domingo, janeiro 28, 2007

Corrupção e Sistema

Parte I
Os problemas do “sistema” na política, acumulam-se num crescendo de indiferença dos homens e das mulheres do dia a dia, diante da política e das políticas instituídas pelos profissionais da mesma, que vivem numa minoria, disso e para isso, envoltos em limites e esquemas mais ou menos mal disfarçados, mas consentidos.
Quer a política quer os políticos, são uma coisa com a qual a sociedade não gosta e detesta, mas com a qual se obrigada a aceitar e conviver. Por essa razão, para além da sua própria conduta, fazem com que cada vez se torne mais difícil a alguns políticos, se diferenciarem ou, pelo menos, poderem vir a convencer os seus eleitores, que são e podem ser diferentes.
Cada vez mais a democracia representativa e o seu sistema, se confrontam com a sua própria capacidade sustentável, tendo alguma dificuldade em conciliar a atitude política com a actividade vinculada a uma institucionalidade que se pretenderia identificada e conhecedora da realidade social.
O mundo dos “eleitos”, parece ser coisa de outros mundos, é como se aquilo que se passa na sociedade, com os quais somos confrontados nos meios de comunicação, a nós não dissesse respeito, sendo exclusividade só de alguns, os outros, porque se lá estão, então que se entendam.
Nada mais errado.
O efeito dessa forma de entender a acção participativa dos cidadãos na sociedade, potencializa cada vez mais a crise nas políticas adoptadas, e é suficiente para que os valores que nos regem e deverá assentar toda a actividade política, se esvaziem e descredibilizem aos olhos dos mais atentos, bem como aos perigos adjacentes ao descrédito face à política naquilo que denominamos de Democracia.
A crise reconhecida dessa mesma democracia, representativa do sistema partidário na qual se fundamenta, deixa transparecer o vazio e a falta de preocupações sociais, argumentando-se aos quatro ventos, quer por altas individualidades do sistema, políticos ou intelectuais, a preocupação emergente que clama incessantemente por reformas políticas.
O descontentamento contra os políticos e as instituições como o Governo, Parlamento, Autarquias e até o Presidente da República, geram uma onda de falta de confiança dos cidadãos, em quem delegaram a sua esperança, podendo vir a pôr em causa a legitimidade do regime, colocando a própria democracia exposta à sua própria contextualidade.
Para garantir a independência dos cidadãos perante as estruturas do poder, poder-se-á admitir a desconfiança como forma de reacção a qualquer desmando ético ou político da vida pública, desde que essa desconfiança não ultrapasse os limites do descrédito e os cidadãos na sua maioria não se sintam defraudados.
A ineficiência e a indiferença das instituições democráticas perante a corrupção, fraude e desrespeito a direitos adquiridos, consagrados e assegurados pela lei, catalizam e abrem caminho à falta de compromisso social do estado e ao aumento da criminalidade.

Joao Carlos Soares
(Cont.........)

domingo, dezembro 31, 2006

Boas Festas


Que o Ano de 2007, seja para todos o início de algo em que sempre acreditaram, com paz, amor, saúde e acima de tudo com muita, mas muita compreensão entre os Povos e os Homens de boa vontade.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Aborto, Pedofilia e Eutanásia


