado de anónimos pacificamente entregues às delícias do consumismo, reduzidas que foram as divergências a um espectáculo que a economia encena e comercializa, utilizando-se para isso de um lobby a comunicação social, de que igualmente em devido tempo se apropriou.
Por sua vez, a política, expulsa pelos mecanismos de privatização do que é público, ameaça em permanência regressar pelas frestas deste, através dos elementos que não cabem na amálgama do consenso, nem à mesa da sociedade de consumo, sejam eles desempregados, imigrantes, grupos étnicos e religiosos, ou simplesmente insatisfeitos a quem o sistema não permite alcançarem as regalias e proveitos a que têm ou se julgam com direito. Todos estes grupos incarnam hoje o antigo desafio que desde sempre pôs em causa a ordem vigente e foi, por isso, considerado um excesso. É esse excesso, que as elites imputam à sociedade democrática e, recriminam, tanto mais quanto exprimem a sua impotência para levá-los a aceitar a autoridade do Estado.
De certa forma, poder-se-ia dizer que este tipo de visão das chamadas democracias representativas seria catastrófica e assente em fundamentos apenas ideológicos. A democracia, com efeito, assume-se de há muito unicamente como o menos mau de todos os regimes que se conhecem, o que mistura, desde logo, na sua defesa algum realismo. Contudo, aquilo que se pode depreender desse realismo, é a demonstração pura de que no interior de qualquer sociedade democrática, se desenvolvem constantemente confrontos entre os grupos de poder e os valores de igualdade representados e defendidos por essas mesmas sociedades.
A democracia não se confunde com o conjunto de instituições que estruturam as sociedades que se dizem democráticas, uma vez que estas consubstanciam sempre um risco de cristalização dos status e hierarquias, ou seja, de apropriação privada daquilo que é comum.
A democracia não se confunde tão-pouco com um tipo específico de sociedade, seja a sociedade pretensamente igualitária, onde a conflitualidade e o ódio são apenas recalcados, ou a sociedade de consumo, onde o indivíduo se transforma em mero cliente e abandona a sua condição de cidadão participativo.
A democracia confunde-se com a política e existe em cada um dos actos que alargam a dimensão do político, ou seja, dos actos que resistem à monopolização do poder de decisão sobre o que é comum.
Distante, portanto, de representar uma forma de estado ou um modelo de sociedade, ela define-se prioritariamente como uma dinâmica que vai contra todo o tipo de assalto ao poder por um indivíduo, um grupo, uma casta, uma classe, uma religião, uma minoria ou uma maioria, opondo a todas essas formas de possível usurpação um princípio regulador que é o poder de qualquer um, o poder de todo o mundo e ninguém em particular.

Joao Carlos Soares

domingo, abril 29, 2007

Da preplexidade às Ilusões Perdidas (...cont)


II Parte


Continuando a discernir sobre a relatividade de conceitos, poderemos talvez caír no pecado a que os chamados desiludidos caem frequentemente, tentando cobrar do Governo e da governação de José Sócrates, uma postura política que tem vindo a ser negada na própria trajectória do Partido Socialista principalmente nas campanhas eleitorais nos últimos anos.
Esta particularidade vem provocando alguma curiosidade entre os intelectuais, que se escusam de forma deliberada sacrificar a linha de governação do actual governo, sobre pena de ter que vir a arrepiar caminho nas suas estrapolações, tal a surpresa com que são confrontados, cada vez que o governo interfere, provocando quase sempre, reacções as mais contraditórias, mas sempre muito mal suportadas.
De estranhar estas posições e falta de esclarecimento dos “opinion maker´s”, os quais deveriam estar mais preparados, pelo menos teoricamente, para analisarem os fenómenos sociais e a não tomarem somente o efeito pela causa.
Correndo o risco de alguma redundância, é preciso reafirmar cada vez mais veementemente, que a desilusão criada em alguns, é própria de quem ainda vive de ilusões. Quem considerou o PS de José Sócrates pelo que de há muito deixou de ser; quem considerou ou interpretou do discurso de José Sócrates pelo que ele nunca disse nem quis dizer; quem julgou ou imaginou que perante um estado de desgraça governativa do PSD à frente dos destinos do País, passaria pela única alternativa baseada na esperança de mudança, ou o medo na continuidade, pela trajectória irresponsável do PSD; estes alimentando ilusões e, portanto, como não seria dificil de antever, desiludiram-se.
Se a ruptura provocada no seio dos desiludidos foi provocada ou motivada por aspectos conjunturais, então teremos que considerar que estão duplamente equivocados. Afinal, a política dá voltas e voltas, o que é hoje amanhã deixa de o ser, portanto o que é hoje criticado pode ser esquecido pelos bons resultados amanhã conquistados. Os timings são fundamentais na poltica e para os seus executores a objectivação na sua concretização é fundamental.
Para os que se desiludem, devem em primeiro tomar como conceito adquirido, que a política pauta-se principalmente pela ética da responsabilidade, em suma, pelos resultados alcançados.
A crítica interna ou saída do PS, ainda que justificável diante da crítica, nunca poderá nem deverá ser considerada de tardia. No entanto, como dizem as pessoas simples, mais vale tarde do que nunca. Por outras palavras, mais vale tomar a decisão de procurar outros rumos e viver a vida, do que persistir agarrado ao papel de carpideiras.
Para se perceber o que atràs é referido, basta observar que as pessoas simples que compôem a sociedade portuguesa, o Povo, mantêm a esperança e, ainda que definitivamente se vão decepcionando, continuam a ter uma capacidade imensurável em renová-la sempre que necessário.
Talvez isto se possa explicar pela própria condição e concepção de vida que o povo leva, pois não têm tempo para análises políticas e filosóficas. As suas necessidades imediatas traduzem-se e são mais fortes e permanentes dos que os governos e os profetas da desgraça de cada época e que tendem a gerar o desespero.
Para sobreviver a toda a esta carga explosiva e desgastante, resta-lhes a sua capacidade de agarrar o único antídoto que se lhes conhece, a enorme capacidade infindável de renovação de uma esperança a que nunca renunciam.



Joao Carlos Soares
(cont......)

sábado, março 10, 2007

Da preplexidade às Ilusões Perdidas


I Parte



Na época em que vivemos, políticos e intelectuais continuam a insistir na retórica pela retórica, quando a esperança se confronta diariamente com o medo, dando aso ao crescimento do cepticismo, a resignação ou até a preplexidade dos actores, que somos todos nós.
Talvez porque estejam demasiadamente obcecados com os mistérios da governação, postados numa primeira fila da plateia da vida, numa peça da qual são protagonistas, e que por isso mesmo sejam os primeiros a ficarem espantados com o péssimo espectáculo dessa mesma política.
Sócrates é observado pela direita, que contra os mais obstinados, vai conseguindo levar por diante algumas reformas, suportado pela garantia e segurança de uma governabilidade maioritária, mesmo que para isso tenha de entrar em conflito com espaços da sociedade, que numa primeira instância, até lhe serviu como almofada eleitoral, a média burguesia.
A própria esquerda começou a deitar as unhas de fora e, com alguma preplexidade, à medida que o tempo vai passando, argumenta no seu modo tão peculiar de arregimentação de massas, tentando demonstrar que as promessas eleitorais vão caíndo no vazio da rotina e do discurso populista e governamental.