Um olhar pela consciência

Quando se fala de crianças, seres que pela sua vulnerabilidade e exposição a uma sociedade estigmatizada, madrasta e predadora, transmite aos mais atentos, a precisa noção de precariedade e desconforto, como os mais altos órgãos responsáveis do Estado deste país se pronunciam e tomam medidas sobre esta matéria.
A sociedade é responsável e o garante, a par do Estado, da função de vigilância e segurança, respeitando a família e seus valores morais. Não significa isto substituir-se à família na sua essência, mas reforçar e fortalecê-la, nessa natural função protectora a crianças e adolescentes.
A liberalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, nos últimos anos, vem ocupando um espaço de debate e contradições, tendo já sido sujeito há alguns anos a referendo, que na altura entendeu dar aos mais cépticos a garantia do impedimento legal, dirimindo entre a esquerda e a direita o poder de uma liderança à custa do valor ao direito ou não à vida.
O direito à existência é matéria que divide corações, questiona a ética, gera polémica aos mais diversos níveis da sociedade, enfim, questiona-se a si próprio sobre a razão de decidir e usar esse direito por qualquer ser vivo.
Vamos ser chamados brevemente, já no próximo mês de fevereiro de 2007, a tomar a decisão mais difícil da nossa vida, que é decidir sobre a opção de escolher a nossa própria razão de existir
O nascimento de uma criança provoca inevitavelmente reacções inequívocas de júbilo, mas ao mesmo tempo atenção, cuidados e muita preocupação. Basta mencionar as constantes notícias sobre denúncias feitas por adolescentes e crianças, dilaceradas pela conspurcada e maquiavélica seita de pedófilos, que tal como vampiros, se alimentam destes inocentes, a coberto de uma justiça morosa e impotente.
O tema pedofilia, arregimenta normalmente um conjunto de opiniões públicas e penaliza inequivocamente os seus autores, exigindo de imediato ao Estado, uma intervenção enérgica sobre esses criminosos. É função do Estado interpretar, fazer julgar e cuidar de todos esses casos identificados.
O poder e a autoridade que o Estado tem para proibir qualquer tipo de incitação à pedofilia, bem como a qualquer outro crime, coloca algumas dúvidas em diversos sectores da sociedade, sobre a sua autoridade e poder de decidir sobre a continuidade ou não da vida, argumentando que decidir ou não pela vida, poderá considerar-se uma outra forma não menos maquiavélica de vampirismo, que para alguns se compara em mediocridade de valores à pedofilia.
A atitude do Estado neste assunto tão delicado como a pedofilia, apresenta-se como um guardião da moral e respeito pela segurança e protecção das crianças, prestigiando-se assim, como o maior responsável pela contenção na propagação da pedofilia, assumindo-se como se de um pai se tratasse acima de todos os outros pais, mantendo uma imagem de perfeição, honestidade, integridade, e pleno de boas intenções.
Mas será que na realidade o Estado se comporta como um pai? O Estado será realmente um pai acima de todos os outros pais?
Em princípio essa será a pretensão da sociedade, ou é induzida a querer.
Ao fim e ao cabo essa é a pretensão de todos nós.
Um Pai não mata nem manda matar!
Como tal, terá que ter uma atenção muito especial, clara, lúcida e ética, como irá conduzir um processo onde a demagogia e a controvérsia, irão assumir níveis de confronto extremados, relegando o nuclear da questão para cenários onde os actores terão muita dificuldade, em contrapor argumentos válidos, perante questões consideradas de suma importância, como a saúde pública, considerando-se que a saúde pública sexual ou reprodutiva, não serão uma questão de livre escolha, porque somente aos assassinos se observa a escolha de matar.
Não podemos admitir, ou melhor, não poderá a sociedade exigir, que ao Estado seja imputado o ónus da decisão. O Estado apresentando-se como o defensor máximo das crianças, não poderia nunca assumir, neste caso, um papel que contrariasse e hipotecasse frontalmente essa imagem e esse dever. Esta é uma decisão, na qual o Estado se confrontará perante o resultado a sufragar, no sentido de aplicar e fazer aplicar uma decisão a que todos nós dirá respeito e responsabilizará.
Liberalizar ou por outras palavras, despenalizar a Interrupção Voluntária de Gravidez, aborto, terá que ter em conta e observar de forma inequívoca, que a interrupção de um direito à vida, só poderá ser tolerada e admitida, cumpridas as condições de acompanhamento e apoio técnico a nível de um planeamento familiar, que este processo implica, não colocando em risco a saúde de quem o pratica, nem tornando o acto como uma prática corrente e subsequente de um mau ou inexistente planeamento familiar, transformando-se como prática comum e imoral.
Quando uma mãe decidir impedir o acesso à vida de um ser que gera dentro de si, será com certeza confrontada e flagelada pela razão da sua própria existência. Se alguém, antes de si, tivesse tido a mesma oportunidade de decidir.
Interromper um processo de vida às dez semanas, colocará no futuro uma outra questão relacionada com a vida, a Eutanásia.
A Eutanásia só por si gera controvérsia e radicaliza dois lados com valores intrinsecamente associados, mas ambos identificando-se como inegáveis defensores da dignidade humana.
Vindo a ser, ou não, legalizada a IVG, irão ser usados argumentos por ambas as partes, na qual os princípios que se colocam perante a existência ou não de um direito de decidir sobre a vida, se sobrepõe à ética e à consciência moral de quem decide.
Não será, pois, nem o poderemos permitir, uma opção de esquerda, centro ou direita, mas sim de um direito e um dever a que nenhum cidadão se deverá escusar.

Joao Carlos Soares

domingo, novembro 26, 2006

Estado de Crise

Consequência !
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Na verdade, confirmando-se as denúncias e indício crescente no relacionamento de promiscuidade entre governo, classe política, partidos e administração pública, seria de esperar da parte dos responsáveis, uma atitude musculada e condizente com a exigência de uma gestão transparente e dirigida à solução dos problemas do bem público.
Outra coisa não seria de esperar, não fosse a desconfiança como o cidadão comum se vê confrontado no dia à dia, assistindo ao desenrolar de casos que envergonham uma qualquer sociedade que se pretende socialmente justa, para a qual constantemente são chamados a fazer todo o tipo de sacrifícios em nome da recuperação e estabilidade do país.
Não podemos, contudo, pedir sacrifícios a uns, quase sempre os que menos têm a ver com as decisões erradas de gestão, continuando a permitir que os principais responsáveis pelas situações de crise, que variando de governo para governo, são sempre os mesmos, continuam a desbaratar todo um capital de sacrifício de uma população desiludida, cáustica e incrédula, perante a forma como aqueles em quem entregam o seu futuro, continuam de forma abastada e completamente irresponsável, a tomar decisões que hipotecam e desbaratam esses sacrifícios.
Será que vamos continuar a aceitar impunemente um sistema que permite a prática vergonhosa de indigitar e colocar pessoas em lugares estratégicos, única ou quase simplesmente, com a intenção de facilitar e promover o financiamento na vida partidária e eleitoral, tal como garantir o reforço da sua clientela partidária.
Esta situação, infelizmente, parece ter sido o expediente que criou raízes, utilizado para concretizar e disponibilizar meios e recursos para todo o tipo de campanhas, as quais de acto eleitoral para acto eleitoral, consomem consideráveis recursos financeiros, que não estão como todos sabemos, ao alcance das fracas e débeis finanças partidárias.
Que isto aconteça a partidos de direita, não será de admirar, pois a sua forma de atingir os fins sem olhar a meios, já é do conhecimento geral, agora, partidos de esquerda, deixarem-se submergir por essa lógica movida a dinheiro, já não poderá ser considerado assim tão normal, nem aceitável.
Não sei até que ponto, esta afirmação, possa ser considerada por alguns polémica, criticável e extemporânea. Pelo que constatamos na realidade, é infelizmente quase por regra, aquilo que se passa com pessoas que lutando fora das estruturas partidárias, no início da sua intervenção política, na qual defendem e professam valores de transparência e equidade, são envolvidos por essas estruturas, e de forma quase inevitável, se deixam manipular, ou são triturados pela maquiavélica máquina partidária, esquecendo tudo o que sempre os motivou
É costume dizer-se que por vezes, para se mudar um sistema, será necessário entrar nele, conhecê-lo, conviver com a realidade dos factos e depois promover as transformações que se entendam como necessárias.
Este princípio significa na maioria das situações, usar de inteligência, perspicácia, entrega total na defesa dos conceitos e valores que entendemos serem o garante de um Estado democrático, tolerante e socialmente equilibrado.
Muitas das vezes também significa o conhecimento profundo, só acessível a alguns, das realidades com que são confrontados na malha partidária de interesses e grupos instalados, e o apontar para a retirada de um campo de batalha, onde se sacrificam sempre os que mais se expõem e não aceitam esse destino, de que alguns se acham donos e senhores.