Municiando os seus ataques através dos órgão representativos dos trabalhadores, os sindicatos e respectivas centrais sindicais, acusando o governo de usar práticas e conduta neoliberal, apelidando e denunciando este tipo de políticas, como uma continuidade das politicas aplicadas nos anteriores governos do PSD, as quais visam unica e exclusivamente afrontar e por em causa os direitos dos trabalhadores.
A preplexidade desta forma de governar, tem levado os próprios seguidores e apoiantes de Sócrates, a assumirem posições antagónicas a algumas dessas decisões, como tem acontecido nas áreas da saúde e educação, da qual os Presidentes de Câmara Socialistas bem têm deixado claro, passando do período de boas graças para a crítica aberta e o confronto directo com o governo e a maioria da direcção partidária.
Os resultados têm sido visíveis e são conhecidos através da denúncia de falta de diálogo e prepotência da maioria governamental e seus ministros, provocando e tendendo a provocar a divisão da base social de apoio partidário, o qual se fez reflectir passados poucos meses, olhando-se para os resultados nas eleições autárquicas, onde essa franja de apoio mostrou o deu desencanto e admoestou a maiora de forma inequívoca, proporcionando uma derrota ao PS nas urnas com consequências que se fizeram sentir por todo o País.
Esta atitude governativa de Sócrates, é utilizada pelos mais cépticos como força retro-motriz, que em vez de se alimentar da receptividade e energias emanadas da governação socialista na relação com a sociedade civil, enfraquece e deixa cair as bandeiras de mudança e compromissos, provocando desconfiança e perda de identidade.
Diante disto, a tarefa de uma esquerda interna que vinha a disputar posições políticas no Partido, enquanto este actua despudoradamente como correia de transmissão do governo, poder-se-á considerar quase como uma tarefa inacessível e hercúlea.
A falta de esperança leva à desilusão, no entanto, não deixa de ser notável que tanto os perplexos quanto os que perderam suas ilusões confundam as críticas pertinentes com cobranças equivocadas. Há os saudosistas que criticam o PS por ter negado as origens do socialismo.
Imaginam que o partido renunciou ao espírito revolucionário de esquerda, reafirmando apelos a um socialismo sem definição, sintetizado em soluções políticas mais próximas da social-democracia, expressando uma retórica e apelando para o consenso interno, adaptando-se ao momento nas emanações que vierem do governo, não permitindo sublevações esquerdistas, esquartejando e reduzindo as tendências internas.
Para muitos, a eleição de Sócrates representava expectativa e esperança, mas começam agora a perguntar se terá valido a pena os anos dedicados à militância. É compreensível. Afinal, são vidas que se consumiram em reuniões e atividades partidárias na defesa intransigente de causas e projectos.
O crescimento do aparato partidário e a sua estatização, a acomodação interna de conveniências aos jogos eleitorais, transformam o partido numa máquina trituradora, anulando qualquer voz dissonante e abafando todo ou qualquer discurso crítico, absorvendo-o e minimizando o seu impacto pela desvalorização do seu conteúdo, reduzindo essa intervenção à participação controlada e encenada dos congressos e convenções.
Os críticos, como parte da máquina partidária estatizada, acabam por moderar ou anular os seus discursos ou divergências, perante necessidades internas concretas, impostas pelas disputas internas de processos eleitorais mais ou menos negociados.
Numa primeira análise, o erro não está em Sócrates nem no seu Governo, o erro está esse sim, na avaliação da sua postura política interna, negada na sua própria trajectória partidária.


(cont....)


Joao Carlos Soares

quinta-feira, março 08, 2007

08 de Março - Dia Internacional da Mulher

A todas as mulheres


Que amanhã continue a ser sempre o teu dia

Corrupção e Sistema (...cont)