Joao Carlos Soares

sábado, novembro 25, 2006

Verdade ou Consequência


No Fio da Navalha
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Deverá ser de uma forma acalorada, no mínimo apaixonada, que deveremos manifestar perplexidade e repulsa pela forma displicente com que a esquerda europeia se deixa afundar, num curto prazo, de uma forma ostensiva e promíscua, entregando-se de corpo e alma aos negócios e interesses dos grandes grupos económicos.
Esta situação, de certa maneira, pode fazer periclitar a estabilidade democrática e os alicerces de uma sociedade de nações agrupadas debaixo de uma bandeira, no pleno respeito de cidadania em estados de direito, girando em torno de meia dúzia de actores, representando interesses em nome de uma globalização atormentada por dúvidas existenciais em referendos, onde os sentimentos da população vão sendo expressos de forma clara, desacreditando os seus líderes.
Não estamos perante uma qualquer situação isolada mas, pelo contrário, em sucessivos resultados que pretendem contrariar as grandes decisões para o futuro desta unidade europeia.
As maiorias absolutas com que alguns eleitores em sucessivas eleições locais, em alguns destes países, outorgam aos sucessivos apelos e promessas com que os líderes partidários se apresentam, tendem, inevitavelmente, a transformar-se em grandes desilusões.
A situação de promiscuidade permitida, envolvendo uma administração pública permeável aos interesses privados e à força dos negócios, permite-se à acomodação de excessivos cargos de confiança política, através das mais diversas nomeações a nível dos ministérios e empresas públicas, conforme é tornado público em notícias emanadas nos diversos meios de comunicação.
Não são propriamente dito as nomeações de confiança política, só por si, o mal da gestão da coisa pública se essas nomeações representassem e espelhassem uma qualidade inquestionável. Pelo contrário, se atentarmos bem nessas nomeações, elas gravitam sempre dentro de uma conduta cíclica, do agora entras tu, amanhã entro eu.
Tendo como cenário uma bipolarização política governamental, somos confrontados com elencos constituídos por profissionais do interesse privado, gerindo de forma amadora e intencionalmente o bem público.
Não é difícil de entender se percebermos que esses gestores não fazem nada mais do que garantir, num futuro, a desacreditação da gestão pública, através da submissão aos interesses privados e seus amos.
Quando se fala em gestão privatizada do sector público, como sendo uma forma inovadora de modernidade europeia, significa isso não uma forma de gerir estatalmente uma série de serviços, onde o lucro é a satisfação produzida nas populações, no reconhecimento para onde vão e são aplicados os seus impostos, mas sim, uma forma de camuflar os interesses particulares no seio do Estado, constituindo-se os seus negócios como um todo.
Perante este panorama, muito dificilmente poderemos considerar a hipótese da defesa dos interesses do bem público, através do rigor e da competência, garantindo a justiça social direitos de cidadania, consignados na nossa constituição.
A ignorância dos povos e o déficit cívico da população foram gerando desencanto e insatisfação, transformando-se quase numa epidemia letal que, tal como as pragas que arrasaram civilizações noutros tempos, transformam-se actualmente no cerne do sistema político e partidário, dando-lhe a legitimidade que precisam.
Temos que construir barreiras a este sistema, suportado por um casamento social de interesses, onde a correlação de forças se dissimula numa falsa hegemonia, onde a moral deixa de ser factor importante e a política e os políticos não conseguem disfarçar o conluio dos interesses privados.

Joao Carlos Soares

domingo, novembro 19, 2006

Qual é o Propósito da Política?

Interesses, Disputas e Propostas

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O conceito de política em si começa por desencadear sentimentos contraditórios, sabendo-se desde à muito, que é esse conceito polémico a expressão representativa dos diversos interesses em conflito na sociedade. A arbitragem dos interesses em conflito é, ou deveria ser do povo, que ao fim e ao cabo significando tudo, através do direito de escolha nos processos eleitorais, pode muito simplesmente desempenhar um papel menor, onde o seu desempenho pouco ou mesmo nada significará, se não exercer a única ferramenta possível para dirimir publicamente a sua insatisfação, para com aqueles a quem delegou a sua confiança.
A política alimenta-se de polémica, onde os mais diversos interesses económicos, sociais etc., se manifestam através da paternidade e disputa de ideias e propostas em permanente negociação. Diziam os filósofos que “o objectivo da política não é viver, mas viver bem". A ideia que nos é transmitida correntemente hoje, de que a política é a luta constante pelo bem comum das populações, pela justiça, segurança social, etc., transporta-nos à tradição de Aristóteles, mesmo à filosofia política de Platão e ao pensamento cristão medieval.
Constatamos, por exemplo, que estas ideias são fundamentadas em diversos sectores. Na teoria a maneira como se concebe a política, transmite-nos e indica-nos o caminho para concepção de uma sociedade justa e igualitária etc., através de governos responsáveis e preocupados com a real situação das populações.
Esta ideia que alimenta e estabelece padrões de confiança, através da identificação e militância partidária, movimentos sociais, associações e sindicatos, traduzem-se na construção de uma utopia à qual dedicam a sua vida na constante procura do bem comum.
Como se depreenderá, tomando como moderados estes conceitos, na política nem tudo cheira a perversão, quer concordemos ou não com as suas ideias e propostas, ainda consideramos existirem idealistas, os quais consagram boa parte do seu precioso tempo, ao destino e qualidade de vida da comunidade.
Esses que ainda se podem encontrar na política, vivem na esperança da concretização de um sonho, de uma sociedade onde a enfermidade social presente no nosso quotidiano, e que laceram os nossos corações, sejam superadas e banidas.
Contrastando com a insensibilidade dos nossos governantes perante as questões sociais, ainda há pessoas que se sensibilizam com uma qualquer campanha solidária, ou com a falta de esperança dos trabalhadores, consternados com a sua cada vez maior dificuldade em conciliar e garantir o seu posto de trabalho, e a falta de perspectivas num futuro que se esvazia numa morte à muito anunciada, como se de um cortejo fúnebre se tratasse.
Deixemos as mazelas que a nossa sociedade enferma e alimenta. Afinal, se olharmos com mais atenção e atentarmos nesse quadro sombrio, que teimamos em eternizar, é para a grande maioria, natural, sem qualquer tipo de relação com a política. Regressemos então a incidir a atenção sobre aqueles que continuam de forma idílica na procura do bem comum na sua prática política. Mesmo sendo imprescindíveis, esses homens e mulheres sofrem de uma teoria sobre a política, carregada de alguma ingenuidade.
Se tal como afirmamos, a política é essencialmente a oposição e a luta entre interesses diferenciados e antagónicos, então a ideia de política, como sendo a busca incessante do bem comum, é um projecto não realizável, contrariando os objectivos existenciais da própria política. Política é sobretudo a arte de conquistar, liderar, dominar e manter ao fim e ao cabo o poder astucioso de alguns privilegiados.
Pensar na superação dos interesses individualistas e egoístas, ou por outras palavras, na predominância do colectivo sobre a lógica que anima toda a sociedade significa, em última instância, o sonho da existência de uma sociedade onde a política e o Estado não mais fossem necessários.
Enquanto houver necessidade de uma busca incessante do bem comum, para o equilíbrio e razoabilidade numa sociedade justa, os seus fins serão tantos quanto os objectivos que aos grupos económicos e políticos se coloquem. De uma coisa podemos estar certos, na política não existem fins estáticos e perpetuamente definidos.
Nesse contexto, o bem estar das populações, a justiça, a preocupação de governar para as populações, são meios ideológicos ou não passarão de pura retórica, da qual tanto se irão servir os idealistas como os grupos económicos instalados e politicamente dominantes na sociedade que, procuram fazer-nos acreditar permanentemente, que os seus interesses específicos são também os nossos. Tomamos consciência disto, através da ilusão da existência de um Estado guardião dos interesses das populações, como se neste jogo político entre classes e grupos sociais, se colocasse numa posição de completa neutralidade.
Desmistificar a ilusão democrática da política e do Estado como agentes e defensores das populações, parece-me um princípio gerador de alguma polémica. É verdade, mas que seria da política se não houvesse polémica. Anular pensamentos divergentes foi, e ainda continua infelizmente a ser corrente, o sonho dos mais respeitados ditadores de todos os tempos, e dos que sempre atentos e à espreita dos deslizes da sociedade, agarram a primeira oportunidade, disfarçados sob as máscaras de democratas impolutos de última hora.