Parte V


A corrupção é um péssimo espectáculo que enoja o cidadão comum.
Quando esse espectáculo tem como protagonistas os políticos, ainda mais desacreditada sairá a actividade política, fazendo com que os analfabetos políticos, aqueles que primam pela indiferença e detestam a política, se regozijem e fortaleçam nos argumentos pela indiferença, o não envolvimento na política, e a abstracção nas decisões em comunidade.
A ingenuidade e a moralidade abstracta, oculta e dissimula infelizmente algum egoísmo dos que não conseguem pensar nem querem ver para fora do seu casulo.
Essa indiferença contribui para a manutenção e reprodução dessa corja de ladrões que, espreitando os cofres públicos, estão sempre disponíveis e prontos para dar o golpe de asa à primeira oportunidade que tenham. Tal como Pilatos não impediu a morte de Cristo ao lavar as mãos, também aqueles que se recusam a fazer parte da decisão na sociedade a que pertencem, estão de forma inconsciente mas consequente a alimentar a corrupção.
Aqueles que vêm alimentando ou cultivando a indiferença perante a sociedade ou defendendo e promovendo o egoísmo ético de particulares, torna-os a eles próprios coniventes. Num estado democrático de direito, a gestão da coisa pública é responsabilidade de todos nós.
De uma coisa podemos estar cientes, quando os políticos deixarem de ser responsáveis e responsabilizados pelos negócios do Estado, então podemos ter a certeza que o sector público pode estar sem rumo e completamente perdido.
Meter todos os políticos no mesmo saco, nivelá-los pela mesma bitola e atribuir-lhes a podridão da corrupção em exclusividade, é um erro que não pode nem deverá ser cometido, sendo com certeza um equívoco de avaliação a evitar. É verdade que são os políticos aqueles que mais expostos estão, no entanto chamo a atenção para factores que são de extrema importância contemplar. Não há corrupção sem corruptores e corrompidos, como diz o ditado “ A ocasião faz o ladrão, a necessidade também o faz”.
Não podemos nem permitiremos que a hipocrisia nos ofusque o raciocínio e a razão. Exigimos ética e compromisso aos políticos como se esta fosse uma exclusividade restrita ao submundo da política e dos políticos. Mas e então o resto da sociedade? Quando um ladrão se apodera do alheio e o transacciona junto de receptores, estes tornam-se tão culpados quanto os autores.
Nós não procedemos assim. Só os outros é que o fazem!. Afirmam uns, desculpam-se outros.
Então como se justifica e compreende que desde que se processam alterações no xadrez político, o conhecimento, a sabedoria, a eficácia, a experiência, enfim a competência passem de um momento para o outro a fazer parte de características próprias em exclusividade dos acólitos dessa mesma força política?.
Quem de nós não subornou ou foi tentado a subornar?, mesmo que o significado do acto, pouco ou nada signifique num contexto generalizado de uma sociedade comparativa de grandezas?.
Ou não vivemos numa sociedade onde a honestidade é sinónimo de burrice, de ser trouxa, ou corremos o risco de ser bobos, quando a sociedade competitiva parece premiar os mais espertos, os egoístas, os mais ambiciosos?.
A bem da verdade, o ladrão aproveita a ocasião. Quem de nós nunca foi tentado? Quem de nós não cometeu algum deslize perante a ocasião? Quem foi tentado e não caiu em tentação? Quem conseguiu manter a coerência entre pensar e agir, discurso e prática?
Os homens têm que ser julgados pelo seu trabalho e apenas através dele é que podemos comprovar a sua capacidade de resistir à tentação.
Aos que denomino de analfabetos políticos da chamada tentação da política, o seu único prémio é a ignorância, e que muitas vezes, enojados e cansados perante o espectáculo proporcionado pelos sucessivos governos, nos seduzem a segui-los sucumbindo à rotina do quotidiano, consumindo e desgastando valores e causas.
Só as bestas não reflectem sobre a situação do Mundo e da sociedade em particular. Por mais distraído que seja, o ser humano tem capacidade e condições de criticar, compreender e projectar o seu próprio futuro. Isto é que nos diferencia dos demais animais e nos torna no único animal capaz de produzir cultura contribuindo para a sua própria história.
Não chega criticar os que prevaricam, é indispensável e aconselhável superar o comodismo a que os analfabetos políticos se submetem constantemente. Não se pode nem se deve exigir ética na política ou formar uma nova geração de cidadãos politicamente activos, consciente dos seus deveres e direitos, dotada de capacidade de poder vir a assumir a defesa da justiça social, se os nossos exemplos se pautarem pelo contrário.

Afinal de contas, até os ladrões têm a sua ética.