João Carlos Soares

sábado, novembro 18, 2006

Buraco

Pela graciosidade do boneco, bem como pela sua contínua actualidade,
não me dispenso de o publicar.

O buraco...

Há obras que nunca estão terminadas. Com os buracos é assim: quanto mais se tira maiores ficam... Neste momento já se conseguiu atingir uma prodigiosa profundidade mas fontes muito próximas do buraco (em queda iminente) garantiram-nos que o plano de trabalhos anteriormente definido é para cumprir e que as obras vão continuar a bom ritmo.
A breve prazo podemos, pois, ambicionar uma entrada honrosa para o Guiness Book na categoria dos maiores buracos. O Presidente da República apelou já a um esforço nacional concertado no sentido de aumentar consideravelmente o buraco. À semelhança do que aconteceu durante a realização do Euro 2004, com as bandeiras nacionais tão orgulhosamente exibidas, é preciso que as ruas das nossas cidades, vilas e aldeias fiquem pejadas de buracos - algo nunca visto! Para isso cada português deverá encher-se de brio nacional e vir à janela mostrar o seu buraco. Estamos certos de que os altos responsáveis governamentais se sentirão estimulados por esta imensa e profunda demonstração patriótica e daí retirarão as necessárias ilações. A bem da Nação! Viva Portugal!

A única coisa que não mudou, foi de encarregado !...... .


(Fonte identificada...)

Terrorismo Partidário

Terrorismo Partidário

Acho que apagar o passado começa a fazer parte de uma estratégia miserabilista e altamente reprovável. Apagar o passado, é retirar sentido ao presente, obscurecendo-se a visão do futuro, e a vontade na actividade e nas dinâmicas de percurso na política.
A mania de cada um se considerar superior aos outros é uma praga. Os alemães também queriam ser superiores a todos. Muitos conseguem convencer-se que dominar os outros faz parte do seu destino, não adiantando, na maioria dos casos convencê-los que a tentação do poder poderá transportá-los a excessos desmedidos.
A realidade é que, em termos políticos, convencerem-se de que têm pela frente uma janela de tempo particularmente favorável, uma oportunidade única, poderá transportá-los para uma derrocada irreversível, arrastando tudo e todos para o abismo da intolerância.
Outro aspecto que considero curioso é a forma como os partidos se organizam internamente. Essa organização baseia-se quase exclusivamente mediante uma negociação, que na maioria das situações, nada ou quase nada tem a ver com a competência e o valor real de cada um dos eleitos pela casta dominante. Trata-se de um jogo de influências de corredor e amiguismo, distribuindo o poder pelas diferentes facções, num jogo pérfido de falsos equilíbrios.
Assim, à primeira disputa de lugares, aparecem as primas donas em acção, para alcançar cargos de responsabilidade, sem que para isso tenham dado quaisquer provas de merecimento ou sustentabilidade, enquanto outras numa postura histérica reclamam pelos seus direitos e portam-se como baratas tontas.
Seja o que for que aconteça a seguir, irão entrar em rota de colisão, sofrendo a terrível consequência de desagregação, derrapando para o confronto demagógico.
A máquina partidária responsável pelas tomadas de decisão, raramente é exposta ao conhecimento público. A cobertura dessas decisões, é uma ficção muito bem gerida pelas elites privilegiadas e protegidas, mantida escrupulosamente, que esconde os pormenores práticos da realidade política. Normalmente, em política, consegue-se manter intacta a ilusão da representatividade, com a cumplicidade das respectivas prima donas, evitando assim a dedução embaraçosa de que a ordem actual é realmente sustentada pelas elites que tomam as decisões.
Só quando surge uma clivagem significativa entre os elementos que constituem a classe dominante, ou como se costuma denominar de guerra de comadres, aparece a oportunidade de se apreciar como se movem as peças no aparelho partidário.
A deterioração da relação interna partidária, pode precipitar a situações irreversíveis, com consequências dificilmente quantificáveis num cenário de ruptura extremo. Este tipo de rupturas pode conduzir uma estrutura partidária de facto para um enorme abismo, lançando as diversas facções umas contra as outras.
Uma das ilusões da democracia, é a noção de que a política é conduzida pela vontade do povo. Nada se pode considerar mais longe da verdade. De facto, o sistema corporativo está baseado na ideia de criar selectivamente uma mensagem que se identifique com os interesses e objectivos da elite. Os interesses do público nunca são levados de forma séria nem equacionados aquando da elaboração das políticas, funcionando mais como uma parte tolerada mas não consentida.
A sociedade evoluiu depressa demais em comparação com os partidos ou até mesmo com o sistema representativo que o suporta. O neoliberalismo, a globalização e para além de tudo mais, a profunda alteração nos modos e nos objectivos das realidades peculiares da sociedade, contribuíram para um mundo em constante transformação, o qual não consegue identificar interlocutores nos modelos de estrutura político-partidária que, no essencial, ainda se mantém subjugadas por modelos herdados do século passado.