João Carlos Soares

sexta-feira, março 02, 2007

Bento deixou-nos



A dignidade de um homem entre os seus pares.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Corrupção e Sistema (...cont)


Parte IV


Se alguma coisa os textos que apresento não pretendem de todo, é macerar aqueles que perdem tempo em lê-los, nem utilizar rectóricas anarquistas, muito menos utilizar argumentos heterodoxos, tentando transmitir de forma descomprometida, aquilo que me vai na alma, quase como obrigação, compartilhando os meus temores com quem tal esforço faça.
O compartilhar reflexões sobre política de esquerda, serão desde sempre os objectivos que me motivam.
Confesso, que sempre usei do meu direito, enquanto cidadão, de contribuir com o voto nas urnas para a consolidação do sistema eleitoral vigente, respeitando contudo aqueles que assumem posição contrária, não usando desse direito, mas servindo-se dessa posição igualmente como opção legítima.
Não quero fazer julgamentos morais a quem usa desse direito, tal como não é minha intenção concordar ou discordar de quem se serve desse direito, como forma de mostrar o seu desagrado e insatisfação.
Por outro lado, é com respeito e admiração que encaro todos aqueles, que aceitaram a opção da política nas suas vidas, perfilhando conceitos e valores através da institucionalização partidária. Só dessa forma se entende que um número cada vez maior estará em consonância na crítica social e política na defesa dos princípios em que ainda acreditamos.
Tem que ser com respeito e admiração, a forma como devemos encarar todos aqueles que nas bases partidárias, se expôem e entregam de corpo e alma, a um projecto político no qual acreditam e apostam, investindo todas as suas energias na militância partidária como única motivação.
Já o mesmo não defendo nem posso aceitar, quando uma estirpe de intelectuais, conselheiros e comissários políticos, instalados e encastelados abastadamente nas torres das instituições públicas, através de nomeações e pactos de regime partidário, mas que não têm nem desempenham qualquer papel ou compromisso nas áreas sociais e políticas, nas comunidades que os sustentam.
Contudo, estou convencido que na actual conjuntura, a abstenção nunca poderá ser a alternativa para consagrar um descontentamento crescente, o qual venha a questionar através do voto a falta de legitimação do sistema político e eleitoral, consciente que o caminho deverá passar e vir a concretizar-se num acto consciente pela anulação do voto nas urnas.
O peso do voto nulo em processos eleitorais, pode contribuir num futuro próximo, de forma inquestionável na transformação indispensável das instituições representativas, bem como no garante da defesa da própria democracia, através do choque que provocará na política convencionalmente aceite.
Institucionalmente, a política foi quase sempre uma actividade muito restrita a uma minoria da sociedade. Após o 25 de Abril com a instauração da democracia participativa, todo o panorama sofreu roturas com o passado e a liberdade participativa das populações tomou conta do palco político.
Passados mais de 30 anos de democracia, sentimos algum retrocesso ao conceito de representatividade, a qual começa a ser questionada e posta em causa inclusivé no interior das instituições representativas, que são os partidos.
Entre os conceitos de democracia, existe a ilusão de que o exercício da política é uma actividade de massas. Nada mais despropositado, pois o voto em cada acto eleitoral não pode ser considerado como sinónimo de participação activa na política, mas simplesmente o exercício de um direito e um dever de cada cidadão em democracia.
Estudos e consultas junto do eleitorado e actos eleitorais recentes, vêem mostrando cada vez mais o abstencionismo dos cidadãos, bem como num acréscimo de absentismo dos cidadãos em actos de cidadania.
O descrédito na relação da comunidade com os políticos e com a política, é uma reacção que é facilmente compreendida. No quotidiano do cidadão comum, a necessidade de conveniência impele cada indivíduo a viver absorvido e imerso nos seus problemas, desejando acima de tudo, para que na melhor das hipóteses, não vejam as suas vidas atrapalhadas com medidas e acções dos políticos.
Vão acompanhando o que se vai passando através dos jornais, televisão, etc..., absorvendo no máximo aquilo que lhe poderá vir a afectar directamente a sua vida, descorando e não levando em conta os noticiários políticos, como se estes em nada lhes dissesse respeito.
Esta reacção é sintomática da abstracção a que este mundo da política é votado pela maioria da população, que acha que a política e as coisas da política, se restringe apenas a uma determinada classe social. Parece-lhes que os políticos vivem numa esfera diferente das suas. Quer a classe operária, quer os empresários que não estão envolvidos nas suas instituições de classe, apenas esperam que os deixem viver sem grandes sobressaltos e traumas. Para este tipo de pessoas, os políticos e a política são simplesmente um estorvo, aceitando-os no mínimo como um mal necessário à sociedade a que pertencem.