João Carlos Soares

domingo, novembro 12, 2006

A Consciência da Serpente

A Consciência da Serpente
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Não acredito na falada objectividade política, muito menos na isenção a qualquer preço. Mas acho que em política não se deve agir como um exército desbaratado e sem generais, no total desrespeito pela mais elementar regra de sobrevivência, pois pode ter um preço extremamente elevado e com consequências irreversíveis de muito difícil quantificação.
Numa marcha longa e difícil, ao longo de uma estrada repleta de surpresas e acontecimentos, mais ou menos explicáveis, vão com certeza ser muitos aqueles que sem cerimónia, a troco de ilusões e sonhos, a coberto de promessas, protagonismo e uma capa de ambição desmesurada, em alguns casos muito bem pagas, abandonar esse trilho transformando o seu espaço de opinião numa trincheira ou num balcão de negócios pouco claros.
Para amainar o clima desta minha irritada exposição, vou tentar recorrer a um exercício bíblico: o de imaginar como teria sido a preparação para a expulsão do primeiro casal do paraíso;
O primeiro casal humano teria sido encontrado deambulando em trajes menores. Os dois teriam sido expulsos de lá depois de um desentendimento com “Deus”. O casal contava a mesma história – a de que tinham sido levados a desobedecer a uma determinação divina, por causa da serpente. O réptil, habilidoso como sempre, teria convencido a mulher a comer uma maçã, fruto da árvore do conhecimento.
- Pode alguém por uma atitude tão inofensiva ser punido? perguntava a mulher, diante do olhar preocupado do homem ainda perplexo.
O porta-voz de Deus, explicou que o Senhor estava ocupado analisando as consequências do incidente para o seu projecto celestial e não poderia falar. Mas o porta-voz deixou claro que a Justiça Divina continuará sendo implacável e que os pedidos de amnistia ou mesmo de revisão de pena não serão levados em conta, nem poderão ser alguma vez perdoados, sendo a sua readmissão impossível alguma vez de concretizar.
A serpente não foi encontrada em nenhuma árvore. O advogado do casal vai pedir parecer pericial da maçã e reconstituição do crime. Não se sabe ainda as consequências para o futuro da humanidade. Há informações de que Deus analisa a possibilidade de eleger os golfinhos como os delfins herdeiros do paraíso. O casal de humanos admite que comer o fruto foi uma experiência inesquecível e definitiva e quer formar família.
Já A Voz da Serpente seria assim:
Insegurança de quem se apresenta como o Senhor de todas as coisas mostra a face cruel do “Todo-Poderoso” e deixa casal humano na maior miséria, sem ter onde morar.
O casal de humanos, vive dias de amargura, depois de ter sido posto para fora do paraíso, sem apelação. O autor da violência foi nada mais, nada menos do que Deus, que faz questão de gravar seu nome em letras maiúsculas. O verdadeiro motivo da expulsão foi o temor da concorrência. A mulher desafiou o poder de Deus, provando a maçã, fruto da árvore do conhecimento. Gostou do sabor, ofereceu ao homem que também se entusiasmou.
Quem informou à dupla sobre as vantagens do fruto, injustamente proibido pelo criador do paraíso foi a serpente, que agora corre o risco de ser responsabilizada pelo que o pessoal do céu chama de crime – a coerência, isenção, coluna vertebral correcta e independente. O casal ainda não sabe o que vai fazer e estudam uma proposta do Diabo para assumir cargo importante no Inferno.
Moral da história: impossível agradar a gregos e troianos, mas não é impossível a muitos casais e famílias, por uma questão de respeito e coerência para com aqueles que se mantiveram, e sabe-se bem a que custos, na estrada sinuosa e tortuosa, mantendo alguma equidistância.