Serão estes personagens da sociedade, num futuro/presente uma espécie de analfabetos políticos?


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João Carlos Soares

Corrupção e Sistema (...cont)

Parte III

Nada pode ser mais preocupante em qualquer sistema democrático, que o aumento da falta de confiança nos representantes eleitos.
Nesse momento, toda a sustentabilidade e legitimidade na qual o sistema se alicerça, cai por terra, desmoronando-se fatidicamente, abrindo caminhos a movimentos duvidosos, proporcionando a ascensão de déspotas oportunistas, os quais servindo-se do efeito dominó, fácilmente ganham apoios e congregam em seu redor órfãos de uma sociedade em rotura.
É indispensável que os partidos comecem a perceber este binómio, desenvolvendo políticas que se enquadrem em respostas efectivas às necessidades dos mais desfavorecidos, decisões estratégicas equilibradas, onde a transparência e a lucidez dos seus dirigentes, torne a conquistar, ganhando a sua confiança, aqueles que foram perdendo quando se esqueceram a quem serviam.
É verdade que estamos na era do descartável, é verdade que estamos no tempo em que as mais valias se sobrepôem aos valores de uma sociedade justa, é verdade que nos esquecemos de onde vimos, mas não podemos esquecer como e para onde queremos ir, e que esse objectivo nunca poderá vir a ser atingido, sem que haja coragem para romper e quebrar estigmas, afrontar e confrontar ideias e preconceitos, sobrepondo sem qualquer tipo de receio a razão e a justiça.
Só assim a população que nos elege voltará a acreditar nos seus representantes.
Vale a pena observar que essa descrença e falta de confiança não se resume a este ou aquele partido ou facção política, mas tornou-se nos últimos tempos, num crescendo que varre todos, sejam eles de esquerda, centro, direita ou radicais.
A prática nos partidos das estratégias de terra queimada e descarado clientelismo, têm de uma forma quase acintosa gerado feridas dilacerantes no seio da militância partidária, as quais se fazem sentir, a cada dia que passa, numa contestação e num contraditório sem freio, atentando contra tudo e contra todos, num claro desafio à liderança, quartando toda ou qualquer hipótese de concretização dos objectivos programáticos definidos e consignados nos programas sofragados.
Esta crise que atinge a sociedade portuguesa, não sendo uma exclusividade da esquerda, torna-se mais notada, em virtude dessa mesma esquerda não ter a coragem de assumir em primeiro lugar a defesa dos interesses daqueles com quem se identifica, e dos seus executores se colocarem numa situação egoista, preocupados consigo próprios num quadro institucional de poder, salvaguardando os seus interesses directos em detrimento daqueles que os elegeram e em quem confiaram o seu futuro.
A classe política tem que entender que tal como referi no início deste texto, estamos numa era em que cada vez mais o descartável é regra, mas não poderemos, nem consentiremos que nos tratem como um qualquer assalariado, em que os únicos direitos que lhes são reconhecidos e consignados são a obediência, a ignorância e a resignação.
A estatização dos partidos, resultante da dependência dos mesmos enquanto poder, serve e aplica-se conscientemente para evitar tudo quanto possa contradizer, ou por em causa o Governo. Esta teoria serve e é o mesmo que dizer, que os partidos desvirtuam e deformam os seus conceitos e crenças, transformando-se em organizações permanentemente ameaçadas pelo poder estatal, num forte, envolvente e sufocante abraço, a todos aqueles a quem deveriam proporcionar uma cada vez maior qualidade de vida.
Pelo contrário, aquilo a que somos chamados a assistir como testemunhas, não passa de um pesadelo criado pelas elites, onde os interesses dos mais desfavorecidos só servem para ilustrar caricaturas de mau gosto, onde o que apenas não mudou, continua a ser o discurso político do partido.


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João Carlos Soares