João Carlos Soares

Pensamentos e Veleidades - Fim

Confronto Democrático
Parte IV
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Não é a simples polarização esquerda-direita que preocupa os governos mas a influência que essas opções vão ter no comportamento dos que decidem sobre o efeito que afectará de forma directa e impiedosa a sociedade.
Nos próximos anos, duas dinâmicas contrárias vão provavelmente disputar um papel determinante. Por um lado, no mundo, os interesses das grandes empresas, movidas por interesses financeiros, que se servem da tecnologia e da ciência com um espírito exclusivo de lucro. Por outra parte, uma aspiração à ética, à responsabilidade e a um desenvolvimento mais justo que leve em conta as exigências do meio ambiente sem dúvida vitais para o futuro da humanidade.
Desenvolvimento social, meio ambiente, ética, o papel central da cultura e outros conceitos afloram de maneira confusa mas poderosa nesta nova problemática do desenvolvimento humano. Não é apenas o voto de esquerda que varreu do mapa, na Europa, a maioria dos governos conservadores. Neste universo extremamente conturbado e ameaçador, emerge a busca de uma sociedade mais humana, de novos rumos que já não pertencem a uma ou outra classe.
O processo de análise que enfrentamos é complexo, pois a realidade avança com extrema rapidez, e os desafios são renovados a cada dia. É um caminho precário e sinuoso, cheio de fragilidades, mas tem de ser trilhado, pois os nossos tradicionais e inexpugnáveis abrigos intelectuais, que se tornaram confortáveis na medida em que os reforçamos com verdades definitivas, já não se sustentam. A guerra mudou de rumo, e a política mudou de lugar.
Não se trata portanto de discutir alguma teoria alternativa, porque a tanto não ambiciono, e sim de colocar na mesa, de uma forma que entendi oportuna e indispensável, algumas das novas cartas com as quais temos de jogar, sabendo que o jogo do qual somos participantes, é fértil de blufs e armadilhas com as quais precisamos estar identificados.
Trata-se de uma terceira via renovada, sem dúvida. Só que o conceito de terceira via mistifica na medida em que faz supor que só havia duas. Na realidade, o mundo está evoluindo por outros caminhos, sem se preocupar demasiado com os conceitos simplificadores com que o século passado tentou amarrá-lo. Hoje é uma terceira via, amanhã será uma quarta. A boa política constitui um processo permanente de consulta democrática, construindo realidades sempre novas, e não um ponto de chegada.
Se houvesse um catecismo ou bíblia na economia, seria mais fácil, ainda que, para dizer a verdade, nunca entendi o catecismo direito, muito menos a bíblia, quando na minha infância a tal fui submetido e condicionado.
Os meios de informação e de comunicação sofreram ao longo dos últimos anos uma completa revolução, e abrem-se perspectivas impressionantes para a racionalização das actividades económicas e sociais. As mais diversas instituições, ministérios, hospitais, empresas, organizações da sociedade civil, todos sem excepção produzem rios de informação. Temos portanto as tecnologias e a informação de base, mas não se formaram ferramentas de conhecimento organizadas para a formação dos cidadãos.
Por tudo isto e pela fragmentação de informação corrente nos mídia, o conhecimento torna-se-nos cada vez mais confuso e distante. Trata-se de identificar instrumentos concretos de informação para a cidadania a ser sistematizada segundo as necessidades de participação dos mais diversos actores na sociedade.

João Carlos Soares